Folha de Londrina

Vida nos Distritos

Vida nos distritos

Reportagem da FOLHA percorre 360 quilômetros para ouvir as histórias de quatro distritos: São Martinho, em Rolândia; Bratislava, em Cambé; Água das Abóboras, em Ibiporã e Pau D’alho do Sul, em Assaí

Grandes histórias “habitam” a memória e o coração daqueles que se despediram da terra natal e abraçaram uma nova vida no Norte do Paraná

A relação com a terra, com a comida, com o clima e outras etnias. Quem desceu em solo paranaense em busca de fartura e trabalho, muitos e muitos anos atrás, deu o suor como recompensa e a saudades da terra natal como esperança.

Mas ao contrário do que muitos imaginavam quando aqui chegaram, a vida foi acontecendo naturalmente e cada família foi colhendo os frutos de tamanha luta. Disso tudo, novas histórias se formaram e os planos para apenas uma “passagem” por terras vermelhas fincaram raízes e ergueram paredes.

Estrada Rural para Bratislava, distrito de Cambé/PR
Estrada Rural para Bratislava, distrito de Cambé/PR

Quem chegou para trabalhar nos distritos da região de Londrina décadas atrás encontrou o recomeço e guarda o passado no coração, ou em uma música que toca no rádio, ou em um aroma que sobe das panelas, ou nas festas tradicionais promovidas pelos grupos.

A reportagem da FOLHA traçou um caminho no mapa atrás dos pioneiros desses lugares. Na Colônia Bratislava, em Cambé, o cenário bucólico tem como referência as construções preservadas ao longo de 50, 60 anos, como a capela de madeira e a primeira escola rural do município.

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Quem chegou primeiro e deu vida àquela terra foram os eslovacos e, durante alguns anos, as crianças da colônia eram alfabetizadas na língua pátria de seus pais. Depois dos eslovacos, chegaram também alemães, portugueses, japoneses, poloneses, italianos, ucranianos, tchecos e russos, além de paulistas, mineiros e nordestinos.

Apesar da presença de algumas famílias vindas do Nordeste brasileiro, a maior parte delas tomou outro rumo: o distrito de Pau D’Alho do Sul, a 20 quilômetros de Assaí. A partir da década de 1940, adultos e crianças desceram do pau de arara, sentiram o vento gelado, conheceram centenas de japoneses que se tornaram seus empregadores e comeram pela primeira vez o arroz. A comida, aliás, dá um toque especial nessas andanças pelos distritos.

Em São Martinho, na zona rural de Rolândia, a bandeira italiana “abraçou” os lotes de terra, enquanto que a comunidade alemã se firmou e deu notoriedade a Rolândia. Para todos os imigrantes e migrantes, o trabalho nas lavouras era sinônimo de fartura, mas nesse distrito em especial a produção de embutidos também agregou valor e sabor a toda história.

Não é a toa que compradores de outras regiões sempre fazem uma parada pelos açougues de São Martinho, localizados na avenida principal “Marzadema”, em homenagem aos pioneiros.

Capelas de Água das Abóboras foram tema de livro da Secretaria de Cultura de Ibiporã
Capelas de Água das Abóboras foram tema de livro da Secretaria de Cultura de Ibiporã

Italianos também se instalaram na área rural de Ibiporã, especificamente em Água das Abóboras, Água dos Cágados e Guarani. A colonização se deu a partir da década de 1920 e quem passa por esses três espaços hoje encontra esse passado preservado nas capelas e nas lembranças de quem vive por lá até hoje.

Apesar da distância no mapa, há pontos em comum entre esses distritos, revelando que a riqueza vai além da terra. Muitas histórias estavam “cobertas” pela poeira do cotidiano, mas nunca deixaram de existir. Pelo contrário, foram elas que ajudaram a driblar o frio, a sobreviver à geada negra, ao cansaço nas lavouras e à dor de estar longe de casa. Foram as lembranças de vida que todos trouxeram consigo que fez valer a pena, uma vida inteira.

PR-170 - Entrada do distrito de São Martinho, no município de Rolândia/PR
PR-170 - Entrada do distrito de São Martinho, no município de Rolândia/PR

São Martinho

Da mata fechada à capital dos embutidos

Vítor Ogawa

Distrito de Rolândia foi colonizado por imigrantes italianos; hoje é conhecido pelos açougues, que vendem para várias cidades da região e até para outros Estados

Rolândia é famosa na região Norte do Paraná pela colonização alemã, no entanto, no distrito rural de São Martinho a origem foi italiana. O café era o eixo de sustentação da economia do País e no intervalo entre 1887 e 1930, os italianos formaram o maior grupo dos imigrantes que ingressaram no Brasil - 35,5% do total. Entre eles estava Hettore Martini, que se casou com Thomazia e saíram do interior de São Paulo para a região onde hoje fica São Martinho, em 1935. Foram os primeiros a adquirir lote no local, daí a origem do nome do distrito.

