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m de leitura Atualizado em 08/03/2022, 20:28

Arthur do Val se isolou com brigas e empregou MBL, mas economizou verba

PUBLICAÇÃO
terça-feira, 08 de março de 2022

CAROLINA LINHARES
AUTOR autor do artigo

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Sem construir alianças na Assembleia Legislativa de São Paulo, o deputado estadual Arthur do Val, agora desfiliado do Podemos, exerce seu mandato até aqui sem utilizar a verba de gabinete a que tem direito e também sem ter nenhuma das suas propostas transformada em lei.

Alvo de pedidos de cassação de boa parte dos deputados da Casa depois do vazamento de áudios sexistas sobre mulheres na Ucrânia, Arthur foi eleito em 2018 na onda da nova política e representou o fenômeno do crescimento da direita em todo o país.

Depois do episódio, Arthur desistiu de concorrer ao Governo de São Paulo, se afastou do MBL (Movimento Brasil Livre), se tornou alvo de processo de expulsão do Podemos e se desfiliou. Nesta terça (8), comunicou aos demais deputados, por meio de carta, que não vai concorrer à reeleição em 2022.

Arthur foi o segundo mais votado entre os 94 parlamentares -teve 478.280 mil eleitores, atrás apenas da recordista Janaina Paschoal (PRTB), que teve mais de 2 milhões de votos. Além de membro do MBL, Arthur era popular por seu canal Mamãe Falei no YouTube, em que fazia provocações à esquerda e pregava liberalismo econômico.

Seguindo sua meta de austeridade, o deputado nunca utilizou nada da sua cota mensal para manter o gabinete, de cerca de R$ 34,5 mil. Por outro lado, driblando seu compromisso de não utilizar verba pública, ele empregou na Assembleia membros do MBL, que são remunerados pela Casa.

Atualmente o deputado tem dez servidores em seu gabinete --número menor do que o costume entre os demais colegas. Ao menos cinco assessores fazem parte do MBL, incluindo Adelaide Oliveira.

Arthur, que chegou a posar para foto com Eduardo Bolsonaro (União Brasil-SP), logo se descolou dos bolsonaristas, fazendo críticas ao presidente Jair Bolsonaro (PL), além de rechaçar também a esquerda e os deputados da base do governo João Doria (PSDB), que constituem a maioria na Assembleia.

O deputado foi próximo de Janaina, outra força política independente na Assembleia, mas hoje são inimigos.

Na eleição de 2020, Janaina chegou a atuar como sua madrinha política. O rompimento aconteceu quando o deputado a acusou de votar a favor da reforma administrativa de Doria após negociar cargos em uma estatal. Ele não apresentou provas disso. A deputada rechaça a acusação.

Seu isolamento na Casa deve cobrar seu preço no processo de cassação --deputados avaliam que Arthur não tem como escapar da perda de mandato.

Em entrevista ao jornal Folha de S.Paulo nesta segunda (7), Arthur admitiu que a falta de aliados e de relações políticas complica sua situação. "Claro que parte dessa consequência política de cassação é por eu ser quem eu sou. Por eu ser solitário, um cara que nunca se misturou e sempre incomodou todo mundo. Todo mundo queria um motivo para me cassar desde o dia um."

Na carta aos demais deputados, em que argumenta que a cassação é excessiva, Arthur minimiza os embates com os colegas.

"Apesar do meu jeito combativo, midiático e às vezes exagerado, todos que convivem comigo sabem que eu tento ao máximo não ser uma pessoa desagradável. A verdade é que além de ter aprendido muito nesta Casa, de algumas pessoas acabei me tornando mais próximo e fiz muitos amigos também. Agradeço a todos."

Durante o mandato, o deputado não se integrou em suas bancadas partidárias. Em novembro de 2019, antes da conclusão de seu primeiro ano de mandato, Arthur foi expulso do DEM, partido pelo qual fora eleito e que se alia ao PSDB no estado. O enfrentamento do deputado a Doria causou o desgaste.

Na época, ele manteve seu tom provocativo ao afirmar em vídeo do seu canal: "Não estou triste, estou cagando para partido. Não vou mudar uma vírgula do meu discurso".

Depois de integrar o Patriota para disputar a Prefeitura de São Paulo em 2020 e terminar em quinto, com 9,78%, Arthur se filiou ao Podemos em janeiro deste ano para concorrer ao Governo de São Paulo --ao lado do presidenciável da sigla, o ex-juiz Sergio Moro, que agora rompeu com ele.

