Após fala de Guedes contra China, chanceler age como bombeiro e conversa com embaixador (1)
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 28 de abril de 2021
RAFAEL BALAGO 
<p>SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Um dia depois de o ministro da Economia, Paulo Guedes, acusar a China de ter criado o coronavírus e criticar a eficiência das vacinas desenvolvidas pelo país asiático, o chanceler Carlos França conversou nesta quarta (28) com Yang Wanming, embaixador chinês em Brasília, por telefone.
</p><p>Yang, que divulgou a conversa com o ministro em uma rede social, disse que, durante a ligação, ambas as autoridades concordaram "em reforçar ainda mais a confiança política mútua num ambiente sadio e amigável, implementar os consensos entre os chanceleres e continuar a nossa parceira de vacinas".
</p><p>Nesta quarta, França participa de sessão na Comissão de Relações Exteriores da Câmara, em audiência pública na qual afirmou que a embaixada brasileira em Pequim "acompanha em tempo real cada processo de autorização de exportação de IFAs", em referência às matérias-primas para produção das vacinas.
</p><p>A demora do país asiático no envio de imunizantes, assim como no de insumos para a produção dos fármacos, gerou atrasos na campanha de vacinação no Brasil. Assim, em meio à lentidão do processo e a uma rejeição da China entre apoiadores do presidente Jair Bolsonaro, Guedes, na terça, atacou Pequim.
</p><p>"O chinês inventou o vírus, e a vacina dele é menos efetiva que a do americano. O americano tem cem anos de investimento em pesquisa. Então os caras falam: 'Qual é o vírus? É esse? Tá bom'. Decodifica, tá aqui a vacina da Pfizer. É melhor do que as outras", disse o ministro da Economia em reunião do Conselho de Saúde Suplementar, sem saber que estava sendo gravado.
</p><p>Os testes clínicos realizados até o momento verificaram uma maior eficácia de imunizantes desenvolvidos por farmacêuticas como Pfizer e Moderna, dos EUA, mas especialistas afirmam que asverificações ocorrem em circunstâncias diferentes e que os dados não podem ser comparados.
</p><p>À noite, Guedes, em entrevista à imprensa, disse ter usado uma imagem infeliz. Segundo ele, a declaração tinha o objetivo de mostrar como uma economia de mercado forte, em referência aos Estados Unidos, consegue produzir uma resposta a algo que vem de fora, em alusão à China. O ministro também lembrou que já recebeu as duas doses da Coronavac, produzida pela China. Não vou falar mal da vacina."
</p><p>Pouco depois de o caso ser revelado, o embaixador Wanming manifestou-se em uma rede social. "Até o momento, a China é o principal fornecedor das vacinas e dos insumos ao Brasil, que respondem por 95% do total recebido pelo Brasil. A Coronavac representa 84% das vacinas aplicadas no Brasil", escreveu ele.
</p><p>Nesta quarta, Guedes voltou a falar sobre o assunto. Segundo o ministro, houve uma politização da declaração dele, mas, ao tentar se justificar, acabou repetindo que os Estados Unidos desenvolveram uma vacina que parece ser mais eficiente que a chinesa.
</p><p>A politização da crise está distorcendo as coisas e tirando de contexto, afirmou o ministro. Ele ressaltou que a China teve mais tempo para desenvolver o imunizante e tem mais experiência em relação a essas doenças devido à gripe suína e à gripe aviária.
</p><p>Quando esse vírus chegou a uma economia de mercado forte, como é a americana, eles conseguiram, do desconhecido, produzir uma vacina que parece ainda mais eficaz do que a de quem estava sendo atingido pela pandemia num primeiro momento, que é a própria China, disse.
</p><p>A acusação de que a China teria inventado o coronavírus é duramente rebatida por Pequim. Afirmação semelhante já havia sido feita pelo ex-presidente dos Estados Unidos Donald Trump, e a tese esteve no centro da maior crise diplomática entre a China e o governo Jair Bolsonaro.
</p><p>No ano passado, o deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) postou no Twitter que o governo chinês estava propositalmente escondendo a gravidade do vírus. A embaixada chinesa reagiu, e o caso foi determinante para azedar a relação entre a missão diplomática e o Itamaraty então comandada por Ernesto Araújo.
</p><p>Ao assumir o cargo de chanceler, no começo de abril, França pregou que o Itamaraty se engaje "em intenso esforço de cooperação internacional", "sem exclusões", "sem preferências desta ou daquela natureza", o que chamou de uma abertura para "novos caminhos de atuação diplomática".
</p><p>O sujeito não nomeado era a China, já que Ernesto adotou, desde o início de sua gestão, uma posição de confrontação com os chineses e praticamente rompeu os canais de comunicação com a missão diplomática chinesa em Brasília.
