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m de leitura Atualizado em 15/03/2022, 20:10

Cientista quer criar livraria antirracista após dizer ter sido seguida em loja no Rio

PUBLICAÇÃO
terça-feira, 15 de março de 2022

MATHEUS ROCHA
AUTOR autor do artigo

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RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) - A cientista da computação Nina da Hora, 26, usou as redes sociais para dizer que sofreu racismo na Livraria da Travessa no Leblon, na zona sul do Rio de Janeiro. No relato, ela afirmou que estava no estabelecimento com a irmã no último dia 3 quando um segurança começou a segui-la.

"O que me deixou com mais raiva foi ele parar em cima dos livros que eu estava vendo, se debruçou em cima dos livros a ponto de eu pedir pra ele me dar licença pra eu continuar olhando. Esse foi o nível", escreveu Da Hora, acrescentando que decidiu então acionar a gerente. "A primeira pergunta que a gerente me fez foi onde eu morava. Esse é o nível."

A livraria afirmou à reportagem que não compactua com práticas discriminatórias e que imagens do circuito interno não confirmam a narrativa.

A cientista disse que o episódio não diminui o seu gosto pela leitura. "O ponto é que não deixarei de entrar em livrarias, nem deixar de ler por isso. Aconteceu em um dos lugares (livrarias) em que mais me sinto bem, mas aí se o lugar não está preparado para pessoas negras, então é o lugar que tem que se retirar", escreveu ela, cujo caso está sendo acompanhado pelos advogados Djeff Amadeus e Letícia Domingos.

Formada pela PUC-Rio, Nina é uma das principais referências em ciência da computação do Brasil. Ela é idealizadora do podcast Ogunhê —iniciativa que traz entrevistas com cientistas negros— e membro do conselho consultivo de segurança do TikTok Brasil.

Além disso, é colunista do MIT Technology Review Brasil, publicação ligada ao MIT (Massachusetts Institute of Technology), um dos principais centros de ciência e tecnologia do mundo.

Em razão de seu trabalho, Nina foi eleita em 2021 pela revista Forbes uma das jovens de até 30 anos que mais se destacaram em seu campo de atuação.

Depois de ter relatado o caso, a cientista decidiu lançar uma vaquinha para criar uma livraria antirracista. Segundo a descrição do financiamento, a ideia é que a livraria seja um espaço onde não haja "perseguição de ninguém". Até a tarde desta terça-feira (15), o financiamento já havia arrecadado quase R$ 26 mil.

"Ao longo da nossa vida, foram colocando pessoas brancas em posições de intelectuais, enquanto a intelectualidade foi posta em um lugar inacessível para pessoas negras", explicou ela à reportagem. "A ação antirracista é importante porque a gente precisa combater [o racismo] e pensar em formas de mitigar a longo prazo toda essa violência que a gente sofre."

Em nota, a Travessa disse não compactuar com práticas discriminatórias. "É missão da livraria incluir, divulgar, promover o acesso a todas as manifestações culturais, e acreditamos ter um histórico que comprova isso. Entramos em contato com as referidas clientes e prosseguiremos com os esforços de sermos sempre democráticos e acolhedores. Com todos."

Segundo a livraria, o vídeo com as imagens do circuito interno da livraria será entregue à polícia para dar subsídio à investigação do fato e esclarecer o ocorrido. "As imagens não corroboram a narrativa da cliente", acrescentou na nota.