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m de leitura Atualizado em 18/03/2022, 20:46

Alunos estão sem material didático em escolas de SP, dizem pais

PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 18 de março de 2022

ISABELA PALHARES E CARLOS PETROCILO
AUTOR autor do artigo

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Mais de 40 dias após o início do ano letivo, Cecília, 6, já se acostumou à nova escola, conheceu os novos amigos e a professora, mas continua com os cadernos e lápis velhos que usava no ano passado.

Apesar de as aulas nas escolas estaduais terem começado em 2 de fevereiro, Cecília e outros alunos ainda não receberam o kit escolar e livros didáticos deste ano.

A Secretaria da Educação paulista nega que haja falta ou atraso na entrega dos materiais, diz que 95% do kit escolar já foi entregue na capital e que seu cronograma prevê que a distribuição pode ocorrer até o fim do primeiro bimestre letivo.

A pasta não esclarece se a entrega foi feita somente às escolas ou se o kit escolar está nas mãos dos alunos.

Sem o material didático, professores improvisam nas aulas. Eles imprimem atividades que encontram na internet ou entregam folhas de sulfite para os alunos que não dispõem de material para fazer anotações.

A falta de materiais básicos para acompanhar as aulas ocorre no momento em que as crianças acumulam déficits inéditos de aprendizagem após a suspensão das aulas presenciais.

O Saresp, prova feita pelo governo João Doria (PSDB), mostrou piora no rendimento escolar em todos os níveis de ensino entre os alunos da rede estadual. Quando apresentou os dados, o secretário de Educação, Rossieli Soares, defendeu que a prioridade deste ano seria a recuperação dos estudantes.

Famílias dizem estar preocupadas com o ensino das crianças já que nem material para acompanhar as aulas receberam.

"Minha filha ficou quase dois anos sem ir para a escola por causa da pandemia. Tantos problemas se acumularam nesse período, a falta de contato com os amigos, o pouco aprendizado. Achei que a escola estaria preparada para recebê-la, mas nem caderno deram para as crianças", diz Rafael Senger, 34, pai de Cecília.

A menina está no primeiro ano do ensino fundamental na escola estadual República do Paraguay, na Vila Prudente, zona leste da capital. Ela tem usado os cadernos e lápis que a família comprou no ano passado com o cartão fornecido pela Prefeitura de São Paulo, já que antes a menina estava matriculada na rede municipal.

"A professora está se esforçando para ensinar dentro das condições que têm, mas é nítido que é tudo muito improvisado. O caderno dela vem com algumas atividades coladas. Me preocupa que ela não esteja recebendo o básico", diz o pai.

Bernardo Lara, 6, está matriculado na escola estadual Francisco de Assis Reys, no Ipiranga, zona sul da cidade, e também não recebeu nenhum material para acompanhar as aulas. No caderno do menino, a professora tem colado atividades que imprimiu de um site com modelos de lições para alfabetização.

"Meu filho está em uma fase tão importante da vida escolar, que é a alfabetização, e as lições dele escancaram a desorganização do ensino. A professora deveria ter um livro para seguir, os alunos deveriam ter material para estudar direito", diz Cecília Cruz, 39, mãe de Bernardo.

Ela diz que a direção da escola afirmou ter recebido livros e kit escolar em número insuficiente para todos os alunos, por isso, não tinha iniciado a entrega. Essa foi a mesma justificativa dada a Senger para a demora na distribuição.

A reportagem teve acesso a um documento enviado pela supervisora de ensino da Diretoria de Ensino Centro Sul em resposta a uma reclamação feita por um pai à ouvidoria da secretaria.

Consta do documento que o cronograma da pasta prevê a entrega dos livros dos anos iniciais do fundamental (do 1º ao 5º ano) até 30 de março. Para os anos finais (do 6º ao 9º ano), o prazo é até 14 de abril e, para o ensino médio, até 8 de abril.

Pelo calendário da Secretaria da Educação, o primeiro bimestre letivo acaba em 17 de abril.

Fernando Cássio, professor da UFABC e integrante da Repu (Rede Escola Pública e Universidade), diz ser muito grave que o governo tenha um cronograma que prevê a entrega de material didático aos alunos ao fim do primeiro bimestre.

"Os alunos tiveram perdas gravíssimas de aprendizado nos últimos dois anos. O governo reconhece que a situação é grave e ainda assim não consegue garantir as condições mínimas e básicas para o funcionamento das escolas. Ter o material didático na mão dos alunos é básico", diz.

Em nota, a secretaria nega que os alunos estão sendo prejudicados pela falta do material e diz que os livros didáticos não são a única estratégia pedagógica que devem ser usadas pelas escolas.

"As aulas da rede estadual têm como orientação da coordenadoria pedagógica serem dinâmicas e atrativas aos estudantes, principalmente na fase da alfabetização. Cada escola e professor têm a liberdade de elaborar planos de aula e definir as metodologias de ensino que se encaixem na realidade dos estudantes e potencializem suas aprendizagens", diz em nota.

Diretores e professores disseram à reportagem que as escolas receberam menos exemplares do que o número de alunos matriculados. Assim, não podiam distribuir os materiais para apenas uma parte dos estudantes e deixar o resto desassistido. ​

Em nota, a secretaria afirma que "não há falta ou atraso na entrega de livros" e diz que as escolas citadas pela reportagem também receberam os materiais didáticos em janeiro. Não diz, no entanto, se o número de exemplares distribuídos corresponde ao total de alunos matriculados neste ano.

"Na capital, 95% do kit escolar já foi entregue, e também não apresenta atraso na entrega, uma vez que o cronograma prevê a distribuição até o final do 1º bimestre. As diretorias de ensino (DEs), ainda possuem um estoque extra para que eventuais faltas sejam supridas", diz a nota.

A pasta não diz por que esse estoque extra não foi enviado para escolas em que há relatos de terem recebido menos exemplares.

Apesar de afirmar que não há atraso, a pasta diz que vai reforçar com as diretorias de ensino "a importância da distribuição dos livros para os estudantes".

A secretaria informa ainda ter comprado mais de 3,5 milhões de kits escolares para este ano, um investimento de R$ 126 milhões. Diz que as escolas podem usar verba própria para comprar materiais para utilização dos estudantes até a chegada dos kits.