</p><p>Desde 2009, a China é o maior parceiro comercial do Brasil. No ano passado, foi responsável por mais de um terço de todas as exportações brasileiras. Também em 2020, os dois países bateram a marca histórica de comércio, superando os US$100 bilhões.
</p><p>
</p><p>ATAQUES DO GOVERNO BOLSONARO À CHINA
</p><p>
</p><p>Comparação com Tchernóbil (18.mar.20)
</p><p>Eduardo comparou a pandemia do coronavírus ao acidente nuclear de Tchernóbil, na Ucrânia, em 1986. As autoridades, à época submetidas a Moscou, ocultaram a dimensão dos danos e adotaram medidas de emergência que custaram milhares de vidas.
</p><p>"Quem assistiu Chernobyl vai entender o q ocorreu.Substitua a usina nuclear pelo coronavírus e a ditadura soviética pela chinesa. +1 vez uma ditadura preferiu esconder algo grave a expor tendo desgaste,mas q salvaria inúmeras vidas. A culpa é da China [pela crise da Covid-19] e liberdade seria a solução", afirmou no Twitter.
</p><p>
</p><p>Cebolinha (4.abr.20)
</p><p>O então ministro da Educação, Abraham Weintraub, usou o personagem Cebolinha, da Turma da Mônica, para fazer chacota da China e associar a pandemia de coronavírus a interesses do país asiático.
</p><p>"Geopoliticamente, quem podeLá saiL foLtalecido, em teLmos Lelativos, dessa cLise mundial? PodeLia seL o Cebolinha? Quem são os aliados no BLasil do plano infalível do Cebolinha paLa dominaL o mundo? SeLia o Cascão ou há mais amiguinhos?", publicou.
</p><p>
</p><p>"Comunavírus" (22.abr.20)
</p><p>Em seu blog pessoal, o chanceler Ernesto Araújo publicou texto intitulado Chegou o comunavírus, em que diz que o medo causado pela nova doença nos faz despertar novamente para o pesadelo comunista, projeto que "já vinha se executando no climatismo ou alarmismo climático, da ideologia de gênero, do dogmatismo politicamente correto, do imigracionismo, do racialismo, do antinacionalismo, do cientificismo".
</p><p>Segundo Araújo, isso fez com que o "comunavírus", que ele chamou de "vírus ideológico", fosse mais perigoso que a Covid-19.
</p><p>
</p><p>"Não será comprada" (21.out.20)
</p><p>Bolsonaro desautorizou o ministro da Saúde, que havia anunciado acordo com São Paulo para a compra de doses da Coronavac.
</p><p>"NÃO SERÁ COMPRADA", escreveu Bolsonaro em letras maiúsculas.
</p><p>"Qualquer vacina, antes de ser disponibilizada à população, deverá ser COMPROVADA CIENTIFICAMENTE PELO MINISTÉRIO DA SAÚDE e CERTIFICADA PELA ANVISA" e que "o povo brasileiro NÃO SERÁ COBAIA DE NINGUÉM", acrescentou.
</p><p>
</p><p>Não transmite segurança (22.out.20)
</p><p>"A [vacina] da China nós não compraremos, é decisão minha. Eu não acredito que ela transmita segurança suficiente para a população. A China, lamentavelmente, já existe um descrédito muito grande por parte da população, até porque, como muitos dizem, esse vírus teria nascido por lá", afirmou Bolsonaro, em entrevista à rádio Jovem Pan, em referência à Coronavac.
</p><p>
</p><p>Testes suspensos (10.nov.20)
</p><p>Em novembro, a Anvisa suspendeu os testes da Coronavac devido à morte de um dos voluntários, que não teve relação com a vacina, Bolsonaro escreveu nas redes: "Morte, invalidez, anomalia. Esta é a vacina que o Doria queria obrigar todos os paulistanos a tomá-la. O presidente [Bolsonaro] disse que a vacina jamais poderia ser obrigatória. Mais uma que Jair Bolsonaro ganha".
</p><p>
</p><p>Espionagem chinesa (23.nov.20)
</p><p>O governo Jair Bolsonaro declarou apoio à aliança Clean Network, lançada pelo governo Donald Trump, criando uma aliança global para um 5G seguro, sem espionagem da China, escreveu Eduardo Bolsonaro no Twitter.
</p><p>"O programa ao qual o Brasil aderiu pretende proteger seus participantes de invasões e violações às informações particulares de cidadãos e empresas. Isso ocorre com repúdio a entidades classificadas como agressivas e inimigas da liberdade, a exemplo do Partido Comunista Chinês."
</p><p></p>


