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m de leitura Atualizado em 24/03/2022, 18:04

BC vê alta probabilidade de novo estouro da meta de inflação (1)

PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 24 de março de 2022

NATHALIA GARCIA
AUTOR autor do artigo

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BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS ) - O Banco Central projeta pico de inflação de 10,6% no primeiro trimestre e vê alta probabilidade de estourar a meta estipulada pelo segundo ano consecutivo. Os dados são do Relatório Trimestral de Inflação de março, divulgado nesta quinta-feira (24).

A autoridade monetária desenhou dois cenários para a inflação para este ano, com base na trajetória de preços do petróleo. Em ambos, o IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo) tem grandes chances de ficar acima do teto da meta.

O valor fixado pelo CMN (Conselho Monetário Nacional) para este ano é de 3,5% —com 1,5 ponto percentual de tolerância para cima e para baixo.

Na projeção do cenário "alternativo", que utiliza trajetória descendente para o preço do barril de petróleo, a inflação acumulada em 12 meses atinge pico de 10,6% no primeiro trimestre, caindo para 6,3% no fim de 2022, acima do limite superior do intervalo de tolerância da meta.

Já na projeção do cenário de referência, que utiliza hipótese usual para a trajetória do preço do petróleo, a inflação acumulada em quatro trimestres fica em 10,6% nos dois primeiros, recuando para 7,1% no fim do ano, também acima do teto da meta.

De acordo com o BC, a probabilidade de a inflação ficar acima do limite em 2022 saltou de cerca de 41% no relatório anterior, divulgado em dezembro, para em torno de 88% no cenário "alternativo", tido como mais provável pela autoridade monetária, e 97% no cenário de referência.

"Parte significativa da surpresa inflacionária no trimestre está relacionada a componentes mais voláteis, em especial aos preços de combustíveis e de alimentos, mas também houve surpresa em itens associados à inflação subjacente. As diversas medidas de inflação subjacente permanecem acima do intervalo compatível com o cumprimento da meta para a inflação", mostrou o relatório.

O BC aponta que a principal pressão sobre a inflação ao consumidor no próximo trimestre deve-se aos preços dos combustíveis, refletindo a recente elevação dos preços do petróleo. "Combustíveis para veículos contribuíram com quase metade da surpresa com a inflação no trimestre", indicou.

O documento diz ainda que os impactos da guerra entre Rússia e Ucrânia também são esperados sobre preços livres, com importante alta sobre os alimentos. "A alta dos preços dos alimentos também foi maior que o previsto, com impacto do clima extremo sobre preços de alimentos in-natura e maior pressão sobre café, óleos e gorduras e panificados, que têm influência de preços de commodities", escreveu.

"A elevação dos preços de commodities e dos preços de produtos importados —especialmente desde a escalada do conflito entre Rússia e Ucrânia—, embora atenuada pela recente apreciação do real, pode ser considerada um novo choque de oferta do ponto de vista da economia doméstica, com impacto altista sobre a inflação e negativo sobre a atividade econômica no curto prazo", afirmou o BC.

Mas a autoridade monetária fez uma ressalva de que a contribuição dos preços administrados para a inflação no trimestre só não será maior em virtude das condições pluviométricas favoráveis. Para maio, é esperado o fim da bandeira "escassez hídrica" e a transição para a bandeira amarela.

CICLO DE APERTO MONETÁRIO DEVE TERMINAR EM MAIO, INDICA CAMPOS NETO

Como resposta à inflação, a escalada dos juros no Brasil já completa um ano no Brasil. Em 16 de março, o Copom (Comitê de Política Econômica) do BC elevou a Selic (taxa básica) em 1 ponto percentual, de 10,75% para 11,75% ao ano. Para a próxima reunião, em maio, sinalizou uma nova alta da mesma magnitude.

Um aumento adicional da taxa básica de juros em junho não é um cenário provável, disse o presidente do BC, Roberto Campos Neto, nesta quinta, indicando o fim do forte ciclo de aperto monetário iniciado há um ano em maio.

Segundo Campos Neto, na reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) da semana passada, o colegiado avaliou a elevação do cenário de incerteza, o ritmo adequado para a alta dos juros e a taxa terminal do ciclo de aperto.

"Entendemos que, usando esse mix de fatores, o mais apropriado era fazermos uma elevação de 1 ponto [na Selic em março] e indicar mais 1 ponto [em maio], dizendo que, se o cenário internacional se agravasse ou que se houvesse algum outro choque que afetasse as expectativas na mesma direção, nós poderíamos repensar o cenário, fazendo um movimento adicional em junho, não é o cenário mais provável", disse.