Rua Marzadema guarda na composição de seu nome a história de seus pioneiros, os italianos Martini, Zago, Deganutti e Mariani
Rua Marzadema guarda na composição de seu nome a história de seus pioneiros, os italianos Martini, Zago, Deganutti e Mariani

A filha adotiva do casal, Josefa Isaura de Sousa, 66, mora na mesma propriedade que foi desbravada pelas pais. “A companhia estava vendendo terras e meu pai adquiriu uma fazenda de 50 alqueires. Ele plantava café, criava gado e fazia tijolos para as casas que começavam a ser construídas na região”, relata.

O neto de Martini, o artista plástico e professor de pintura Euzébio Denner Dias de Sousa, 45, relata que o avô doou a área que compreende a parte direita da avenida principal para a construção de casas que formaram o núcleo urbano do distrito. “Meu avô era um homem muito bom. Ele teve boas condições na vida e isso permitiu que tivesse 12 filhos biológicos e outros 12 adotados. Minha mãe é filha adotiva, mas foi cuidada como se fosse filha biológica.”

“Meu avô Hettore Martini foi um grande homem. Contribuiu muito para São Martinho. A gente sempre procura relembrar a história dele para as pessoas” Eusébio Denner

Ele afirma que o núcleo forte de italianos do início de São Martinho influenciou no dia a dia do distrito. “São Martinho é muito católica pelo fato de ter muitos italianos”, exemplifica. “Se eu pudesse encontrar hoje com meu avô diria ‘muito obrigado’. Ele foi um grande homem. Contribuiu muito para São Martinho. A gente sempre procura relembrar essa história para as pessoas”, enaltece.

Josefa Isaura Sousa e seu filho, o artista plástico Euzébio Denner
Josefa Isaura Sousa e seu filho, o artista plástico Euzébio Denner

OS AMIGOS ITALIANOS

Por vislumbrar que havia uma ótima oportunidade de desenvolvimento, cinco anos depois de se instalar no local, Martini trouxe de São Paulo os amigos italianos, que também adquiriram propriedades próximas uma das outras. Martini e os amigos Zago, Deganutti e Mariani foram os pioneiros que implantaram o núcleo que viria a se tornar distrito. O nome não foi dado só em homenagem ao santo católico, mas também por causa de Martini, pois a sonoridade se assemelhava a de São Martinho. O distrito foi criado oficialmente no dia 14 de novembro de 1951.

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Os quatro também doaram terras para formar a área urbana do distrito e em homenagem a eles a avenida principal recebeu o nome de Marzadema, neologismo formado com as primeiras sílabas dos nomes. O lavrador José Leonardi, 77, é neto de Zago. “A entrada do sítio dele foi doado para fazer a igreja”, conta, dizendo que na época o meio mais seguro para ir e voltar de Rolândia era a cavalo. Era assim que o primeiro padre da Paróquia de São Martinho, José Herions, vinha de Rolândia.

Paróquia de São Martinho fica ao centro da rua Marzadema
Paróquia de São Martinho fica ao centro da rua Marzadema

“Quando criança eu não sabia das dificuldades que meus pais passavam. Eles se viravam e sabiam arrumar as coisas e criar soluções para problemas difíceis” José Leonardi

Leonardi nasceu em 1942 e lembra que na infância seus pais faziam compras em Rolândia (distante 17 km), utilizando o carroção. “Com três ou quatro anos a gente começa a gravar alguma coisa na memória. Daqui até Rolândia era um ‘canudo’ de mato. Quando criança eu não sabia das dificuldades que meus pais passavam. Depois da segunda guerra mundial faltava açúcar, sal e querosene. Eles mesmos faziam o açúcar na propriedade, com engenhocas tocadas por animais. Se viravam e sabiam arrumar as coisas e criar soluções para problemas difíceis”, elogia.

O lavrador José Leonardi, neto de Zago
O lavrador José Leonardi, neto de Zago

No fim da década de 1950, São Martinho sofreu uma grave crise de energia elétrica e que ficou registrada na memória dos habitantes. “A energia vinha da fazenda Maragogipe, mas a estrutura foi sucateando com o tempo. Tinha dia que tinha energia, mas ficávamos dois dias na escuridão”, observa Leonardi. “Eles falavam que a Copel não podia vir para cá, porque tinha essa rede da fazenda Maragogipe. Reunimos 50 pessoas com machados e derrubamos todos os postes. Ficou poste caído para todo lado. Depois que derrubamos tudo, aí veio a Copel, e a energia ficou 100%. Eu tinha mais ou menos 16 ou 17 anos na época”, relembra.

