Broadway reabre lotando teatros em Nova York, mas ainda sofre sem os turistas


LÚCIA GUIMARÃES
LÚCIA GUIMARÃES

NOVA YORK, EUA (FOLHAPRESS) - A tarde ensolarada em Times Square lembrava Nova York antes da pandemia. No primeiro fim de semana desde a reabertura da Broadway, o público das matinês encheu os dez teatros que já têm espetáculos em cartaz. Foi um jejum de 18 meses. De todos os estágios da lenta volta à normalidade, nenhum tem o simbolismo do grupo de teatros que traz anualmente US$ 14 bilhões para a economia local e emprega 97 mil pessoas.

Na véspera da reestreia do primeiro grupo de shows, um canal de TV a cabo local exibiu um especial ao vivo com estrelas consagradas de musicais, como Kristin Chenoweth, do elenco original de "Wicked".

No Ed Sullivan Theater, onde é gravado o único talk show que usa um teatro da Broadway como cenário, o anfitrião Stephen Colbert desenrolou o tapete vermelho para uma rara aparição de Stephen Sondheim, recebido como o “maior compositor e letrista dos musicais americanos.” Aos 91 anos, o lendário criador de "Company" e "Sweeney Todd" revelou que já tem um musical pronto, chamado "Square One", para estreia no ano que vem.

A Broadway League, a associação de proprietários de teatros, lançou um vídeo suntuoso, chamado "This Is Broadway" —esta é a Broadway—, narrado por Oprah Winfrey, ao mesmo tempo celebração e memória de grandes espetáculos.

Na primeira safra de produções, a novidade é "Six", um elogiado musical sobre as seis mulheres do rei Henrique 8º, que tinha estreia marcada para o dia em que a Broadway parou, 12 de março de 2020.

A atmosfera que cercou o retorno da Broadway evocou outro período de luto e solidariedade que uniu o mundo do teatro de Nova York. A primeira década da epidemia de Aids dizimou especialmente a comunidade de atores e artistas locais. Em certos períodos do ano, ao final de espetáculos, elencos pediam doações aos espectadores para os fundos de ajuda aos artistas incapacitados.

Mas é cedo para se falar de um novo normal. Sim, as máscaras obrigatórias na plateia e a admissão condicionada ao certificado de vacina vão ser parte da rotina pelo menos até o final do inverno do hemisfério norte.

Espetáculos como "Hamilton" e "O Rei Leão" estão lotados, mas, ao contrário de anos anteriores, a bilheteria do megassucesso "Hamilton" revelava ingressos disponíveis com menos de uma semana de antecedência.

A vasta área de pedestres de Times Square estava cheia no último fim de semana, mas o cálculo informal de um policial de plantão confirmou a suspeita —a multidão não chegava à metade da massa humana que se via antes.

O fato é que a Broadway, como outras atrações de Nova York, depende menos de nova-iorquinos do que de turistas domésticos e estrangeiros. E a variante delta do coronavírus, além de espantar os estrangeiros, rachou o país entre estados com alto número de vacinados e estados onde a resistência à vacina, especialmente no sul, trouxe a pandemia de volta com uma fúria que levou a rede hospitalar à beira do colapso.

O outono que começa agora vai ser um teste para definir a viabilidade de várias grandes produções. Shows como "O Rei Leão", que empregam mais de cem pessoas, precisam encher a casa oito vezes por semana para se manter em cartaz no longo prazo.

A presidente da liga de teatros, Charlotte St. Martin, comandou a reabertura dos 41 teatros como estrategista militar, mas sem ilusões. Desde que os planos de reabertura foram sendo adiados, no ano passado, ela deixou claro que a pandemia desafia a mais organizada coordenação.

Greves, furacões e catástrofes como o 11 de Setembro deixaram a Broadway no escuro antes, mas a pandemia continua a oferecer incerteza. No domingo, os guichês TKTS de ingressos com descontos em Times Square não tinham filas.

O turista mexicano Ricardo López trouxe a família de 12 pessoas e conseguiu ingressos para "O Rei Leão". Estava relaxado e confiante nos protocolos sanitários. A mesma tranquilidade foi demonstrada por Tracy Roomsberg e a filha Taylor, de Virginia Beach, que compraram ingressos para "Chicago".

Um casal do estado do Colorado que veio a Nova York para assistir a uma gravação do programa de Stephen Colbert procurava ingressos para "Drunk Shakespeare" —ou Shakespeare bêbado—, um espetáculo interativo off-Broadway que teve boa recepção crítica.

Um clima elétrico marcou as primeiras performances, com relatos de shows sendo interrompidos por várias ovações, o que foi confirmado por duas texanas que saíram para fumar na calçada no intervalo da matinê de "Hamilton". “É perfeito,” disse Carrie, "há muita energia e excitação”. “As pessoas tinham saudades desse tipo de coisa,” completou a amiga Emily. Quando a porta do teatro abriu ao final e o público começou a encher a calçada ainda se ouviam gritos de alegria vindo da plateia.

Uma fila de pedicabs, os novos riquixás, formava um comitê de recepção e, Nova York sendo Nova York, uma rápida consulta revelou que eram todos turcos, o grupo imigrante que parece predominar no ramo. Eles se disseram contentes com o movimento, mas observaram que quase não têm transportado estrangeiros.

Num exemplo de humor negro, surgido nos primeiros meses da quarentena, nova-iorquinos comentavam que, afinal, podiam desfrutar da cidade sem hordas de turistas. No momento, ainda pode ser relativamente fácil conseguir ingressos para peças a musicais. Mas, se o privilégio continuar, não vão sobrar ingressos, mas faltar espetáculos.

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