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m de leitura Atualizado em 22/02/2022, 17:57

Amilcar de Castro dialoga com Oscar Niemeyer em exposição em Brasília

PUBLICAÇÃO
terça-feira, 22 de fevereiro de 2022

SILAS MARTÍ
AUTOR autor do artigo

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BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - Depois da tempestade e do avanço dos tratores, o gramado vira um lamaçal cor de sangue. E as esculturas de aço parecem nascer do vermelho radioativo do cerrado. O arsenal de cortes e dobras de Amilcar de Castro, de portais diáfanos a monólitos indevassáveis, parece em casa ali.

Faltavam dias para a abertura ao público agora, e as chuvas que caíram sobre Brasília atrasaram os trabalhos. Homens corriam para montar luzes, deitar as pedras das trilhas e dar um ar de ordem ao novo parque de esculturas instalado no quintal do Centro Cultural Banco do Brasil da capital.

São 60 obras que pesam juntas 250 toneladas trazidas em 12 carretas até o planalto central. O peso acachapante é notável, mas também a leveza. Quando, do meio do parque, avistamos o prédio do CCBB, vemos um artista emoldurar o outro, duas linguagens modernas, de Castro e Oscar Niemeyer, que então se roçam, uma espécie de encontro que tardou muito a acontecer e vem agora depois da morte deles.

É também uma espécie de segundo round de encontros necessários, um ano depois que esculturas do artista ocuparam todos os espaços do Museu Brasileiro de Escultura e Ecologia, o MuBE, desenhado por Paulo Mendes da Rocha em São Paulo, onde talvez a secura angulosa, brutalista dos dois formasse um espetáculo estrutural mais previsível.

Mas Brasília é outra história.

Amilcar de Castro é dos mais delicados e ao mesmo tempo monumentais escultores do país. Suas obras que chegam a quase 20 metros de altura e não raro exigem reforços estruturais para ficar de pé no terreno investem no maquinário pesado para fazer chapas de aço maciço parecerem folhas de papel dobrado, pousadas com leveza sobre o chão.

Oscar Niemeyer, o arquiteto de Brasília, fez do CCBB um dos poucos prédios da cidade despido da tinta branca, um pavilhão abaulado de concreto aparente com rasgos para as janelas de vidro negro espelhado. Quando construiu Brasília, Niemeyer tinha plena noção da importância da arte para arrematar a monumentalidade barroca de seus prédios. Chamou amigos, de Athos Bulcão a Bruno Giorgi e Di Cavalcanti.

Amilcar de Castro, que um ano antes da festiva inauguração da capital deu contornos visuais ao "Manifesto Neoconcreto" escrito por Ferreira Gullar no Jornal do Brasil, não era um deles, e sua presença em Brasília seria nula não fosse por uma peça ou outra levada ao Palácio do Itamaraty por diplomatas e não Niemeyer, segundo conta Marilia Panitz, organizadora do parque.

Eles falam, no entanto, a mesma língua, só que com palavras um tanto distintas. E isso fica nítido agora. Castro e Niemeyer se encontram na depuração do traço, na linha mestra que organiza e orienta todo o espaço ao seu redor.

Do lado oposto, a marquise do CCBB emoldura em formato panorâmico o horizonte infinito de Brasília agora marcado ali pelos topos das esculturas, totens amarronzados que poderiam ser troncos, ou rochedos de corte geométrico.

O tom dessas obras, atingido com intervenções químicas sobre o metal que aceleram o processo de oxidação, dá às esculturas um peso telúrico --Castro, aliás, mesmo trabalhando com aço gostava de chamar seu material-fetiche de ferro, mais próximo da cor do minério, da terra, do sangue. São todas formas inventadas, de extremo rigor matemático e geométrico que, no entanto, parecem se impor como parte da paisagem, pertencem serenas ao lugar que ocupam.

Há um calor que sua obra extravasa em contraste com a esterilidade do metal, o peso ameaçador de toneladas em equilíbrio. Essa obsessão em fazer da forma calculada algo em sintonia com a terra que a sustenta lembra a vontade gestual dos desenhos e telas do artista. Ainda que firmes no traço, são composições explosivas, feitas no que parecem surtos, rompantes de energia.

Ou mesmo fúria. O modernismo e depois o concretismo, construídos no afã revolucionário da indústria sinônimo de futuro que marcou as vanguardas do século 20, esbarrou, no Brasil, com o atraso tecnológico e a letargia --quando não a barbárie-- política.

Os artistas alinhados às promessas do moderno vislumbravam um mundo ainda impossível por aqui. O próprio Castro foi muitas vezes refém das chapas metálicas fabricadas pelas nossas metalúrgicas, insuficientes ou inadequadas, seus desenhos mudando de acordo com a espessura da placa então disponível no mercado, uma poética de aço moldada pelas circunstâncias quase nunca muito favoráveis.

Esse atraso é um dado involuntário de Brasil que atravessa a sua obra. O mesmo poderia ser dito do triste episódio no ano passado em que um morador de rua procurou abrigo numa de suas esculturas instaladas na orla do Leblon, no Rio de Janeiro, mais um sintoma da calamidade do Brasil atual, de Bolsonaro e pandemia.

O caos, aliás, também está na origem da nova mostra. As peças agora em Brasília todas vieram da coleção de um dos maiores mecenas do artista. Estavam espalhadas pela cidadezinha mineira de Dom Silvério, mantidas pelo próprio colecionador, Márcio Teixeira, morto no ano passado, e quase foram destruídas pela água nas enchentes que arrasaram Minas Gerais neste verão trágico.

Na contramão do caos, há dados de esperança na obra de Castro que se revelam com grande potência em Brasília. A vontade vertical de suas peças que quase sempre apontam o céu é um deles. Outro está no conjunto de esculturas menores, blocos sólidos de aço retalhados com finos cortes que deixam passar relâmpagos de luz solar pelas frestas.

Lado a lado, os grandes portais fincados na entrada do parque parecem se abrir em sequência, uma porta mais fechada, uma entreaberta e outra escancarada, como fotogramas de um filme que sugere algum respiro e abertura.

*

AMILCAR DE CASTRO.

Quando: Ter. a dom., 9h às 21h; até fevereiro de 2024

Onde: Centro Cultural Banco do Brasil - SCES, Trecho 2, Brasília

Ingressos: eventim.com.br