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m de leitura Atualizado em 28/02/2022, 09:49

Brasil está entre economias mais prejudicadas por crise do clima, aponta ONU

PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 28 de fevereiro de 2022

ANA CAROLINA AMARAL
AUTOR autor do artigo

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A soma dos prejuízos já observados atualmente com as projeções de longo prazo posicionam o Brasil entre as economias mais afetadas pela crise do clima.

Se as emissões de gases de efeito estufa continuarem em alta, a renda média no Brasil deve cair 83% até o final do século, muito além da renda média global, que deve diminuir 23% no mesmo período.

Os dados são de um dos 34 mil artigos avaliados pelo relatório do IPCC (Painel Intergovernamental de Mudança do Clima da ONU, na sigla em inglês) sobre impactos, vulnerabilidades e adaptação ao clima. Lançado nesta segunda-feira (28), ele aponta os efeitos socioeconômicos da crise climática em todas as regiões do mundo.

"Altos níveis de aquecimento poderiam causar um declínio do PIB global de 10% a 23% até o final do século, comparado a um mundo sem aquecimento", afirma o relatório do painel do clima da ONU.

Outra pesquisa citada pelo IPCC aponta que cada tonelada de gás carbônico emitida no mundo custa ao Brasil cerca de US$ 24 (R$ 124) por causa dos efeitos danosos da mudança climática. A conta, gerada por grandes emissores e paga por países mais vulneráveis, é chamada de custo social do carbono.

Além dos prejuízos causados diretamente por eventos climáticos extremos, como as chuvas fortes, inundações e secas prolongadas, a economia brasileira já sofre com os impactos do clima no agronegócio e na geração de energia elétrica, baseada em hidrelétricas.

Setores-chave para a geração de riqueza no país, ambos são fortemente dependentes de fatores climáticos.

Um dos estudos citados pelo IPCC aponta que o PIB per capita do Brasil foi 13,5% menor, entre 1991 e 2010, do que teria sido sem as mudanças climáticas. Na análise de um período mais longo, de 1961 a 2010, o PIB per capita do país foi 24,5% menor por conta de fatores climáticos.

Publicado em 2019, o estudo das universidades de Stanford e Cambridge comparou trajetórias de crescimento econômico com as variações na temperatura, destacando que o aquecimento ajudou a economia de países frios, mas prejudicou a de países em regiões mais quentes.

"A mudança climática vai mudar a geopolítica econômica do planeta", avalia o físico da USP e membro do IPCC, Paulo Artaxo.

"Hoje o Brasil é um grande produtor de alimentos, mas daqui a pouco as regiões temperadas podem se tornar grandes produtoras, enquanto regiões tropicais podem ficar menos adequadas para as culturas que temos hoje", afirma Artaxo.

Se as emissões não caírem rapidamente, os prejuízos devem ser ainda mais significativos. O relatório do IPCC aponta que o calor extremo pode reduzir a capacidade de trabalho no setor agrícola em 24%. Caso as emissões sejam controladas, o número deve passar para 9%.

Eventos extremos em outras regiões do planeta também geram efeito cascata sobre a economia brasileira. "As mudanças climáticas atingirão as cadeias de abastecimento, mercados, finanças e comércio internacionais, reduzindo a disponibilidade de bens no Brasil e aumentando seu preço, bem como prejudicando os mercados para as exportações brasileiras", afirma o relatório do painel do clima da ONU.

O texto também aponta que pode haver instabilidade financeira decorrente dos choques econômicos causados pela mudança do clima, incluindo a redução dos rendimentos agrícolas, os danos à infraestrutura crítica e os aumentos de preços das commodities.

Em outro capítulo, o relatório relaciona o aumento de chuvas fortes e a elevação do nível do mar com a ocorrência de inundações nos portos e outras infraestruturas costeiras críticas, o que também deve gerar efeito cascata sobre as exportações.

O IPCC ainda aponta o risco de falha generalizada das colheitas, o que pode levar à escassez global de alimentos e ao aumento de preços, com prejuízos maiores para populações mais pobres e riscos de agitação social e conflitos armados.

Já observadas atualmente, as perdas agrícolas devem aumentar drasticamente até o final do século no cenário em que as emissões continuam subindo. A produção de arroz pode cair 6%; a de trigo, 21% e a de milho, 10%. Caso as emissões globais comecem a diminuir imediatamente, as perdas também serão controladas e passam, respectivamente, para 3%, 5% e 6%.

Ainda segundo o relatório, a combinação de emissões em alta com desmatamento local poderia causar uma queda de 33% na produção de soja e pastagens na Amazônia Legal.

A criação de animais também deve sofrer impactos significativos no cenário em que as emissões continuam altas. As projeções apontam que gado bovino, galinhas e suínos passarão a sofrer estresse térmico durante a maior parte ou todo o ano no país.

Ainda nesse cenário, a produção de peixes no Brasil pode cair 36% e a de crustáceos e moluscos, até 97% entre e 2050-2070, em comparação com as projeções para 2030-2050.

O relatório sobre os impactos socioeconômicos da mudança do clima compõe a segunda parte do sexto ciclo de avaliação do IPCC. A primeira, lançada no último novembro, reuniu a ciência física do clima. Em abril, o terceiro e último relatório do ciclo deve mostrar os diferentes cenários para redução das emissões de gases-estufa.