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m de leitura Atualizado em 14/03/2022, 11:43

Busca por ucraniano em plataforma de ensino aumenta 485% após início da guerra

PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 14 de março de 2022

DANIELA ARCANJO
AUTOR autor do artigo

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A comoção mundial que a guerra na Ucrânia desatou respingou na cultura nos últimos dias: ao mesmo tempo que restaurantes deixam de servir pratos russos e mudam nomes de drinks que façam referência ao país, a cultura ucraniana é alvo de crescente interesse.

Parte desse movimento está refletido no aumento de estudantes de ucraniano em uma das maiores plataformas de ensino de línguas do mundo, o Duolingo. O aplicativo de idiomas viu o interesse mundial na língua crescer 485%. No Brasil, o ucraniano passou da 31ª língua mais procurada para ocupar a 14ª posição do ranking após o início da guerra.

A estudante Clara Sautchuk, de 21 anos, e seu irmão Gabriel, de 14, procuraram o idioma na plataforma poucos dias depois da invasão da Ucrânia pela Rússia, no final de fevereiro. Trinetos de um ucraniano, os irmãos contam que a identidade com a nação não se manteve na família ao longo dos anos.

"A gente nunca se dedicou a aprender a língua, conhecer a cultura nem nada do tipo, apesar de ser algo tão próximo da nossa família. Com a guerra, foi um choque. Eu tenho um sobrenome nessa língua que não conheço", diz Clara.

Como já está investindo no alemão e cursos de ucraniano são mais difíceis de achar, ela procurou pelo aplicativo. Chamou o irmão e, juntos, já aprenderam palavras básicas, como "mãe", e estão tendo as primeiras lições do alfabeto cirílico --o mesmo utilizado no russo.

Compreendê-lo tem sido um desafio, segundo eles, assim como aprender a pronúncia. "É muito diferente. Algumas coisas do alemão, por exemplo, são parecidas com o inglês, então você consegue entender o geral", diz Gabriel. No caso do ucraniano, conta, não há referências.

O ucraniano pertence a família das línguas eslavas, como a belorussa e a russa. Elas começaram a se diferenciar a partir do século X, segundo o professor do departamento de línguas eslavas da Universidade Columbia Yuri Shevchuk. "Russo e ucraniano não são línguas tão próximas. Há similaridades, mas elas podem ser superficiais", explica.

Ainda assim, grande parte dos ucranianos entendem o russo --uma via de mão única, já que, segundo Shevchuk, isso ocorre porque eles estão mais expostos ao idioma da potência.

"O fato de existirem certas semelhanças entre o ucraniano e o russo muitas vezes tem sido usado pela propaganda imperial russa como um argumento de que a língua ucraniana não é realmente uma língua, mas um 'dialeto do sudoeste russo'. Isso é uma invenção sem nenhuma base linguística", afirma o pesquisador.

O uso da língua russa como um instrumento para o domínio, diz Shevchuk, remonta ao czarismo, sistema que perdurou na Rússia até o início do século XX. "A história das relações linguísticas russo-ucranianas conta com mais de 150 maneiras diferentes de proibir o uso público da língua ucraniana."

Os ventos vinham mudando após a queda do muro de Berlim no final dos anos de 1980 e a dissolução da União Soviética, da qual fez parte a Ucrânia. "A geração mais jovem de ucranianos da parte oriental [atualmente separatista] está se tornando falante de ucraniano por causa do crescente número de escolas, publicações, universidades e conteúdo cultural na língua."

Na guerra, a questão linguística voltou à tona. O presidente russo Vladimir Putin alega estar protegendo os falantes de russo da Ucrânia, que estariam sofrendo opressão no país vizinho.

Além das descoberta da linguagem, na última semana Clara e seu irmão começaram a explorar também a gastronomia da região e fizeram um babka, pão doce típico do leste europeu e das comunidades judaicas.

A guerra, diz ela, misturou várias partes da sua vida.

"Eu sou estudante de museologia. Estava acompanhando as notícias dos museus, dos monumentos das cidades ucranianas sendo destruídos e isso foi me dando um sentimento muito pesado. Estão apagando a memória dessas pessoas", afirma.

"Passou pela minha cabeça, como museóloga, talvez entrar em projetos ou criar algo para restabelecer a memória e o patrimônio do país. É um pensamento grande, mas como é algo da minha área, seria muito interessante", conclui.