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m de leitura Atualizado em 12/03/2022, 02:06

4 em cada 10 regiões estouram tempo limite para falta de energia na Grande SP

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sábado, 12 de março de 2022

WILLIAM CARDOSO
AUTOR autor do artigo

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Tão certa quanto a chuva no verão é a queda de energia, que muitas vezes se prolonga por muito tempo até o restabelecimento. Durante esse período, escritórios deixam de funcionar, o comércio perde negócios, e quem está em casa, a paciência. Números atualizados em fevereiro deste ano mostram que 4 em cada 10 (38%) regiões da Grande São Paulo atendidas pela Enel estouraram a meta máxima de horas sem luz ao longo do último ano.

Os 24 municípios atendidos pela concessionária na Grande São Paulo estão subdivididos em 143 conjuntos elétricos, que variam de tamanho, número de imóveis atendidos, tipo de fiação e condições do entorno, por exemplo. Entre eles, 54, que representam 29% da unidades consumidoras (cerca de 2,1 milhões de pontos de ligação), estiveram acima do estabelecido pela Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica).

Levantamento feito pela reportagem identificou que são os conjuntos localizados principalmente a oeste da região metropolitana que apresentam maior diferença entre a meta estipulada e a quantidade real de horas sem energia, na média (indicador conhecido como DEC).

Em Juquitiba, moradores poderiam enfrentar, em média, até 16 horas sem energia elétrica ao longo dos últimos 12 meses. Entretanto, ficaram 37 horas e 54 minutos, mais que o dobro do máximo estabelecido.

Na teoria, nem todos os 143 conjuntos são afetados por galhos soltos e ventanias comuns durante os temporais. Parte deles fica sob a superfície e dois, em particular, contam com um sistema redundante e protegido o suficiente para evitar a queda prolongada de energia em meio a fortes chuvas. Os conjuntos Miguel Reale-Reticulado, no centro velho, perto da Sé, e Bandeirantes-Reticulado, no miolo do Itaim Bibi, na zona oeste, contam com essa tecnologia mais eficiente.

O "reticulado" a que se referem diz respeito a um sistema como uma rede de pesca, em que a energia sempre acha um caminho para seguir em frente até a casa do consumidor, mesmo que haja falha em algum fio. A rua Bandeira Paulista, no Itaim, que tem um trecho com sistema reticulado e outro com convencional, aéreo, e é um bom exemplo da diferença de qualidade.

Proprietário de um restaurante no trecho da rua com rede aérea, mais sujeita às intempéries, Antonio Lima, 55, afirma que já passou quatro horas sem energia após temporais. "Fico sem trabalhar, que é a pior coisa que pode acontecer. Dependo da luz por causa da iluminação, das frituras. Atrapalha o funcionamento", diz.

Na mesma Bandeira Paulista, onde os fios são enterrados, com rede reticulada, a situação é outra. "Não chega a acabar a luz. Dá só uma piscada e volta", afirma o operador de máquinas Renato Campos, 40, que trabalha em uma loja de impressões. Mais longe dali, onde mora, no Butantã, também zona oeste, o cenário é bem pior. "Não tem comparação. Já passei três dias tomando banho frio por falta de energia."

A reportagem conversou com técnicos nas ruas da capital na última semana. Eles afirmam que as redes subterrâneas, de fato, são mais seguras durante os temporais. Porém, quando dão algum problema, é muito mais difícil localizar a falha. Citam casos, inclusive, em que os poços de visita foram inundados por esgoto.

Segundo eles, de forma geral, as redes são muito antigas, clientes apresentam um plano de consumo subestimado e podas não dão conta de árvores que deveriam ser substituídas. Também dizem que a empresa tem contratado funcionários e que, de fato, a tecnologia tem melhorado tanto a forma de trabalho quanto as condições de parte da rede.

Especialistas ouvidos pela reportagem afirmam que a automatização da rede é fundamental para restabelecer rapidamente o fornecimento interrompido por alguma falha mais simples, durante os temporais, por exemplo. Mas citam a necessidade de um cronograma de implementação da rede subterrânea como forma de minimizar os estragos provocados pelas chuvas.

