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m de leitura Atualizado em 10/03/2022, 19:25

Artistas da Rússia contra a guerra fogem em meio a isolamento e risco de prisão

PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 10 de março de 2022

LUCAS BRÊDA
AUTOR autor do artigo

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Desde que o presidente russo Vladimir Putin deu início à invasão da Ucrânia, uma onda de incertezas paira sobre a classe artística de seu país. Deflagrada a guerra, Moscou tem ficado cada vez mais isolada, com instituições de países da Europa ocidental boicotando e fechando as portas para artistas russos, que sofrem retaliações e podem ser presos ao se posicionarem contra o conflito.

Valentin Diakonov, um dos diretores artísticos do Garage, um dos principais museus de arte contemporânea da Rússia, é só um dos artistas e pessoas ligadas à cultura que deixou o país nos últimos dias. "Nada dramático aconteceu comigo, mas as perspectivas são sinistras", ele diz. "O museu pausou todas as exposições que estavam marcadas, já que a maioria era de artistas europeus. E, mesmo que eles não quisessem nos boicotar, o fechamento do espaço aéreo e o transporte faz com que esse trabalho de fazer exposições não seja possível."

O Garage, museu inaugurado em 2008 por Dasha Zhukova, colecionadora de arte e então mulher do bilionário Roman Abramovich --oligarca tido como um dos principais aliados de Putin--, divulgou um comunicado dizendo que não faria exposições "até que a tragédia humana e política que está se revelando na Ucrânia tenha parado". Há um componente moral, um posicionamento contrário à guerra, na decisão da equipe do museu, mas a verdade é que, na prática, a operação está inviabilizada.

"O que sobrou para eles [as pessoas que trabalham com cultura na Rússia] é uma moeda inexistente, espaço aéreo fechado, embaixadas fechadas e boicote", diz Diakonov.

O museu GES-2, financiado por Leonid Mikhelson, bilionário que é presidente da Novatek, maior empresa de gás natural do país, também divulgou um comunicado informando a suspensão de eventos e exposições. Em dezembro, logo depois que o espaço foi inaugurado, Putin fez uma visita guiada ao local, acompanhado por Mikhelson.

O êxodo de artistas e pessoas ligadas à cultura vem depois que o presidente russo assinou, na semana passada, uma lei que pode condenar a até 15 anos de cadeia quem intencionalmente espalhar algo que seja considerado como "informação falsa" sobre as operações militares. Houve também uma ameaça pública de Viacheslav Volodin, presidente do parlamento russo, que chamou de "traidores" aqueles que se posicionam contra a guerra, lembrando que esses artistas deveriam parar de aceitar dinheiro público.

"Só chamar o que está acontecendo de 'guerra' já pode levar você para a cadeia", diz Dyakonov. "As possibilidades para a cultura e a ciência na Rússia estão visivelmente encolhendo conforme mais e mais instituições cortam laços com pessoas que têm um passaporte russo mas que são expressivamente contra a guerra."

O êxodo dos artistas se dá em geral ao sul do país, em direção a cidades como Ierevan, na Armênia, Tbilisi, na Geórgia, Tashkent, no Uzbequistão, e Istambul, na Turquia. Uma artista que foi detida depois de fazer uma performance antiguerra não conseguiu falar com a reportagem porque estava em trânsito. "Fui forçada a deixar a Rússia. É uma situação estressante, não consigo fazer nada além de encontrar onde ficar nos próximos dias", ela contou.

Já Elena, artista e jornalista especializada em arte, que pediu que seu sobrenome não fosse publicado, também foi detida, mas continua em Moscou. Ela passou seis horas num carro de polícia com a irmã e outras 30 mulheres depois de ser presa na rua andando no entorno de uma manifestação feminista contra a guerra no último fim de semana e vai ser julgada em breve.

"Isso é péssimo para a sua carreira, se você tem algum problema com o Estado", ela diz. "No meu caso, vai ser possível resolver com o pagamento de multa, mas agora eu estou no sistema. Se acontecer algo novamente, vai ser muito pior."

Ela conta que a classe artística foi a primeira a se movimentar para sair do país, e quem ficou está deletando ou restringindo suas contas nas redes sociais. "Mas alguns artistas são muito corajosos. Vejo que alguns ainda fazem posts antiguerra no Instagram e tentam organizar algumas ações. Na nossa comunidade, a maioria das pessoas estão contra a guerra, mas você tem que ter muito cuidado com o que fazem."

As instituições governamentais continuam funcionando como se nada tivesse acontecido, ela diz, mas muitas atividades estão prejudicadas pelas sanções. E, principalmente, há um impacto econômico da guerra nos preços das atividades culturais. "As pessoas estão preocupadas com a estabilidade financeira, muito mais do que gastar com arte ou cultura."

A sensação entre os artistas na Rússia é que a situação pode melhorar em dois ou três meses, mas atualmente o sentimento é de medo e incertezas. Elena não sabe o que vai ser do futuro de sua carreira e a de seus amigos artistas, já que o diálogo com países do oeste europeu, como o Reino Unido, era fundamental para seu trabalho.

Há ainda a possibilidade de estreitar as relações com países neutros à guerra, como a China, mas o intercâmbio cultural nos últimos anos foi quase nulo, diz Diakonov. "Houve pouca ou nenhuma tentativa de fazer intercâmbios culturais nos últimos oito anos de isolamento crescente. Então, quando a propaganda russa diz que a destruição militar da Ucrânia serve para mostrar ao Ocidente que o mundo agora é 'multipolar', isso soa muito cínico."

Ele ainda lamenta que a classe artística na Rússia não tenha dado a devida atenção ao que os artistas ucranianos vinham alertando nos últimos anos. "O que é mais devastador é o peso da responsabilidade. Escritores, artistas e cineastas russos, ano após ano, levaram à atenção do público o conflito no leste e o papel da Rússia, e nós ignoramos. Agora, pagamos o preço dessa ignorância."