MUDANÇA NA META DE INFLAÇÃO NÃO ESTÁ NO HORIZONTE

Se o estouro da meta de inflação de 2022 se confirmar, Campos Neto deverá escrever uma nova carta ao ministro da Economia explicando as razões para o descumprimento do objetivo pelo segundo ano consecutivo.

A inflação fechou 2021 em 10,06%, maior alta desde 2015. No ano passado, a meta era de 3,75%, com tolerância de 1,5 ponto percentual para cima ou para baixo

Mesmo diante dessa perspectiva, Campos Neto não considera a possibilidade de uma mudança na meta de inflação como uma alternativa. Segundo ele, a alteração não traria muitos ganhos ao Banco Central, tendo em vista as projeções no horizonte relevante.

"Quando nós olhamos 2023 e 2024, a gente vê uma proximidade com as metas mesmo em cenários adversos com diversos choques consecutivos, o mais recente sendo o conflito na Europa. Nós acreditamos que temos instrumentos para cumprir a meta", afirmou.

"Não cabe ao Banco Central fazer projeções sobre mudanças de metas porque é uma decisão CMN. Isso pode ser debatido no CMN, mas a opinião do Banco Central é que teria pouco a ganhar em termos de credibilidade", completou.

Para 2023, o BC aponta que a chance de a inflação ficar abaixo do piso da meta é 17%, enquanto a de ficar acima do teto é 12%. O número considera o cenário "alternativo", no qual o BC estima 3,1% para o IPCA.

No cenário de referência, por sua vez, a projeção de inflação é de 3,4% para o ano que vem. Pelo regime de metas, a autoridade monetária tem 3,25% como centro de seu objetivo, também com intervalo de 1,5 ponto percentual para mais ou para menos.

Em relação ao nível elevado do juro real e à baixa inflação projetada para 2024 (2,3% ou 2,4% a depender do cenário), Campos Neto afirmou que se trata de um horizonte muito longo, com uma incerteza no curto e médio prazo bastante elevada.

Para o PIB (Produto Interno Bruto), a projeção de crescimento em 2022 foi mantida em 1% pelo BC. As expectativas da autoridade monetária ficaram ainda acima das projeções do mercado, que espera uma alta de 0,5% para este ano, conforme mostrado pela pesquisa Focus desta semana.

No documento, o BC considerou fatores positivos e negativos em sua análise. "A surpresa positiva no PIB do quarto trimestre de 2021 eleva o carregamento estatístico para 2022 e sugere, especialmente quando se analisa a evolução do PIB com o ajuste sazonal alternativo, que a atividade vinha em processo de aceleração ao longo do segundo semestre de 2021", pontuou.

Mesmo com a piora recente dos prognósticos para a agricultura, o BC diz que a expectativa é que a agropecuária ainda contribua positivamente para o crescimento em 2022.

Por outro lado, o relatório coloca que "o risco fiscal elevado e o processo de aperto monetário em curso, mais intenso do que esperado na época do RI [relatório de inflação] anterior, continuam impactando as condições financeiras atuais e, consequentemente, a atividade econômica corrente e futura."

Sobre risco fiscal, a autoridade monetária afirma no relatório que espera uma desaceleração no ritmo de avanço da arrecadação e que a perspectiva de aperto monetário mais intenso e prêmios de risco elevados devem levar a novo aumento das despesas com juros.

O BC destaca dois riscos fiscais em especial: no curto prazo, medidas fiscais adicionais para conter a alta nos preços dos combustíveis e, no longo prazo, o impacto do debate eleitoral para a percepção de riscos quanto à manutenção do atual arcabouço fiscal.

Diversas medidas para conter a disparada dos preços dos combustíveis têm sido discutidas nas últimas semanas. Na terça (22), por exemplo, os governadores decidiram prorrogar o congelamento de ICMS (Imposto sobre a Circulação de Mercadorias e Serviços) sobre a gasolina e o GLP (gás liquefeito de petróleo) até o fim de junho.

Quanto à presença nas reuniões do governo sobre combustíveis, Campos Neto diz que participa apenas como um "técnico do BC", apresentando os possíveis efeitos das medidas em discussão, sobretudo da inflação, sem participar de qualquer tipo de decisão.