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m de leitura Atualizado em 24/02/2022, 16:29

Capitão da Marinha assume chefia da Biblioteca Nacional no lugar de monarquista

PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 24 de fevereiro de 2022

JOÃO PERASSOLO
AUTOR autor do artigo

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Ex-capitão de mar e guerra da Marinha do Brasil, Carlos Fernando Rabello assumiu nesta quinta-feira a direção da Fundação Biblioteca Nacional. Sua nomeação foi publicada no Diário Oficial da União. Ele substitui o monarquista Rafael Nogueira, que deixou o cargo há poucas semanas.

Rabello vem da Fundação Casa de Rui Barbosa, onde trabalhava diretamente com a presidente, Letícia Dornelles, desde 2020, com quem mantinha uma relação conflituosa, segundo servidores.

Como diretor executivo, ele era responsável por funções administrativas, como supervisionar a elaboração da proposta orçamentária e do plano de ação da Casa de Rui Barbosa e auxiliar a presidente em outras atividades. Rabello não tinha ingerência direta sobre a programação da instituição.

Segundo seu perfil no Instagram, Rabello tem graduação em análise de sistemas, mestrado em administração de empresas e MBA em marketing de entretenimento.

É, portanto, um perfil distante do universo dos livros e também do presidente anterior da Biblioteca Nacional —o olavista conservador Rafael Nogueira é professor de história do Brasil, com ênfase no século 19, e tem graduações em filosofia e direito, além de mestrado em educação.

De acordo com um ex-servidor da Casa de Rui Barbosa que prefere não se identificar, Rabello tinha uma relação conflituosa com a presidente da instituição e foi nomeado contra a vontade dela.

Um servidor atual afirma que a divergência se devia ao fato de ambos estarem em alas opostas do governo Bolsonaro —militar de formação, Rabello era ligado aos fardados, enquanto Dornelles, indicada ao cargo pelo pastor Marco Feliciano, é da ala ideológica.

A rivalidade de ambos ficou explícita, disse o servidor, no momento em que a presidente teria ignorado o regulamento interno da instituição e nomeado Mauro Rosa, então diretor do centro de memória e informação, para ocupar o seu cargo em períodos de férias ou licenças. Pelo código da Casa de Rui Barbosa, quem deveria ocupar o lugar da presidente é o diretor executivo, ou seja, Rabello.

Houve uma outra situação que indicava a animosidade de ambos, segundo o servidor. Rabello teve Covid no final de janeiro e precisou se afastar, mas quando retornou ao trabalho sua sala estava esvaziada, sem os documentos, mesmo ele não tendo sido exonerado oficialmente.

A presidente da Casa de Rui Barbosa afirma que seu substituto eventual é uma escolha de livre nomeação feita pelo ministro do Turismo, Gilson Machado, a partir de solicitação sua. Sua escolha por Mauro Rosa, ela diz, se deu pela experiência do servidor em gestão pública, ter cargo de direção, ter sido reitor de uma universidade, ser altamente qualificado e contar com sua confiança.

Sobre a sala esvaziada, Dornelles afirma que a instituição tem 80 câmeras de segurança e um grupo de seguranças terceirizados que guardam o local. "Nada passa despercebido", ela diz. Afirma ainda que Rabello supostamente autorizou Ivana Maria Napoli Fernandes, ex-coordenadora-geral de administração, a ir até a instituição buscar documentos pessoais dele, "porém ela saiu daqui com muitas sacolas e até uma malinha de viagem". Isto ocorreu no dia 21 de janeiro. No dia 27, chegou um comunicado do ministério do Turismo avisando do desligamento do militar.

A funcionária, amiga de Rabello e indicada por ele para o cargo, foi duas vezes à Casa de Rui Barbosa e não fez inventário do que retirou, segundo a presidente. "Temos documentos importantes e acervos raros", diz Dornelles. Ela acrescenta ainda que Rabello lhe mostrou uma mensagem dizendo que sua filha estava com Covid ou influenza e que depois disso o militar tirou uma licença médica, que emendou com as férias.

Embora a carreira de Rabello tenha sido mais voltada para administração e negócios, o servidor tem alguma experiência na área cultural. Além do MBA na área de entretenimento, foi membro de um grupo de pesquisa da Fiocruz que estudou educação e o comportamento do público em museus. Ele também coordenou a preservação e gestão do arquivo da Marinha e do Museu Naval e Ilha Fiscal.

Depois de se desligar da Marinha —em que ocupou um dos cargos mais altos na hierarquia—, o militar treinou e dirigiu a equipe de vendas da Escape60, uma empresa dedicada ao desenvolvimento de equipes de recrutamento e seleção, a partir de meados de 2016.

Segundo descrição da Escape60 no LinkedIn, as equipes são trancadas em salas temáticas e tem uma hora para "decifrar códigos, achar itens escondidos, resolver enigmas e conseguir encontrar a saída."

Rabello é mais um militar a ocupar um cargo na Cultura. O ex-PM André Porciuncula é hoje o chefe da Lei Rouanet e braço direito do secretário especial da Cultura, Mario Frias.

A Fundação Biblioteca Nacional é uma principais instituições culturais do país, com acervo de livros que remonta à chegada da família real ao Brasil, em 1808. É a maior biblioteca da América Latina.