Ele aponta que a rodovia de terra, que atualmente é conhecida como PR-170, só foi asfaltada em 1970.

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“A geada negra acabou com o café. Nessa época meu pai também castrava porcos e ganhava um leitão em troca do serviço. Ele alugou um açougue e começou a vender carne de porco” Marcos Luiz Sanches

O FIM DE UM CICLO E INÍCIO DE OUTRO

O dia 18 de julho de 1975 foi um dia triste para o Norte do Paraná. A região foi atingida pela geada negra, que obrigou os produtores a erradicar os cafezais. Marcos Luiz Sanches, 47, um dos proprietários da Central Carnes, é descendente de espanhóis e italianos e relata a saga enfrentada por sua família, que trabalhava na lavoura. “Somos em sete irmãos e a geada negra acabou com o café. Nessa época meu pai (Narciso) também castrava porcos e ganhava um leitão em troca do serviço. Ele alugou um açougue e começou a vender carne de porco e consequentemente da linguiça”, recorda.

Marcos Luiz Sanches, comércio de embutidos começou com o pai
Marcos Luiz Sanches, comércio de embutidos começou com o pai

Inicialmente a produção era pequena. “Como aqui é uma rodovia, o pessoal que era de outras cidades passava por aqui. Com o ‘boca a boca’ a clientela foi aumentando”, destaca Sanches.

“A minha mãe fazia chouriço e eu aprendi a fazer embutido sozinho. Nós inventávamos a receita” Hermínio Leonardi

Hermínio Leonardi, família começou a fabricar embutidos em 1977
Hermínio Leonardi, família começou a fabricar embutidos em 1977

Outra família que começou a fabricar embutidos, em 1977, foi a Leonardi. Quem começou o negócio foi José Leonardi, que posteriormente passou para seu filho Hermínio, hoje com 75 anos. Hermínio chegou a passar o bastão para o filho Júlio César, mas o açougue acabou sendo vendido para Alex Fiori, ex-funcionário da Central Carnes. O Açougue São Martinho atuou por 37 anos sob a tutela da família Leonardi.

“Meu pai e meus tios chegaram aqui em 1938 quando era só mata. Minha irmã foi a primeira criança a nascer em São Martinho e fez 80 anos no dia 15 de abril”, relata Hermínio. “Eles engordavam porco no chiqueiro, tiravam o leite da vaca, faziam manteiga e queijo. A minha mãe fazia chouriço e eu aprendi a fazer embutido sozinho. Nós inventávamos a receita. Se sobravam carnes, fazíamos charque. Se sobrava barriga, defumávamos o bacon”, explica.

Ele enaltece que hoje todo mundo fala bem de São Martinho, considerada a capital dos embutidos. “Não tem lugar que faz embutidos igual fazemos aqui. Pode ir em outros municípios, que você não vai achar o que a gente tem aqui.”

“São Martinho representa tudo para mim. Nasci aqui e estou até hoje. Não quero sair daqui” Alex Fiori

Alex Fiori, 40, atual proprietário do açougue São Martinho, fala dos seus clientes. “Tem gente de todo lado: de Presidente Prudente, de Curitiba, de Londrina... O pessoal vai espalhando que temos bons produtos.” Sobre o distrito, ele só tem elogios. “São Martinho representa tudo para mim. Nasci aqui e estou até hoje. Não quero sair daqui. A gente conhece todo mundo. O que mais gosto de fazer no tempo livre é jogar bola e andar de cavalo, para dar uma arejada”, destaca.

PÃES CASEIROS E NOVOS MORADORES

Se a rodovia ajudou na divulgação da qualidade dos embutidos de São Martinho, os pães caseiros, salgados e os doces vêm ganhando força no comércio de beira de estrada. Há seis anos Joaquim Albano da Silva, 66, comercializa os pães que sua mulher produz. “Eu trabalho na prefeitura há 25 anos e passei a vender os pães para complementar a renda”, conta.

“Aprendi a fazer pão com a minha mãe e ela deve ter aprendido com a minha avó. Isso vem de família. O pão feito em casa é mais gostoso. O segredo é fazer com carinho”, declara a mulher Maria Flórea da Silva, 61, que mora em São Martinho desde os 15 anos de idade.

