|
  • Bitcoin
  • Dólar 4,9391
  • Euro 5,1929
Londrina

Últimas Notícias

m de leitura Atualizado em 15/03/2022, 05:51

Cem anos depois de 'Nosferatu', vampiros brilham nas telas como ícones de geração oprimida

PUBLICAÇÃO
terça-feira, 15 de março de 2022

LEONARDO SANCHEZ
AUTOR autor do artigo

menu flutuante

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Em "Nosferatu", os habitantes de uma cidadezinha alemã tentam a qualquer custo tirar o vampiro protagonista, conde Orlok, de circulação. Na vida real, também tentaram acabar com qualquer vestígio do personagem, uma adaptação de "Drácula", de Bram Stoker, que tomou liberdade poética para não ter que pagar direitos autorais.

Mas nesta semana, cem anos após a chegada do filme aos cinemas, "Nosferatu" está mais vivo do que nunca. Fazendo jus a seus poderes sobrenaturais, o personagem virou imortal e seduziu diversos cineastas a darem sequência à tradição do vampirismo nas telas.

Lançado para o público geral no dia 15 de março de 1922, "Nosferatu" se tornou um clássico do terror e um dos mais importantes exemplares do expressionismo alemão, movimento que abusava do jogo de luz e sombras e dos cenários distorcidos para tratar de temas sombrios.

Foi, por muito tempo, considerada a primeira adaptação de "Drácula" para o cinema --hoje, no entanto, sabemos que houve um antecessor que não sobreviveu à passagem do tempo--, apesar de ter mudado os nomes dos personagens e outros detalhes.

Nem por isso passou despercebido pelo espólio de Stoker, que processou e conseguiu fazer com que as cópias de "Nosferatu" fossem destruídas. Seus produtores, ligeiros, enviaram rolos do filme para outros países e o preservaram.

No Brasil, por exemplo, uma cópia clandestina chegou em 1929 e foi exibida sem muita pompa justamente por seu status ilegal, sob o estranho título "O Lobisomem" --o conde Drácula também se transforma em lobo.

É o que revela uma pesquisa de Carlos Primati, especialista no gênero e que prepara a versão brasileira de uma novelização do longa, lançada em revistas estrangeiras da época para atrair o público.

De acordo com ele, essa história de sobrevivência das cópias ajudou o filme a se fixar no imaginário popular e a virar fenômeno cult, conquistando fãs no mundo todo e alçando o diretor F. W. Murnau a uma carreira bem-sucedida em Hollywood.

Não foi só por isso, no entanto, que "Nosferatu" voou alto. O sucesso do filme mudo alemão, junto com outras obras expressionistas, escancarou o gosto do público pelo terror. Surgiu, então, um frenesi pelo gênero e, em especial, pelos vampiros, que inspiraria vários outros diretores e roteiristas --Werner Herzog chegou a regravar o clássico em 1979 e até Bob Esponja já contracenou com a criatura.

Filmes de monstro, afinal, têm forte potencial de atração por servirem como metáfora para os medos e aflições da época em que são lançados. O grande trunfo dos vampiros, o que os torna tão especiais, é que eles são seres mais relacionáveis, e até mesmo sedutores, que, digamos, um zumbi ou extraterrestre.

"Todo trabalho cultural é moldado pelos pensamentos da sociedade em determinado momento. Isso se aplica aos filmes de monstro, já que o que é monstruoso depende do que é considerado normal pelas pessoas. E, apesar de o conde Orlok não ser atraente, no geral os vampiros são os mais sensuais dos monstros", diz Jeffrey Andrew Weinstock, professor da Universidade Central Michigan, nos Estados Unidos, e autor de "The Vampire Film: Undead Cinema".

Ele conta que "Nosferatu", por exemplo, hoje é amplamente interpretado como um reflexo do clima de antissemitismo e nacionalismo entre as guerras mundiais. Falamos, afinal, de um homem do leste europeu que quer comprar uma casa na Alemanha. Ao transportar seus caixões de terra para lá, leva junto ratos que causam doenças e mergulham a cidade no caos.

Professor da Universidade de Melbourne e autor de "Reading the Vampire", Ken Gelder completa a interpretação lembrando que "Nosferatu" foi lançado pouco após a gripe espanhola. "A Europa da época sabia pouco sobre pragas e pandemias, então esse é um filme que fala sobre a morte em massa", afirma.

Retratado como um ser repulsivo, com suas mãos e nariz longos, olhos esbugalhados e a silhueta comprida, Orlok em nada lembra a célebre versão do vampiro de Bram Stoker que foi lançada na década seguinte, quando a Universal inaugurou em Hollywood a febre por filmes de monstros, com o "Drácula" estrelado por Bela Lugosi.

Nele, o chupador de sangue é elegante e sedutor, da mesma forma que era o personagem quando o próprio ator húngaro o interpretou na Broadway. Descrito como um homem vaidoso, quase um galã, ele consagrou uma abordagem irresistivelmente sedutora para o conde Drácula, que seria replicada à exaustão mais tarde.

