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m de leitura Atualizado em 16/03/2022, 21:12

BC eleva Selic em 1 ponto, a 11,75%, maior patamar em cinco anos

PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 16 de março de 2022

NATHÁLIA GARCIA
AUTOR autor do artigo

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BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - O Copom (Comitê de Política Monetária) do Banco Central manteve o plano de reduzir o ritmo do aperto monetário e elevou a taxa básica de juros (Selic) em 1 ponto percentual, passando de 10,75% para 11,75% ao ano, nesta quarta-feira (16).

O colegiado também sinalizou que o ciclo de aperto monetário, iniciado em março do ano passado, não chegou ao fim e continuará avançando significativamente em território "ainda mais contracionista", diante dos novos choques inflacionários.

Sobre seus próximos passos, o BC antecipou que deve fazer outro ajuste da mesma magnitude, ou seja, um novo aumento de 1 ponto percentual no próximo encontro.

A decisão veio em linha com as projeções do mercado financeiro. Levantamento feito pela Bloomberg mostrou que a maioria dos analistas consultados esperava elevação de 1 ponto na Selic, mesmo com a deterioração nas expectativas de inflação.

O colegiado do BC se reuniu nesta semana em meio a um cenário desafiador para o processo de desinflação diante dos novos choques decorrentes da guerra entre Rússia e Ucrânia, como a alta dos preços dos combustíveis.

Diante disso, a autoridade monetária mostrou cautela e, apesar da piora do ambiente inflacionário nas últimas semanas, não alterou sua estratégia.

Em fevereiro, o colegiado havia sinalizado a redução da magnitude de ajuste da taxa básica de juros depois de promover elevações de 1,5 ponto percentual na Selic nas últimas três reuniões.

"O Copom avalia que o momento exige serenidade para avaliação da extensão e duração dos atuais choques. Caso esses se provem mais persistentes ou maiores que o antecipado, o Comitê estará pronto para ajustar o tamanho do ciclo de aperto monetário", disse o colegiado no comunicado desta quarta.

Para o BC, o ciclo de juros nos cenários avaliados é suficiente para a convergência da inflação para patamar em torno da meta ao longo do horizonte relevante.

"O Comitê enfatiza que irá perseverar em sua estratégia até que se consolide não apenas o processo de desinflação como também a ancoragem das expectativas em torno de suas metas", pontuou.

Em dois dígitos, a taxa de juros está agora no maior patamar desde abril de 2017, ainda no governo de Michel Temer (MDB), quando os juros eram de 12,25% ao ano.

O ciclo do aperto monetário encontra-se em estágio avançado no Brasil. Esta foi a nona elevação consecutiva da Selic, com alta acumulada de 9,75 pontos percentuais. O aumento dos juros no país é o maior entre as principais economias ao redor do mundo.

Em março do ano passado, a Selic estava em 2% ao ano, menor patamar histórico, e cinco meses depois, já entrava em território contracionista (que freia a atividade econômica e a inflação).

Esse é também o maior ciclo de aperto desde a criação do sistema de metas para inflação, em 1999, quando a taxa básica subiu de 25% para 45% ao ano.

O choque de juros é uma resposta do BC às sucessivas revisões para cima das expectativas de inflação para o próximo ano.

O Copom volta a se reunir nos dias 3 e 4 de maio, quando o colegiado do BC passa a olhar integralmente para a meta de 2023 em suas decisões sobre os juros, dada a defasagem nos efeitos da política monetária na economia. Para o próximo encontro, o BC antevê um outro ajuste da mesma magnitude, ou seja, um novo aumento de 1 ponto percentual.

"O Copom enfatiza que os passos futuros da política monetária poderão ser ajustados para assegurar a convergência da inflação para suas metas, e dependerão da evolução da atividade econômica, do balanço de riscos e das projeções e expectativas de inflação para o horizonte relevante da política monetária", reforçou.