A maior parte da bancada do Podemos na Assembleia, porém, já não apoiava o projeto de Arthur e fará campanha para Rodrigo Garcia (PSDB) na eleição paulista.

Num plenário cada vez mais tomado por brigas e lives nas redes sociais, Arthur foi protagonista em algumas confusões na Assembleia. Em dezembro de 2019, durante a votação da reforma da Previdência, Arthur xingou sindicalistas que assistiam à sessão de "vagabundos".

O líder do PT, Teonílio Barba, que é sindicalista e metalúrgico, invadiu a tribuna com outros três deputados da sua bancada, e os quatro foram para cima de Arthur. Houve empurra-empurra, e a sessão foi suspensa. Barba chegou a acionar o conselho de ética da Casa, mas o caso terminou arquivado.

O mesmo termo "vagabundos" esteve no centro de outro conflito envolvendo Arthur e que foi determinante para seu isolamento na Casa.

Em junho de 2019, quando os deputados discutiam um projeto do governo que beneficiava agentes fiscais de renda, Arthur afirmou que colocaria a "cara de todos os vagabundos que votaram a favor na internet".

O deputado já havia feito um vídeo expondo colegas que receberam doações de campanha de agentes fiscais de rendas. A fala de Arthur gerou protestos imediatos no plenário. A sessão chegou a ser suspensa diante da confusão.

Instado a se desculpar, Arthur dobrou a aposta: "Eu falei que vou colocar a cara dos vagabundos na internet, se a carapuça serve, não posso fazer nada".

Em outubro daquele ano, o conselho de ética da Casa decidiu aplicar uma advertência verbal, a punição mais branda prevista no regimento, a Arthur por causa do episódio. O deputado disse haver um "moralismo babaca".

"Arthur sempre teve uma carreira solo na Assembleia. Ele nunca achou que precisaria do conjunto dos deputados", afirma o deputado Márcio da Farmácia, líder do Podemos na Casa e aliado de Rodrigo. Márcio diz defender a cassação de Arthur.

Veterano na Casa e ex-colega de partido de Artur, Estevam Galvão (DEM) condena os áudios como "violência execrável" e diz que Arthur "é um retrato da nova política, que não acrescentou nada de positivo" à Assembleia.

"A política de lacração na internet não funciona do ponto de vista de representação da sociedade. A renovação é necessária, mas precisa ser feita dentro da política", diz Marina Helou (Rede), deputada de primeiro mandato.

Ao longo do mandato, Arthur buscou defender o liberalismo econômico, o que o aproximou da bancada do partido Novo. Além de votarem da mesma forma nos projetos, os deputados tinham uma relação de amizade e até faziam refeições juntos.

Depois dos áudios, porém, a bancada do Novo declarou em nota que "condena veementemente" o teor das mensagens e que as mulheres foram ofendidas "de forma repugnante e inaceitável".

O combate aos privilégios e a defesa do liberalismo também pautaram seus projetos apresentados na Casa. Ele tentou, por exemplo, extinguir o auxílio moradia da Assembleia e o uso de carro oficial, além de indicar ao governador que reduzisse o salário de todos os funcionários públicos a R$ 5.000 na pandemia.

"Somos o país do supersalário, dos penduricalhos e dos imensos privilégios", justificou em uma das propostas. Outro projeto institui o "Programa Jovem Capitalista", de educação financeira.

A pauta de costumes quase foi contemplada. O deputado sugeriu a mudança de nome da Escola Estadual Paulo Freire Educador, em Osasco, fazendo coro aos ataques da direita ao educador --mas retirou o projeto no dia seguinte.

Dos 12 projetos de lei apresentados por Athur, 2 chegaram a ser aprovados, mas foram vetados por Doria por tratarem de temas federais. Um deles estendia a meia-entrada a todas as pessoas e outro obrigava a contratação de um seguro para todos os contratos públicos de obras.

Em entrevista à Folha de S.Paulo, Arthur disse ter orgulho do seu mandato e relembrou o que considera momento de destaque --em todos ele evitou aumento de gastos do estado.

Depois de suas exposições na internet, foram travados a aprovação de auxílio aos agentes fiscais de renda, o pagamento de um auxílio natalino pela Casa e um contrato de publicidade da Assembleia.