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m de leitura Atualizado em 23/03/2022, 18:54

Bolsonaro evita embate após suspeita sobre ministro e vira alvo de rivais

PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 23 de março de 2022

TAYGUARA RIBEIRO, JOSÉ MATHEUS SANTOS, MARCEL RIZZO E DANIELLE BRANT
AUTOR autor do artigo

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SÃO PAULO, SP, RECIFE, PE, QUIXADÁ, CE, E BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - O presidente Jair Bolsonaro (PL) tem evitado falar sobre a revelação de que pastores sem cargo público negociam transferências de recursos no MEC (Ministério da Educação) e isso tem virado munição para ataques de adversários.

Em conversa gravada obtida pelo jornal Folha de S.Paulo, o ministro da Educação, Milton Ribeiro, que é pastor evangélico, afirma que o governo federal prioriza prefeituras cujos pedidos de liberação de verba foram negociados por outros dois pastores que não têm cargo no governo, em um esquema informal de obtenção de verbas.

O caso é especialmente delicado para Bolsonaro por envolver a atuação de evangélicos, base importante de apoio do presidente tanto nas eleições como ao longo de seu mandato.

A bancada evangélica no Congresso também está presente de forma substancial no centrão, grupo de partidos que dá sustentação ao governo.

Nesta quarta (23), o presidente esteve em Araçoiaba, na região metropolitana do Recife, e em Quixadá, no interior do Ceará, para eventos cerimoniais do governo.

No entanto, apesar de ter feito dois discursos ao público, o presidente sequer fez menções à crise dos pastores no Ministério da Educação.

Em Pernambuco, de forma indireta, o mandatário afirmou apenas que "o Brasil acima de tudo veio do início do século passado. E o Deus acima de todos vem da grande formação da maioria da nossa população, que é cristã aqui no Brasil".

No Ceará, Bolsonaro optou por criticar o PT, partido do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, principal adversário do presidente nas eleições de 2022.

"Vocês sabem quem esteve na presidência entre 2003 e 2015, citando apenas a Petrobras e o BNDES, o endividamento com o PT, por desvios, roubalheira e projetos mal feitos, empréstimos a outros países, representa 1 trilhão e 400 bilhões de reais, isso dá para fazer cem transposições do rio são Francisco", afirmou.

"São três anos e três meses sem qualquer denúncia de corrupção em nossos ministérios. Tentam de toda maneira nos igualar a quem nos antecedeu, mas não conseguirão", acrescentou o presidente no discurso.

Na terça (22), o presidente fez menções a Deus e disse que o governo dele não tem escândalos de corrupção. O discurso ocorreu no Tocantins.

"Quero dizer da satisfação e do orgulho, da missão dada por Deus, de estar à frente do Executivo federal, buscando atender a todos os brasileiros, zelando pelo dinheiro público. Estamos há três anos e três meses sem corrupção no governo federal".

Ativo nas redes sociais, o mandatário também não fez nenhuma menção às acusações em suas plataformas, embora tenha feito diversas postagens sobre outros assuntos desde que o caso veio a público.

No áudio obtido pela Folha de S.Paulo, o ministro da Educação afirma que a prioridade para as prefeituras intermediadas por pastores atende a uma solicitação de Bolsonaro.

"Foi um pedido especial que o presidente da República fez para mim sobre a questão do [pastor] Gilmar", diz o ministro.

"Porque a minha prioridade é atender primeiro os municípios que mais precisam e, em segundo, atender a todos os que são amigos do pastor Gilmar", afirma no áudio

Na reunião dentro do MEC, Ribeiro falava sobre o orçamento da pasta, cortes de recursos da educação e a liberação de dinheiro para essas obras na presença de prefeitos, lideranças do FNDE (Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação) e de dois pastores.

Esses dois pastores, Gilmar Santos e Arilton Moura, têm, ao menos desde janeiro de 2021, negociado com prefeituras a liberação de recursos federais para obras de creches, escolas, quadras ou para compra de equipamentos de tecnologia.

O prefeito Gilberto Braga (PSDB), do município maranhense de Luis Domingues, afirmou que um dos pastores pediu 1 kg de ouro para conseguir liberar verbas de obras de educação para a cidade.

A PGR (Procuradoria-Geral da República) decidiu pedir ao STF (Supremo Tribunal Federal) a abertura de uma investigação sobre o caso.

Além da crise no Ministério da Educação, adversários políticos aproveitam para criticar o silêncio do presidente.

O pré-candidato Ciro Gomes (PDT-CE) chamou nesta quarta o governo de Jair Bolsonaro de "dramaticamente corrupto" após o áudio de Milton Ribeiro.

Para Ciro, Bolsonaro demonstra "por mil caminhos a organicidade da corrupção com que está trabalhando".

"É um governo dramaticamente corrupto. Agora não está escolhendo a área. Saúde em plena pandemia, educação num momento trágico...Como vamos recuperar dois anos praticamente de escolarização perdida pela estrutura de educação de todos os níveis pelo Brasil? Isso é um bandido. A gente precisa exigir que o Ministério Público, que o senhor [Augusto] Aras, não fique no caminho da irresponsabilidade funcional."

O ex-juiz Sergio Moro, presidenciável pelo Podemos, afirmou que "dinheiro de prefeitura é para educação". "Aliás, o Ministério da Educação até hoje não tem um plano de recuperação das aulas perdidas na pandemia. E agora vem essa história de propina", continuou.

Segundo ele, "isso tem que ser investigado pela Polícia Federal e pela PGR" com rigor. "Não vamos deixar isso ser varrido para debaixo do tapete. Não pode deixar que nosso país seja transformado em uma terra de bandido."

A presidente do PT, Gleisi Hoffmann, disse que o escândalo do ministro da Educação "direcionando dinheiro público para pastores amigos de Bolsonaro só piora com propina de 1 kg de ouro. Verba do FNDE controlada pelo centrão na farra das emendas do orçamento secreto. Esquema precisa ter fim, absurdo Congresso fazer parte disso".

Outros pré-candidatos à Presidência da República nas eleições deste ano também aproveitaram para questionar o mandatário.

Felipe d'Avila (Novo) afirmou que "o silêncio de Bolsonaro sobre o escândalo no MEC é uma vergonha" e Vera Lúcia (PSTU) disse que "o dinheiro que falta para educação enche o bolso do pastor".