Joaquim Albano da Silva e Maria Flórea da Silva (detalhe)
Joaquim Albano da Silva e Maria Flórea da Silva (detalhe)

Em 2011, 116 famílias foram contempladas pelo programa do governo federal Minha Casa, Minha Vida para residir em São Martinho. A doméstica Aparecida Batista Fogaça, 60, é uma delas.

Ela trabalhou durante muitos anos na lavoura e circulou por muitos municípios do Paraná e de São Paulo. “Morei em Londrina em 1975, depois fui trabalhar na colheita de café em São Paulo. Lá conheci famílias daqui, que falaram que morar em São Martinho era bom”, explica.

“Vim para cá há 23 anos, no começo pagando aluguel. Agora consegui a minha casa própria, no conjunto Jardim Fioravante Strassacappa.” Na casa ela mora com seus seis filhos desde 2011. O maior problema do distrito, segundo Fogaça, é a falta emprego. “A única coisa que tinha aqui era a usina de cana, mas depois ela faliu. Agora só tem um serviço ou outro”.

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Bratislava era reduto de imigrantes estrangeiros

Simoni Saris

A Colônia em Cambé, onde a vida acontece em ritmo mais lento, ainda guarda características deixadas pelos antigos moradores

Fundada em 1932 por imigrantes eslovacos que deixaram o interior paulista na expectativa de realizar o sonho de ter as próprias terras, a Colônia Bratislava, em Cambé (Região Metropolitana de Londrina), ainda guarda características deixadas pelos antigos moradores. Resistiram ao tempo algumas construções e a tranquilidade. Na colônia, a vida acontece em um ritmo mais lento, como nas pequenas cidades do interior. Não há trânsito, não há pressa. Tudo segue o fluxo da vida no campo, em um cenário bucólico embalado pelos sons da natureza.

Bratislava (1978)
Bratislava (1978)

“Eram muitos colonos eslovacos quando eu cheguei. Tinha a igreja dos polacos, agora não tem mais. Vinha um padre (eslovaco) fazer visita, rezar missa. E agora mudou. São poucos daquela época. Só meu sogro tinha cinco famílias em cinco sítios encarreados, mas as pessoas foram embora”, recorda Leonilda de Angeli Silva, 78, uma das moradoras mais antigas do lugar, para onde se mudou em 1949.

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“Cuidei dessa capela por 45 anos. Eu lavava todas as toalhas, as roupas dos coroinhas, até a roupa do padre” Olga Gaffo Basseto

Olga Gaffo Basseto, 81, nasceu em São Manuel, perto de Botucatu (SP), e chegou à Bratislava em 1956. Recém-casada, o marido havia comprado um sítio na colônia e o casal veio para começar a vida a dois trabalhando na lavoura.

“Fiquei sentida porque larguei toda a minha família em São Paulo. Quando cheguei, eu detestava porque a gente foi criada em terra de areia, aquela limpeza. Mas depois meu pai veio morar para cá, pertinho de mim. Aí a gente ficou feliz.” Sessenta e três anos depois, ela ainda vive na mesma casa onde formou sua família ao lado do marido, morto há 18 anos. Todos os oito filhos nasceram e cresceram lá.

Descendente de italianos, Basseto achou diferente a cultura dos imigrantes do leste europeu. “Mas a gente se encontrava em festas, na igreja, foi acostumando e ficamos todos amigos.”

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ÊXODO

A pujante cultura do café que atraiu os primeiros moradores começou a declinar em 1975, após a geada negra que devastou as lavouras do Paraná. Sem o fruto gerador de grandes riquezas, houve o êxodo. Os mais jovens mudaram-se para a zona urbana. Ficaram os antigos colonos, mas a maioria deles já faleceu. Silva é uma das mais antigas do lugar e, apesar da insistência dos filhos para que se mude para a cidade, a transferência de endereço não está nos seus planos. “Até o ar daqui é diferente. A gente tem tudo aqui. Parece que se vai em outro lugar, não se sente bem. Vou fazer 58 anos nessa propriedade.”

Muitas das terras de antigamente foram divididas em lotes que se tornaram chácaras de lazer. Também foi construído um condomínio de chácaras com casas de alto padrão. Com a mudança na configuração das propriedades, mudou também o perfil de boa parte dos frequentadores da Colônia Bratislava, moradores da cidade que passam o fim de semana na zona rural.

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PROCESSO DE ADAPTAÇÃO

Os primeiros imigrantes europeus chegaram a Cambé no início da década de 1930. Naquela época, o lugarejo era patrimônio de Londrina e foi batizado de Nova Dantzig. O nome foi escolhido pela CTNP (Companhia de Terras Norte do Paraná) para reverenciar os imigrantes vindos da cidade alemã de Dantzig. A companhia destinou glebas para a formação das colônias ao redor das vilas, os futuros núcleos urbanos, e as terras serviam à produção agrícola de onde os colonos tiravam seu sustento.

