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m de leitura Atualizado em 18/01/2022, 15:55

Artista que sobreviveu a ataque terrorista em Paris revive trauma em desenhos

PUBLICAÇÃO
terça-feira, 18 de janeiro de 2022

JOÃO PERASSOLO
AUTOR autor do artigo

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Numa tarde de calor e chuva de dezembro, Stefano Gadotti passou horas desenhando os contornos de longas formas sinuosas que dão voltas nelas mesmas e terminam em hastes afiadas ou retangulares. Em seguida, usou pastel seco para preencher tudo de vermelho, criando uma figura abstrata com características próprias, como se estivesse prestes a entrar em movimento na tela branca.

"Sempre gostei de estruturas. Estruturas complexas mas bem resolvidas tecnicamente, construtivamente, refinadas. Minha intenção inicial era buscar fazer formas que despertassem a atenção das pessoas, já que quase ninguém presta atenção em nada", afirma o artista, em conversa no seu ateliê, um amplo espaço no primeiro andar de um galpão renovado na Barra Funda, em São Paulo. "Apreender a atenção e sensibilizar através das formas."

Há alguns meses, desde que voltou de uma temporada de estudo e trabalho de cinco anos em Paris --onde sobreviveu ao atentado terrorista de 2015--, o pintor e escultor paulistano tem causado burburinho entre colecionadores com seu trabalho informado tanto pela engenharia quanto pela escultura clássica. Parte de suas obras é projetada em softwares de computador e em seguida tornada objeto com a ajuda de maquinário industrial. O artista usa a tecnologia para desenvolver ideias que começaram como desenhos.

Na prática, ele transforma em esculturas de metal e madeira as estruturas que também pinta, trabalhando as curvas e a volumetria dos materiais. Gadotti lembra como referências os escultores Eduardo Chillida e Brancusi, o arquiteto e engenheiro alemão Frei Otto e o designer de objetos que mudam de forma Chuck Hoberman. Mas a precisão necessária para a criação de estruturas não significa que seu trabalho seja frio ou excessivamente matemático.

"Estou buscando falar sobre o terror, o trauma, o transtorno, mas também a reconquista e a reconstrução", ele diz. Esses sentimentos estão presentes na vida do artista desde que escapou de ser fuzilado na noite de 13 de novembro de 2015, quando um grupo armado estacionou o carro em frente ao restaurante onde ele estava com amigos, numa esquina de Paris, e começou a disparar. Enquanto via os conhecidos caírem no chão baleados e ensanguentados, Gadotti se protegeu atrás de um pilar para não ser atingido.

"Senti estilhaços de tiro, mas fiquei protegido neste lugar. Eu não entendi nada, só vi as pessoas correndo e um barulho ensurdecedor. Eu estava numa distância de, sei lá, dez metros dos atiradores. As pessoas iam caindo, iam morrendo. Era muito barulho, era muito tiro", ele conta. Mais de 130 pessoas morreram naquele ataque em diversos locais de Paris, e 350 ficaram feridas. O Estado Islâmico assumiu a autoria dias mais tarde.

O artista relata que sentia cheiro de sangue e ouvia os gritos desesperados nos quatro meses seguintes ao atentado, período no qual seus desenhos em vermelho e preto ficaram borrados pelas lágrimas que derramava sobre o papel enquanto trabalhava. Ele começou a se reerguer um tempo depois, quando o auxílio financeiro de um mecenas permitiu que ele ocupasse um ateliê no bairro de Montparnasse, a poucas quadras da casa da cineasta Agnès Varda.

Naquele momento, começou a explorar diferentes tipos de papel, canetas e materiais --vidro, acrílico, madeira, aço--, enquanto frequentava espaços de tecnologia na capital francesa onde criava o embrião do trabalho que hoje considera maduro e que tem mostrado para interessados no seu ateliê paulistano.

"O ser humano tem essa capacidade de reconstruir, e a arte permite isso, ela auxilia. Não é só a 'Guernica' [tela de Pablo Picasso], tem que ser algo que também possa trazer uma transformação para quem olha, não pode ser só a violência por si, só a dor", ele diz, dando à arte um papel terapêutico.

A formação do artista de 38 anos se deu em cursos livres, visitas a museus e a bibliotecas, onde lia volumes de arte e arquitetura. Antes de sua incursão pelas artes visuais, uma bolsa integral possibilitou que ele estudasse arquitetura na Escola da Cidade, faculdade na qual em seguida trabalhou por cinco anos, ajudando na organização de exposições internacionais e apresentando a arquitetura de São Paulo para convidados de outros países. Ele também trabalhou com Paulo Mendes da Rocha.

O artista não é representado por nenhuma galeria e afirma não dialogar tanto com sua própria geração em São Paulo, embora esteja aos poucos se inserindo no circuito. Enquanto isso, trabalha de segunda a segunda no ateliê, cercado por estudos de pinturas e de esculturas presos às paredes, ao som de uma playlist de pós-punk que toca numa caixinha de som.