China implanta '1984' na prática, e Ocidente precisa impedir, diz Hillary


ANA ESTELA DE SOUSA PINTO
ANA ESTELA DE SOUSA PINTO

<p>BRUXELAS, BÉLGICA (FOLHAPRESS) - A China está se transformando no maior "Estado de vigilância" da história e as democracias precisam contê-la, afirmou nesta terça (4) Hillary Clinton, ex-secretária de Estado dos EUA (2009-2013).

</p><p>"É tão '1984' [romance distópico do britânico George Orwell que descreve um Estado dominado pelo Grande Irmão]! Milhões de chineses estão sendo constantemente controlados, advertidos, punidos. Está saindo do controle", afirmou a política americana, fazendo menção ao uso pelo governo chinês de câmeras de vigilância, reconhecimento facial e monitoramento de celulares e dados.

</p><p>A polícia chinesa também está colhendo amostras de sangue de cerca de 700 milhões de homens e meninos, para construir um mapa genético de sua população masculina, que será usado como nova ferramenta de controle.

</p><p>Em debate sobre o futuro das democracias liberais promovido pela Chatham House --instituto de análise independente sediado no Reino Unido--, Hillary citou também a Rússia e as grandes companhias de tecnologia (as chamadas big techs) como ameaças contra as quais líderes democráticos devem se levantar.

</p><p>No caso da China, diz ela, é preciso exigir responsabilidade climática, controle de armas e respeito aos direitos humanos. "Sobre Hong Kong, há apenas um silêncio enorme. Os chineses simplesmente romperam o acordo [feito com os britânicos em garantia de direitos civis no território] e não se ouviu revolta. "

</p><p>Para Hillary, a timidez do Ocidente em relação ao país asiático se deve à dependência econômica, que precisa ser desarticulada, mesmo que à custa de subsídios --para incentivar empresas a retomarem sua produção fora da China.

</p><p>"Na pandemia, ficamos reféns da misericórdia chinesa. Está claro que temos que reconstruir nossas cadeias de suprimento, e chega de dizer que isso fere a economia de mercado. A China não é uma economia de mercado, é impossível concorrer nesses termos."

</p><p>Se o país asiático é um "Estado de vigilância", empresas globais de tecnologia formam um "capitalismo de vigilância", definiu ela, baseado no que chamou de "ecossistema conspiratório movido por algoritmos".

</p><p>Hillary considera importantes as iniciativas para controlar as big techs --como tributação, normas de concorrência e de acesso a dados--, mas duvida que sejam suficientes. "A vigilância é algo tão engrenado no funcionamento dessas companhias que talvez seja necessário mudar suas estruturas, pelo bem da democracia", disse.

</p><p>O modelo das redes sociais, que coleta informações sobre os usuários e permite que empresas e entidades os usem para direcionar anúncios --com fins comerciais ou políticos--, está sendo usado por líderes irresponsáveis para aprofundar a desinformação e a polarização e minar sociedades democráticas, afirma Hillary.

</p><p>O governo da Rússia sob Vladimir Putin é um dos principais manipuladores dessa ferramenta, segundo a ex-secretária de Estado. "Já está clara a interferência em eleições americanas, na campanha do brexit, no apoio a candidaturas em países europeus, mas apesar disso, continua acontecendo", disse.

</p><p>Para Hillary, o sucesso russo em manipular a opinião pública em outros países sem sofrer consequências incentiva outros governos autocráticos e ditaduras, como Irã e Coreia do Norte, a fazer o mesmo.

</p><p>Além de uma resposta mais dura de governos ocidentais, ela cobrou mais responsabilidade da mídia. "Assuntos graves são facilmente esquecidos, e as mesmas figuras que mentiram nas eleições são entrevistadas agora sem que ninguém questione suas falsidades."

</p><p>Salvar uma democracia que ela considera em crise vai exigir não só o conteúdo certo mas também uma nova forma de se engajar com o público, na opinião de Hillary. "Os jovens de 20 anos cresceram vendo os valores democráticos sendo postos em dúvida, e não é simples falar com eles. Política pública é um assunto chato."

</p><p>Para a ex-secretária, uma das saídas pode ser a linguagem de entretenimento. "[O ex-presidente Donald] Trump era basicamente entretenimento, e atraía a atenção do público. E continua atraindo até hoje", disse.

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