Os europeus que se instalaram no chamado Norte Novo do Paraná eram reimigrantes vindos principalmente do interior de São Paulo, atraídos pela cultura do café. No processo de adaptação à nova realidade, eles criaram condições de vida parecidas às que levavam em seus países de origem, preservando cultura e costumes.

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ESCOLA DE VÁRIAS ETNIAS

No intuito de manter viva sua cultura, os imigrantes fundavam até mesmo as suas próprias escolas. A escola de Bratislava foi a primeira unidade rural de Cambé, construída em 1936 pelos pioneiros eslovacos. Hoje denominada Escola Rural Municipal Ana Zichack Mazzei, em homenagem a uma das primeiras professoras da comunidade, a instituição passou por reformas e ampliações, mas continua sendo o ponto final de uma estrada de terra, cercada por lavouras, com a capela de madeira ao fundo, construída em 1953. Na instituição, as crianças da colônia eram alfabetizadas na língua pátria de seus pais.

“De manhã, as maritacas fazem revoada. Os cabritinhos saem de manhã para pastar e a gente escuta o barulhinho” Adriana Erica de Souza

Mais tarde, com a chegada de novos imigrantes e o aumento populacional da Colônia Bratislava, a escola chegou a reunir mais de 260 alunos descendentes de diversas etnias, com aulas pela manhã e à tarde. Depois dos eslovacos, chegaram também alemães, portugueses, japoneses, poloneses, italianos, ucranianos, tchecos e russos, além de paulistas, mineiros e nordestinos.

“Antigamente tinha muitas crianças até pelo fato de que as mulheres tinham mais filhos. Hoje, temos poucas crianças que ainda são dessas famílias de pioneiros. As outras são filhas de pessoas que conseguem as casas para morar na condição de cuidarem da chácara ou do sítio, mas muitas delas acabam indo embora por conta da situação financeira”, comentou a coordenadora da escola, Adriana Erica de Souza, que classifica as crianças de hoje como “itinerantes”. “Elas vão e voltam muito.”

CANTO DOS PÁSSAROS

Embora o crescimento geográfico tenha “levado” a cidade cada vez mais para perto e as reformas tenham garantido uma boa infraestrutura que em nada lembra as escolas rurais isoladas e com edificações precárias, a vida escolar na colônia ainda guarda algumas particularidades. “A gente ainda tem a graça ver as coisas que na cidade a gente não consegue ver, como o canto dos pássaros. De manhã, as maritacas fazem revoada. Ao lado, eles criam cabritinhos que saem de manhã para pastar e a gente escuta o barulhinho. E é bem comum o cacarejar das galinhas. Tem essa parte rural que está bem próxima da gente. Sem contar as plantações.”

O número reduzido de alunos – 42 no total – também permite um envolvimento maior dos funcionários com as crianças. “A gente conhece criança por criança. Já sabe do comportamento, já sabe da mãe, do pai, da família”, disse Souza. “Uma outra coisa é o respeito. Na hora do lanche, têm o hábito de falar ‘Deus abençoe’ para a merendeira. São pequenas coisas que fazem muito a diferença, então a gente procura manter isso nas crianças e valorizar esse tipo de comportamento.”

A merendeira é Sueli Estevam da Silva, que há quase 20 anos foi transferida de uma escola no Caramuru para a escola rural da Bratislava e ficou apreensiva com a mudança de emprego. “Tinha medo de não ser aceita, mas aqui fiz muitos amigos e atendo crianças que são filhos de ex-alunos.”

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QUERMESSES

“Eram muitos colonos eslovacos quando eu cheguei. Tinha a igreja dos polacos e vinha um padre (eslovaco) fazer visita, rezar missa” Leonilda de Angeli Silva

Leonilda de Angeli Silva e Olga Gaffo Basseto têm um papel importante na função de agregar a comunidade e não deixar que se percam os vínculos entre os que ainda vivem na colônia e aqueles que foram para a cidade. As quermesses são um ponto de encontro da comunidade e elas trabalham duro nos bastidores.

Uma das principais celebrações é a festa em comemoração a São João, padroeiro da Bratislava. Depois de cinco anos suspensa, neste ano a quermesse voltou a acontecer com um almoço caprichado que reuniu 750 pessoas no salão da igreja, promovido pela Associação Comunidade Bratislava em de junho.

