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m de leitura Atualizado em 11/03/2022, 15:32

Autora de 'A Elegância do Ouriço', Muriel Barbery vai ao Japão em 'Uma Rosa Só'

PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 11 de março de 2022

GUSTAVO ZEITEL
AUTOR autor do artigo

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RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) - No Templo Dourado de Kyoto, no Japão, a escritora franco-marroquina Muriel Barbery zanzava por entre cravos, azaleias e cerejeiras, numa tarde de sol em 2009. No meio do caminho, ela se deparou com um jardineiro solitário, ajeitando a areia de um canteiro, em meio a rochas e arbustos.

Ela observou a cena por meia hora. O homem procurava a forma perfeita para o jardim, assim como a autora elaboraria por 11 anos a estrutura do romance "Uma Rosa Só", que chega agora às livrarias brasileiras.

Barbery tirou dois anos sabáticos em Kyoto, em 2008 e 2009, graças ao sucesso mundial de "A Elegância do Ouriço", publicado em 2006. Com a venda de 2 milhões de exemplares, o segundo romance da autora foi o livro mais vendido da história da editora Gallimard, desbancando clássicos de Albert Camus e André Malraux. Traduzido para 40 idiomas, a história chegou a 6 milhões de leitores --e às telonas, com a adaptação de Josiane Balasko, em 2009.

A professora de filosofia da Universidade da Borgonha se viu, de um dia para o outro, como a sensação literária do mundo. Sendo antiga a paixão pelo Japão, já sabia aonde iria para se afastar das pressões da mídia e do público. "Fico muito feliz em saber que as pessoas adoram 'A Elegância do Ouriço', mas não haverá uma continuação, um livro dois, três até 40", ela diz.

Em entrevista por videoconferência de seu apartamento em Paris, Barbery, aos 53 anos, se mantém discreta, com um tom de voz baixo, falas pausadas e respostas concisas. Admiradora do "silêncio horizontal" japonês, ela tem um comportamento diferente da maioria dos romancistas franceses. Faltando um mês para as eleições presidenciais, Barbery não participa dos programas de auditório em que escritores --mesmo aqueles sem obras politicamente engajadas-- debatem ardorosamente o futuro da França.

"Como no mundo inteiro, aqui também há uma pressão para escrever sobre temas políticos ou sociológicos. Nunca compreendi a normatividade na literatura, o 'você tem que' ou o 'você deve' não têm sentido algum. É uma pena que as pessoas não vejam que o que faz a literatura é a liberdade."

Por outro lado, Barbery está alinhada à tradição. É sartriana até a medula. "Hoje tenho consciência de que todos os meus romances são existencialistas. Meus personagens passam o tempo todo se perguntando por que eles estão onde estão e o que eles procuram", afirma.

"Uma Rosa Só" acompanha a viagem da botânica Rose a Kyoto, onde ela aguarda o anúncio do testamento de seu pai, Haru, um marchand que ela nunca conheceu. Durante a viagem, é conduzida pelas ruas da cidade por Paul, assistente de seu pai, e se depara com a explosão de cores dos jardins japoneses. As flores não servem só à ambiência do romance, mas são a extensão da consciência da personagem.

Barbery conta que a palavra "metamorfose", repetida algumas vezes nas 166 páginas do livro, foi o ponto de partida para a escrita da história. "A vida é transformação. Estes jardins são a melancolia transformada em alegria, a dor transmutada em prazer. O que você vê aqui é o inferno feito beleza", diz um trecho.

No livro, nada é totalmente claro ou escuro. A metamorfose de Rose acompanha o ciclo de vida das cerejeiras e, não por outra razão, Barbery transforma as caminhadas da personagem em relatos quase sinestésicos.

Do luto até o namoro com Paul, vemos a raiva de Rose, por não ter conhecido o pai, ser diluída num ambiente delicado, como na passagem em que ela descobre que Haru guardava fotografias suas em casa. Na reta final da metamorfose da protagonista, descobrimos que o nome do romance teve inspiração num poema do tcheco Rainer Maria Rilke. "Uma rosa são todas as rosas."

O verso responde à dúvida existencial de Rose --se seu pai a acompanhava crescer, mesmo do outro lado do mundo. Nesse sentido, "Uma Rosa Só" trata da elaboração de um luto duplo --a perda do pai e de uma infância perdida. "Para escrever ficção é preciso conservar um pouco da infância. No geral, meus personagens trazem isso. Quando eu cheguei ao Japão, tive a impressão de estar em um país da infância", diz a autora.

Barbery garante que sua trajetória literária, iniciada em 2000 e marcada por períodos afastada do mercado e incursões pontuais pelo fantástico, não significa uma reação ao sucesso de "A Elegância do Ouriço".

As histórias de Renée Michel, zeladora de um palacete burguês que cultiva gostos refinados em segredo, e a filha de um de seus patrões, a superdotada Paloma Josse, encantaram o público de tal forma, que, espantada, Barbery ficou 13 anos sem dar entrevistas a um dos principais programas de TV dedicados ao debate literário na França, "La Grande Librarie".

Barbery diz escrever só o que pode, seguindo unicamente seu desejo. Mas vê uma ligação entre Rose e as personagens de "A Elegância do Ouriço". "Acho que Paloma era, de certa forma, cheia de pureza, algo que poucos adultos conseguem manter", diz.

Acordando todos os dias às quatro da manhã para escrever -e perdendo o sono para a ficção--, a escritora avisa, ainda deslumbrada pelas flores, que terminou de escrever uma sequência para "Uma Rosa Só", contando a história do pai de Rose. "No Japão, aprendi que a flor é a exata intersecção entre a natureza e a arte."