Chacina em creche deixa a pequena Saudades, em SC, transtornada


KATNA BARAN E FERNANDA CANOFRE
KATNA BARAN E FERNANDA CANOFRE

<p>CURITIBA, PR, E PORTO ALEGRE, RS (FOLHAPRESS) - "É uma tragédia, uma cidade de 10 mil habitantes como a nossa, um fato desses, nem nos piores pesadelos a gente poderia imaginar", disse à reportagem Maciel Schneider (PSL), prefeito de Saudades, na região oeste de Santa Catarina.

</p><p>A tragédia a que ele se refere são as mortes de pelo menos cinco pessoas, depois que um jovem de 18 anos invadiu uma creche e golpeou professores e crianças com uma arma branca semelhante a um facão, na manhã desta terça-feira (4).

</p><p>O episódio deixou em choque a cidade, que tem 9.810 habitantes, segundo estimativa do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), e nunca tinha testemunhado casos de violência parecidos. Entre os mortos estão uma professora, Keli Adriane Aniecevski, 30, uma agente de educação, Mirla da Costa Renner, 20, e três crianças menores de dois anos.

</p><p>O jovem também se cortou com a arma, sendo encaminhado a um hospital com ferimentos no pescoço, abdômen e tórax, segundo as forças de segurança do estado.

</p><p>As professoras da Escola Municipal Infantil Pró-Infância Aquarela, onde ocorreu o atentando, se trancaram nas salas de aula com as crianças para tentar conter a ação do suspeito. Com as restrições da pandemia, havia cerca de 20 pessoas no local, segundo fontes ouvidas pela reportagem.

</p><p>Uma das funcionárias que não quis se identificar contou à reportagem que estava na sala dos professores no momento do atentado, se preparando para retornar para a sala de aula, quando ouviu gritos de Keli, primeira vítima atingida pelo rapaz.

</p><p>Segundo ela, a professora o abordou logo que ele entrou na escola, perguntando do que ele precisava, mas, sem maiores explicações, foi atacada pelo rapaz, que vestia roupas pretas.

</p><p>A funcionária conta que, pelo tamanho e características, chegou a pensar que a arma fosse um cacetete. Logo que percebeu a agressão, ela e outra professora se trancaram na sala de materiais da escola. Ela percebeu depois que as colegas fizeram o mesmo em outros ambientes, na tentativa de impedir a ação do suspeito.

</p><p>Ela afirmou que, ao sair para pegar o celular, viu o homem tentando quebrar os vidros com o facão e entrar nas salas, enquanto as professores e agentes de educação seguravam as portas.

</p><p>Ao retornar para a sala de materiais, a professora disse ter ouvido muitos gritos e barulhos que pareciam disparos de arma de fogo. Segunda ela, depois soube que ele soltou estalinhos durante a ação.

</p><p>Quando o barulho diminuiu, ela pulou a janela da sala em que estava para verificar como estavam as crianças das quais cuidava. Naquele momento, o suspeito já havia sido capturado por vizinhos da escola.

</p><p>Segundo relato de outra funcionária, que também pediu para não ser identificada, a segunda vítima do rapaz foi Mirla, que chegou a ser socorrida, mas morreu no hospital. Após atacar as funcionárias, ele conseguiu entrar em uma das salas de aula, onde atingiu as crianças.

</p><p>Uma das fontes ouvidas pela reportagem disse que foi tudo muito rápido e que tentou pegar as crianças no braço, mas não teve força suficiente. O jovem teria vindo, então, em sua direção, e ela correu até o portão para pedir socorro, conseguindo escapar.

</p><p>À NSCTV, outra professora, Aline Biazebetti, que trabalha em outro turno, mas mora em frente à creche e foi até o local depois de ouvir os pedidos de ajuda, também relatou que professores tentaram esconder as crianças, para protegê-las durante o ataque.

</p><p>"Elas viram que estava acontecendo alguma coisa, conseguiram levar todos [alunos] para o fraldário e botar debaixo do mármore e uma 'profe' conseguiu segurar a porta, ele tentou abrir, mas daí no fim ele [agressor] acabou desistindo. Elas começaram a fechar as janelas para tentar se proteger", contou ela à emissora.

</p><p>É muita tristeza. Não tenho nem palavras porque eu perdi colegas."

</p><p>Uma das professoras ouvidas pela reportagem contou que Keli era formada em Sistema de Informação e, para problemas de informática, ela era o "socorro" das colegas. Disse ainda que era adorada pelas crianças.

</p><p>Já Mirla é descrita pela colega como uma menina quieta e sonhadora, mas muito prestativa, e que gostava de artes e desenho. Ela tinha 20 anos e cursava Engenharia Química na Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc).

</p><p>O prefeito decretou luto no município, suspendeu todas as aulas na rede municipal, colocou profissionais de saúde, especialmente psicólogos, à disposição de familiares das vítimas e testemunhas e conta que está recebendo suporte em serviços de outros municípios vizinhos.

</p><p>Maciel se emocionou ao comentar a tragédia. Prefeito de primeiro mandato, ele tem um filho de um ano e um mês, idade próxima das vítimas, e conhecia a maioria dos envolvidos no episódio.

</p><p>"Nós conhecemos todas as pessoas, aqui é uma cidade pequena. Conheço as crianças, os pais das crianças, os avós das crianças, a gente conhece todas as pessoas", disse ele à reportagem, por telefone.

</p><p>Ele conhecia também os pais do jovem suspeito do ataque. Segundo o prefeito, o rapaz não tinha vínculo com a escola, professores ou alunos e morava distante do local, onde chegou de bicicleta na manhã desta terça. "Não se sabe o que passou na cabeça dessa pessoa", diz ele.

</p><p>Mais cedo, a Polícia Militar de Santa Catarina divulgou que, segundo relatos de pessoas que estavam no local, o jovem disse ter sofrido bullying, mas nunca estudou no local.

</p><p>Vereador no município, Alfeu José Schuh (PT), é tio-avô de uma das crianças mortas no atentado, uma menina de cerca de um ano e meio de idade. "O município está transtornado, é uma coisa inacreditável, não caiu a ficha ainda do que aconteceu", afirmou ele.

</p><p>Segundo ele, o jovem, suspeito pelos crimes, é de família simples, filho de um homem que cuida de uma chácara. "A mãe dele é uma pessoa muito simpática, meiga. Perante a sociedade, nunca imaginaríamos que ele faria algo assim", diz o vereador.

</p><p>A Escola Municipal Infantil Pró-Infância Aquarela atendia crianças na faixa etária do chamado berçário, de 0 a 3 anos. Pelo plano de contingência do município, durante a pandemia do novo coronavírus, havia cerca de 50% do público normal no local.

</p><p>Um velório coletivo para as vítimas, com restrições sanitárias devido à pandemia, deve ocorrer no Ginásio do Parque de Exposições Theobaldo Hermes. O dia e a hora não foram informados.

</p><p>O governo de Santa Catarina anunciou que a governadora em exercício, Daniela Reinehr, e representantes das forças de Segurança Pública estarão em Saudades para prestar apoio às famílias e acompanhar as investigações.</p>

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