“Meu pai era muito da igreja. A gente vinha, trabalhava na barraquinha do coelho, no jogo de tômbola, na roleta. Era quermesse e a gente ajudava e continua ajudando até hoje”, conta Silva. “Cuidei dessa capela por 45 anos. Eu lavava todas as toalhas, as roupas dos coroinhas, até a roupa do padre. Todos os anos sou eu que enfeito o São João”, diz Basseto.

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Abóboras, Cágados e Guarani

Isabela Fleischmann

Área rural de Ibiporã guarda registros de imigrantes italianos desde a década de 1920; capelas eram ponto de encontro da comunidade

Subia a poeira vermelha depois de sucessivas curvas pela trilha que fazia clareira no milharal. A modestos 11 quilômetros de Ibiporã (Região Metropolitana de Londrina), uma extensa região rural guarda registros de ocupação informal por imigrantes italianos desde a década de 1920. A Água das Abóboras, Água dos Cágados e o Guarani têm impressas em suas memórias fazendas, capelas e quadros sem moldura de paisagens de morros com o colorido verde avermelhado de quem fugiu da urbes paranaenses.

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Os que primeiro abriram a mata para fincar raízes na região fizeram das capelas o ponto de encontro da vizinhança. Quando chovia e as estradas rurais não permitiam a mobilidade, a capela era o refúgio. Era o campo de bola e a convergência com Deus, com os amigos e amores.

Pelo projeto de recuperação da memória histórica da cidade, a Prefeitura de Ibiporã produziu um livro que lembra a colonização por meio das capelas rurais: O Circuito das Capelas. Publicado em 2016, as páginas exibem a arquitetura que valoriza a cultura e turismo da região.

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POVO ACOLHEDOR

No noroeste de Ibiporã, a região é procurada pelo cicloturismo de visitação das capelas. As três igrejas citadas aqui fazem parte da Paróquia San Rafael: a Capela São Pedro (Abóboras), a São Sebastião (Guarani) e a Nossa Senhora Aparecida (Cágados). Gabriel Tan Uin, 48, é o padre missionário da paróquia. Veio de Mianmar, na Ásia, para o Brasil, há sete anos. Três desses passados no Mato Grosso do Sul e quatro na zona rural de Ibiporã.

“Nas festas, como a de São Pedro e a de São João, os filhos e netos dos pioneiros vão para as capelas, tem essa nostalgia ainda de quando era um espaço movimentado” Agnaldo Adélio Eduardo

“Foi um pouco difícil acostumar com a cultura ocidental. Tive um pouco de dificuldade para aprender a língua. Depois, devagarzinho, acostuma. O povo brasileiro é acolhedor”, disse. Amado pela comunidade, o pároco, mesmo em horas de folga, vai à São Pedro para ajudar na manutenção da capela, pintar, comer e conversar com os moradores.

Gabriel Tan Uin, padre missionário da Paróquia San Rafael
Gabriel Tan Uin, padre missionário da Paróquia San Rafael

Os pioneiros da zona rural de Ibiporã se deparavam com vastas matas, que deram lugar às plantações de café, que também tiveram o fim de seu ciclo, em 1975, com a geada negra. “Essa cultura foi muito importante para a permanência desses pioneiros, tínhamos grandes fazendas que demandavam muita mão de obra”, contou o secretário de Cultura e Turismo de Ibiporã, Agnaldo Adélio Eduardo.

Os filhos e netos desses pioneiros, no entanto, não costumam permanecer na área rural. O êxodo rural da juventude em busca de trabalho nas cidades levou a uma menor participação nas capelas. “Mas nas festas, como a de São Pedro e a de São João, eles vão para as capelas, tem essa nostalgia ainda de quando era um espaço movimentado.”

Capela São Pedro (Abóboras)
Capela São Pedro (Abóboras)

ÁGUA DAS ABÓBORAS

Acessando pela PR-090, sem asfalto, fica a estrada da Água das Abóboras. Chega-se na entrada do loteamento de um sítio onde se vê a casa de Maria Aparecida Cortez Menegon, 62. Procede, seguindo a trilha, a Capela São Pedro. Fundada em junho de 1938 por quem morava na comunidade, a capela fica em uma área que antes pertencia a Sertanópolis.

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A primeira igreja era de madeira, 500 metros de onde está o atual santuário de alvenaria. Nos tijolos da construção da capela maior, em 1959, brincava a menina Maria Aparecida. Inaugurada em 1964, a nova igreja ostenta até hoje o sino herdado da capela original.