"Tem que ser projeto de longo prazo, pressão de órgãos públicos. Não tem solução em curto prazo. Tem que pensar em coisa para 10, 15, 20 anos", afirma José Aquiles Baesso Grimoni, professor do Departamento de Engenharia de Energia e Automação da Poli, da USP.

Segundo Grimoni, um dos problemas é o custo para se implantar redes subterrâneas. "É cara, vai atender parcialmente a uma rua e vai ser diluída na conta de todo mundo. Tem um lado perverso da não isonomia."

Doutor e coordenador do curso de Engenharia Elétrica do Instituto Mauá de Tecnologia, Edval Delbone também ressalta o custo elevado do circuito subterrâneo como impeditivo para a implementação em larga escala de uma vez só. "Mas poderiam assumir um compromisso de tantos quilômetros por ano. São ações que podem minimizar as interrupções. Chuva e vento são causas naturais, não temos controle sobre elas", afirma.

Delbone diz que a Enel tem feito melhoria na rede, "mas o ideal era que fizesse com mais intensidade". Segundo o professor do Instituto Mauá, ainda há muitos cabos nus, sem qualquer proteção, o que facilita a interrupção do fornecimento de energia durante temporais e ventanias.

A Enel diz que bateu recorde de investimento em 2021 (R$ 1,6 bilhão) e que as melhorias implementadas na rede já surtem efeito na vida das pessoas. A automatização já teria evitado, por exemplo, que mais de 9 milhões de clientes sofressem com falta de energia. Segundo a Enel, 77 mil comandos efetuados de dentro do centro de operações evitaram o deslocamento de equipes em número equivalente até o local de alguma ocorrência.

Diretor de Operações da Enel, Darcio Dias afirma que o "investimento prudente" consta da regulação da Aneel. Dessa forma, a empresa evita prometer a expansão de redes subterrâneas para toda a cidade, porque o custo é de 10 a 15 vezes maior do que o da rede aérea. "Esse investimento feito na rede levaria à majoração da tarifa do cliente", afirma, ou seja, quem pagaria o enterramento dos cabos seria o próprio consumidor, mesmo que a sua região não fosse a primeira a ser atendida.

Dias conta que é possível prover uma boa qualidade de serviço mesmo com a rede aérea. A empresa conta que já instalou mais de mil quilômetros de rede compacta (o "spacer cable", mais resistente ao toque de objetos e galhos), cerca de 9.400 equipamentos de automação na rede de distribuição, entre outras melhorias.

A concessionária afirma que, desde que assumiu a distribuidora de energia, os indicadores de duração e frequência das interrupções melhoraram 42% de dezembro de 2017 a dezembro de 2021. Segundo a Enel, o DEC que mede a duração das interrupções reduziu em cerca de quatro horas de dezembro de 2017 até dezembro de 2021.

Em pontos críticos, a Enel pretende instalar o elicord, um tipo de fiação compacta mais resistente a interferências, parecida com o cabo subterrâneo.

"Tem a robustez de um cabo subterrâneo. Claramente, é mais caro, uma estrutura com qualidade técnica superior", afirma o diretor de Infraestrutura e Redes da Enel São Paulo, Vincenzo Ruotolo. Segundo ele, serão mais 20 km desse tipo de fiação em 2022.

Tanto Ruotolo quanto Dias dizem que, em alguns casos, como quando um eucalipto de 40 metros derruba vários postes, o prazo de restabelecimento será maior, independentemente da automação. Para minimizar esses problemas, a Enel conta que fez mais de 400 mil podas no ano passado na Grande São Paulo e que monitora a vegetação ao redor dos fios.

A Aneel afirma que não há, na concessão, nenhum valor mínimo obrigatório de investimento na rede por parte da concessionária.

Já a Arsesp (Agência Reguladora dos Serviços Públicos do Estado de São Paulo) diz que multou a Enel em R$ 16 milhões no ano passado. "À Arsesp compete controlar e fiscalizar os resultados dos indicadores de qualidade. E, em caso de descumprimento dos indicadores, a empresa está sujeita a penalidade e à obrigatoriedade de compensar financeiramente seus usuários diretamente na fatura", disse em nota.