Rafaela Vitória, economista-chefe do banco Inter, diz que a decisão desta quarta está alinhada com suas projeções, mas que gostaria de ter visto o Copom deixando em aberto o seu próximo movimento.

"A gente está em final de ciclo e são ajustes finos nesse momento. O cenário tem muita volatilidade, está com muita incerteza. O ideal teria sido o Banco Central ter deixado seu próximo passo em aberto. Mas ele indica mais uma alta de 1 ponto, é um pouco mais 'hawkish' do que a gente esperava", afirmou.

"Hawkish" é um jargão que vem de "hawk" (falcão, em inglês) e é usado entre economistas para apontar uma postura contracionista da autarquia, mais agressiva e com tendência a subir juros.

A especialista diz também que, apesar de ter sinalizado o que fará na próxima reunião, o Copom indica que pode reconsiderar sua decisão e dar uma alta ainda maior, se necessário, dando grande peso para a inflação em alta.

Na segunda (14), a pesquisa Focus mostrou que a mediana da inflação projetada pelos economistas para este ano subiu de 5,65% para 6,45%, distanciando-se mais ainda do teto da meta fixada pelo CMN (Conselho Monetário Nacional).

O objetivo a ser perseguido pela autoridade monetária neste ano é de 3,5%, com tolerância de 1,5 ponto percentual para mais ou para menos. Se as projeções se confirmarem, o teto da meta será estourado pelo segundo ano consecutivo.

Já as projeções divulgadas pelo BC nesta quarta são de 7,1% para 2022 e 3,4% para 2023.

Em fevereiro, o IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo) registrou alta de 1,01%, número acima das expectativas do mercado, que esperava elevação de 0,95%. No acumulado de 12 meses, o indicador de inflação chegou a 10,54%.

Diante das intensas pressões inflacionárias, economistas revisaram suas projeções para a taxa terminal da Selic. Para 2022, esperam que os juros fechem o ano a 12,75%. Em 2023, a expectativa é de 8,75% ao ano. O Copom considera os mesmos números em ambos os cenários de projeção de inflação divulgados.

Segundo o BC, uma possível reversão, ainda que parcial, do aumento nos preços das commodities internacionais em moeda local produziria trajetória de inflação abaixo do cenário de referência.

Por outro lado, diz a autarquia, políticas fiscais que impliquem impulso adicional da demanda ou piorem a trajetória fiscal futura podem impactar negativamente preços e os prêmios de risco do país.

Para a instituição, apesar do desempenho mais positivo das contas públicas, a incerteza em relação ao arcabouço fiscal segue mantendo elevado o risco de desancoragem das expectativas de inflação.

Diferentemente do último comunicado, o colegiado disse que considera que esse risco está sendo parcialmente incorporado nas expectativas de inflação e preços de ativos utilizados em seus modelos.

Em relação à atividade econômica brasileira, o Copom destacou que a divulgação do PIB (Produto Interno Bruto) do quarto trimestre de 2021 apontou ritmo de atividade acima do esperado, enquanto a inflação ao consumidor continuou surpreendendo negativamente.

Para Tatiana Nogueira, economista da XP Investimentos, o tom do comunicado divulgado pelo Copom chamou a atenção, bem como a inclusão de um cenário alternativo, atribuindo a ele uma maior probabilidade de se concretizar.

"Um comunicado diferente, extenso, com várias mudanças e sinalizações. A mais marcante delas é o cenário bastante incerto e a difícil leitura dele. Ele transpareceu isso", disse.

No segundo cenário elaborado pelo BC, as projeções de inflação do Copom situam-se em 6,3% para 2022 e 3,1% para 2023. Para o próximo ano, essa estimativa estaria abaixo do centro da meta de inflação, fixada em 3,25%.

A especialista também vê que o comitê já dá sinais de que o ciclo do aperto monetário está se encaminhando ao fim, com a Selic perto de 12,75% ou um pouco além.