Menegon se recorda da narrativa da capela e dos traços em comum com a história de sua família. “Comecei a namorar com 15 anos, com 18 eu casei. A gente vinha aos domingos no terço, eu morava no sítio do tio dele, era empregada lá”, conta ela, casada há 44 anos com Florisvaldo Menegon.

“Ensinei a minha família a amar e respeitar a igreja. Faz parte de mim e da Água das Abóboras essa capela” Maria Aparecida Cortez Menegon

“Minha sogra veio da Itália. Eles que abriram isso aqui. Era tudo mato. Os Volponi, Menegon, Ferrari, todos foram fundadores daqui. O que ficou da raiz somos nós. Eu e meu marido, a maioria já foi embora”, afirma, dizendo que só deixa a região no dia que for para perto de Deus. “À minha família, também ensinei a amar e respeitar a igreja. Faz parte de mim e da Água das Abóboras essa capela”.

Carabina, como é conhecido Adelino Lopes, 77, também é pioneiro. Catequista na capela São Pedro, alto e sorridente, dizia ser “grato a Deus” em todo o tempo. Quando moço, Lopes jogava como zagueiro central no time de São Pedro e na Estrela do Norte, de Ibiporã. “Nessa época eu tinha 18 anos. Cheguei com 14 aqui. Eu morava na fazenda Furquini, do administrador Francisco Moura”. Carabina ficou por cinco anos na fazenda, a dois quilômetros da capela. Depois, mudou-se para a fazenda ao lado, onde ficava seu irmão que administrava o sítio. Hoje, ele mora no sítio depois da antiga venda das Abóboras. “Minha casa é aqui nas Abóboras.”

Adelino Lopes, o Carabina jogava como zagueiro central no time de São Pedro e na Estrela do Norte, de Ibiporã
Adelino Lopes, o Carabina jogava como zagueiro central no time de São Pedro e na Estrela do Norte, de Ibiporã

GUARANI

Altos pés de milho cercam a Estrada do Guarani. Próxima ao morro, está a Capela São Sebastião. Uma linda igreja que ainda herdou o piso da antiga construção de madeira. Com azulejos e detalhes em azul, a capela guarda obras sacras, ornamentos e esculturas do falecido artista Henrique de Aragão. É a segunda capela mais antiga, de 1946. Hoje, é cercada por um muro.

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Seguindo a estrada de terra, poucos metros após a igreja, está a fazenda de Lionel Pelisson. Foi lá que, 68 anos atrás, o agricultor nasceu. Os pais de Pelisson chegaram ao Guarani em 1932 com cinco crianças pequenas. Na região, o casal ainda teve mais cinco filhos: Lionel tem nove irmãos.

Quarenta famílias chegaram a viver na fazenda de Pelisson, empregados que tocavam o café. “Tinha time de futebol e tudo a moçada”. Hoje, ele vive apenas com a esposa, com quem está há 44 anos casado.

Pedro Grumiero chegou em 1973 no Guarani. Tinha 13 anos. Na fazenda de Pelisson, tocou café, bicho-da-seda, poncã e banana. O bisavô de Grumiero, italiano, navegou por seis meses até chegar ao Brasil por conta do vento contrário.

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“Aqui se conhece todo mundo, sabe até o dia em que a pessoa está brava” Pedro Grumiero

Sempre em janeiro, a comunidade organiza a festa do padroeiro do Guarani. “Aqui se conhece todo mundo, sabe até o dia em que a pessoa está brava.” Foi na capela que Grumiero conheceu sua esposa, Margarete, e onde batizou filhos. “Creio que São Sebastião é um santo que une as pessoas, ele é o protetor das lavouras”.

Capela Nossa Senhora Aparecida (Cágados)
Capela Nossa Senhora Aparecida (Cágados)

ÁGUA DOS CÁGADOS

Mais subidas e descidas pela estrada rural da Água das Abóboras em direção a Sertanópolis levam até a Água dos Cágados. “Não sei, devia ter muito aqui”, sugere Reinaldo Giroldo, 85, sobre o nome ímpar do local onde vive. De Martinópolis, interior de São Paulo, a família italiana do pioneiro chegou na Água das Abóboras em 1945. Em 1947, abriram o mato nos Cágados.

Com seis anos já ajudava o pai na roça. Onde antes era café, Giroldo viu o mecanicismo tomar conta. Reclama que está caro viver da agricultura. “Hoje, o que você gasta, quase que você não tira. É uma fortuna, planta, adubo, semente”. Giroldo ajudou a construir a capela de alvenaria de Nossa Senhora Aparecida, dos Cágados. “Eu e minha esposa não perdemos um terço, uma missa”.

