<p>SANTA CRUZ DO RIO PARDO E AMERICANA, SP (FOLHAPRESS) - Um consórcio de municípios do interior de São Paulo negocia a compra de vacinas da Oxford/AstraZeneca com um grupo turco do setor de construção civil que tem como parceira uma empresa americana acusada pela farmacêutica de fraude na venda de imunizantes.

</p><p>As 500 mil doses seriam adquiridas por US$ 4,875 milhões (cerca de R$ 27 milhões no câmbio atual), segundo um pré-contrato com vigência a partir de 16 de abril. Cada vacina seria comprada por US$ 9,75 (R$ 54).

</p><p>O pré-contrato -uma carta de intenção de compra- tem como destinatário o presidente do consórcio Ummes (União dos Municípios da Média Sorocabana), Marco Aurélio Oliveira Pinheiro (PSDB), também prefeito de São Pedro do Turvo.

</p><p>Foi Pinheiro quem anunciou, em 20 de abril, que negociava a compra das vacinas. Na ocasião, disse que estava otimista com relação à aquisição e que "o principal impasse estava em levantar fundos" - o tucano pretende angariar, além do dinheiro público, recursos de empresários.

</p><p>Fazem parte do consórcio 15 municípios da região de Ourinhos, no centro-oeste paulista.

</p><p>O pré-contrato foi emitido pela empresa Hilal Grup, que tem sede em Istambul e há 47 anos trabalha no ramo de infraestrutura.

</p><p>O comprador, segundo o documento, se compromete a comprovar a existência de fundos ao assinar um contrato de adesão com a Hilal e a criar uma conta de garantias para onde faria a remissão quando as doses fossem recebidas.

</p><p>A ordem de compra tem apoio da Akers Nanotechnology. Em seu site, a empresa, com sede nos EUA, afirma ter legitimidade para vender vacinas de seis fabricantes -AstraZeneca, Pfizer/BioNtech, Butantan/Sinovac, Moderna, Johnson & Johnson e Gamaleya.

</p><p>Especificamente sobre a AstraZeneca, diz ter sido sua parceira no desenvolvimento do imunizante e que, por isso, tem licença oficial para sua comercialização. A empresa não respondeu aos contatos feitos pela reportagem.

</p><p>A AstraZeneca nega ter quaisquer relações comerciais com empresas privadas ou intermediários na comercialização de vacinas, afirmando que negocia apenas com governos nacionais -no caso do Brasil, 100 milhões de doses contratadas pelo governo federal.

</p><p>Questionada pela Folha sobre seu suposto relacionamento com a firma americana, o laboratório afirmou na sexta-feira (30) ter sido "confirmada uma fraude em relação à Akers Nanotechnology".

</p><p>"Nosso foco atual tem sido em entregar nossos compromissos globais a governos e organizações internacionais de saúde o mais rapidamente possível; deste modo, não existe atualmente o fornecimento, a venda ou a distribuição da vacina pelo setor privado", afirmou, em nota.

</p><p>"Qualquer pessoa abordada por uma empresa privada que oferece a venda da vacina AstraZeneca contra a Covid-19 deve considerar isso uma tentativa de fraude e recusar a oferta. Qualquer produto que seja oferecido dessa maneira não está autorizado pela AstraZeneca e deve ser considerado uma falsificação e inseguro para os pacientes."

</p><p>"Todas as ofertas de natureza privada devem ser relatadas às autoridades policiais ou regulatórias de saúde do seu país", recomenda.

</p><p>Na segunda-feira passada (26), a União Europeia processou a AstraZeneca por quebra de contrato e atraso na entrega das vacinas. Segundo o bloco europeu, a fabricante entregou apenas 30% das 100 milhões de doses previstas no primeiro trimestre.

</p><p>Na Europa, a Akers aparece como uma das peças centrais do escândalo revelado na semana passada pela TV alemã ZDF em uma reportagem com o título "Febre do ouro em uma pandemia? Negócio suspeito de vacinas".

</p><p>Pelo esquema, o suposto médico alemão Dr. O se diz intermediário da AstraZeneca para uma venda "silenciosa" de doses de vacina em países como Alemanha, Itália e Eslováquia. A Akers seria seu parceiro nas transações.

</p><p>"Provavelmente o caso não é fraudulento, mas existem pessoas que realmente têm a vacina em um mercado paralelo", afirmou o procurador Rafaelle Cantone, de Perugia, ao canal.

</p><p>"É um pouco como uma atmosfera de corrida do ouro", disse o ministro da Saúde alemão, Jens Spahn.

</p><p>Já o Hilal Grup -o outro participante da negociação com o Ummes- anuncia serviços como reformas e perfuração de poços em seu site oficial. Os endereços de e-mail informados tanto no pré-contrato quanto no site devolvem mensagens de que são inexistentes. A reportagem não encontrou vizinhos que conhecessem a firma nos dois endereços físicos que a empresa mantém em Istambul.

</p><p>Um de seus proprietários, Recep Delikaya, disse à reportagem que a empresa passou a atuar há pouco tempo no setor médico. "Basta acompanhar a empresa para saber a respeito [da negociação dos imunizantes]", afirmou.

</p><p>O empresário é presidente da Suriçi, uma organização conservadora ligada ao presidente Recep Tayyip Erdogan. Ele parece ter bom trânsito entre autoridades da Turquia, aparecendo em fotos com ministros e governadores.

</p><p>A empresa é representada no Brasil por André Luiz de Souza Oliveira, ex-superintendente de Administração e Finanças do estado de Goiás. Segundo ele, o pré-contrato estabelece um tripé entre a Arkers, o Ummes e o Hilal -grupo que ele diz ser um dos maiores conglomerados industriais de Istambul, embora nunca tenha visitado sua sede.

</p><p>O servidor público garante que a negociação é legítima, mas diz: "Falei para o presidente do Ummes que, se houver dúvidas, ele não deve fazer negócio".

</p><p>Ele afirmou desconhecer o impasse envolvendo a empresa americana. "Eu não conheço a Akers. Estou seguindo instrução de uma empresa [Hilal Grup] que está oferecendo vacinas ao Brasil", contou.

</p><p>Informado nesta sexta sobre o pronunciamento da farmacêutica, o presidente da Ummes disse que levaria o caso a uma reunião, mas que tem a garantia de pagar somente quando tiver o produto em mãos. "Enquanto não existe risco de prejuízo, temos que tentar", afirmou Pinheiro.

</p><p>Segundo ele, há 50% de chances de a negociação ser formalizada. "Não temos vacina e precisamos correr atrás", lamenta.

</p><p>Ao fim da reunião, a Ummes divulgou nota assinada por nove prefeitos em que afirmou que o processo de compra "é baseado em credenciais devidamente validadas por órgãos de controle".</p>

mockup