"As histórias de vampiros são frequentemente associadas a tabus relacionados a formas de intimidade. Isso desde o livro, no qual o Drácula tem três mulheres, vai atrás tanto de mulheres quanto de homens e transforma Mina Harker em vampiro forçando a moça a beber sangue de seu peito", diz Weinstock.

"Esse erotismo, com o passar dos anos, foi ampliado por atores como o Lugosi e, depois, Brad Pitt, Robert Pattinson e Alexander Skarsgard. O apelo do vampiro tem muito a ver com essa liberdade sexual."

A sensualidade inerente à ideia de ter seu pescoço mordiscado por um homem misterioso fez com que o vampiro vivesse um auge entre os anos 1980 e 1990. Nessas décadas, filmes com um maior erotismo transformaram os dentuços em fantasias sexuais, um reflexo de uma época de maior liberdade na cama e também de um sentimento de não conformidade entre os jovens.

Em "Fome de Viver", de 1983, o transgressor David Bowie e a musa Catherine Deneuve formam um casal em busca de sangue. Em "Os Garotos Perdidos", de 1987, os vampiros criam uma gangue rebelde de estética rock and roll e gótica. Em "Entrevista com o Vampiro", de 1994, inspirado no livro de Anne Rice, os sex symbols Brad Pitt, Tom Cruise e Antonio Banderas foram escalados para usar caninos afiados postiços. Em "Um Drink no Inferno", de 1996, George Clooney visitava um clube de strip sombrio.

A mais emblemática das adaptações desse período é também a mais sexy. "Drácula de Bram Stoker", que Francis Ford Coppola dirigiu há 30 anos, tinha um par de beldades à frente --Keanu Reeves e Winona Ryder, no auge de seu sex appeal, como Jonathan e Mina Harker. Já no papel de Drácula estava um jovem Gary Oldman.

Numa das cenas, ele se transforma em névoa e penetra sorrateiramente sob os lençóis da mocinha, arrancando gemidos de prazer. Quando Mina acorda, ela percebe que está perdidamente apaixonada pelo conde, que a envolve em seus braços, desabotoa as roupas e deixa que ela chupe, com muita vontade, seu sangue.

Para os pesquisadores de vampirismo, "Drácula de Bram Stoker" explorava sem pudores a angústia que existia em relação à Aids nos anos 1980 e 1990, dando ênfase à troca de sangue entre os personagens e à maldição trazida pela infecção, sempre associada à entrega ao prazer.

No fim da década, foi a vez de leituras queer do personagem serem feitas. O lesbianismo esteve presente, de forma pioneira, em "Buffy: A Caça-Vampiros", que seguiu "Os Garotos Perdidos" numa onda de vampiros representando os anseios dos jovens.

De forma semelhante, "True Blood" satirizava a homofobia dos anos 2000 e, nas últimas temporadas, não economizou nas cenas de sexo vampírico gay. Isso fez com que as criaturas deixassem de ser vistas como monstros e passassem a ser aliadas de uma juventude não conformista e de grupos marginalizados.

"No século 21, o público está mais propenso a sentir empatia, em vez de repulsa, pelos forasteiros. Hoje, nossos monstros são justamente aqueles que são intolerantes ao diferente, não mais aqueles que não se encaixam. Nesse contexto, os vampiros foram reabilitados como heróis", afirma Weinstock, o professor.

Ken Gelder completa que, hoje, os vampiros também são uma "figura exausta, no fim de uma longa vida". "Isso fala com nossos tempos de modernidade. Vimos demais e não sabemos mais como seguir. Alguns filmes hoje ainda mostram o vampiro sofrendo para encontrar recursos para viver, o que é contemporâneo."

É o caso de "Amantes Eternos", de 2013, sobre um casal que pena para conseguir sangue de forma não violenta e passa os dias entediado, porque, imortal, já viveu o suficiente. "Deixe Ela Entrar" e seu remake americano, "Deixe-me Entrar", falam sobre o medo do estrangeiro em tempos de xenofobia crescente, bem como "Missa da Meia-Noite", série que também fala de intolerância religiosa. "Garota Sombria Caminha pela Noite", por sua vez, tem uma vampira que ataca homens sacanas.

O ponto fora da curva talvez seja justamente o mais famoso dos vampiros contemporâneos --Edward Cullen, de "Crepúsculo". O galã sofredor foi parcialmente responsável por drenar o temor em torno dos vampiros. Segundo Carlos Primati, ele fez sucesso numa época em que a aflição e o amor adolescentes estavam em alta, refletindo "uma necessidade do jovem de se encaixar numa tribo".

Cem anos após "Nosferatu", Primati, Gelder e Weinstock veem ainda um longo futuro para os vampiros nas telas. Essas criaturas, afinal, são conhecidas por se adaptar --e certamente muitas outras angústias contemporâneas darão material para as metáforas que acompanham seus caninos, como provam versões atualmente em desenvolvimento, do herói de "Morbius", da Marvel, a uma série baseada em "Entrevista com o Vampiro".

*

NOSFERATU

Alemanha, 1922.

Dir.: F. W. Murnau.

Com: Max Schreck, Gustav von Wangenheim e Greta Schröder.

Domínio público; disponível em plataformas como YouTube, Telecine Play, Belas artes à la Carte e Looke