Adélia Milani, terceira geração de imigrantes, ajudava a plantar na região desde os sete anos
Adélia Milani, terceira geração de imigrantes, ajudava a plantar na região desde os sete anos

Vida nos Distritos

“Melhor coisa que tem na vida da gente é se reunir e rezar, eu e minha vizinha não perdemos um terço de jeito nenhum” Alice Butler

Tio de Alice Butler, 69, todos moram nas proximidades da capela. Ela nasceu na fazenda onde mora, na Água dos Cágados, e estudou na escola rural que ficava ao lado da antiga capela Nossa Senhora Aparecida, de madeira. Tanto a capela de madeira quanto a escola já não existem mais. Conheceu o esposo, Antonio José Butler, 70, no terço da igreja. Com 46 anos de casados e um casal de filhos, eles agora ajudam na administração da capela.

Na ordem Adélia Milani, Alice Butler, Antônio José Butler e Reinaldo Giroldo no interior da capela Nossa Senhora Aparecida, em Água dos Cágados (Ibiporã)
Na ordem Adélia Milani, Alice Butler, Antônio José Butler e Reinaldo Giroldo no interior da capela Nossa Senhora Aparecida, em Água dos Cágados (Ibiporã)

Os hábitos da avó italiana de Butler foram herdados. “Tenho a panela dela, onde ela fazia polenta”. Recorda que a panelona de polenta era despejada em uma tábua e, em seguida, era cortada. “No outro dia, ela limpava a chapa e tomava com café. Era muito bom.”

A comunidade da Água dos Cágados não precisa da avalanche de opções que a cidade dá. O campo pode parecer um existir tedioso para quem corre na vida, mas para quem vive no refúgio dos Cágados, o viver é ávido. A igreja, os vizinhos – que se não são parentes de sangue, são de alma – a lavoura e os animais bastam. Por conta disso, Alice fala com mansidão e a tranquilidade de uma vida na roça. “Melhor coisa que tem na vida da gente é se reunir e rezar, eu e minha vizinha não perdemos um terço de jeito nenhum”.

Distrito de Pau D'alho do Sul, município de Assaí/PR
Distrito de Pau D'alho do Sul, município de Assaí/PR

Uma terra onde o sertão ‘vive’

Micaela Orikasa

Em Pau D’Alho do Sul, distrito de Assaí, as plantações de algodão simbolizaram um recomeço de vida para muitas famílias nordestinas na década de 1940

As plantações de milho e trigo “acompanham” quem segue rumo a Pau D’Alho do Sul, distrito que fica a cerca de 20 quilômetros de Assaí (Região Metropolitana de Londrina). Em poucos minutos, pequenas casas surgem no horizonte e o número de ruas dá para contar nos dedos.

Logo à frente, um senhor tira leite da vaca ali mesmo, no meio da rua. A chegada do carro da FOLHA atrai os poucos olhares acordados que, com certeza, já faziam ideia sobre a presença do jornal.

A missão é contar a história dos nordestinos que dão vida ao distrito e isso foi como revirar um álbum de fotografias que ora traz lágrimas de alegria, ora de tristeza. Pois a trajetória dessas famílias que chegaram “perdidas” em terras paranaenses a partir da década de 1940 é feita de saudades da terra natal e moldada pelo começo de uma nova história.

Vida nos Distritos

Hoje, após décadas de dedicação ao campo, os nordestinos falam com orgulho sobre a conquista do próprio pedaço de terra e da criação dos filhos que se espalharam pelos quatro cantos do País. Sobre a possibilidade de retorno ao nordeste, todos são unânimes em dizer: “só se for a passeio”.

“Aqui eu me sinto em casa. Eu me considero um paranaense. Com meu trabalho, criei 17 filhos, 14 de tempo e três aborto. Sempre lutando com minha mulher que nunca reclamou de comer farinha com feijão. Isso eu passo para meus filhos. O homem rico é aquele que vive com o coração e com o suor do rosto dele”, comenta Manoel José da Silva, 74, mais conhecido como “Mané de Duda”.

A reportagem encontrou Mané de Duda perto de sua plantação de eucalipto. “Terra igual aqui do Paraná só tem em um pedaço do Canadá. É o que escutei em uma reportagem. Porque aqui é o seguinte: se não tivesse geada, era o céu na terra. Tudo que planta, dá”.

NOMES DE ÁRVORES

Na década de 1930, a abundância dos cafezais e das plantações de algodão atraiu muitos imigrantes e migrantes. Os japoneses chegaram primeiro e dividiram as terras de Assaí em “seções”. Cada bairro rural desse recebeu o nome de árvores, como Cebolão e Pau D’Alho do Sul.

Conhecida pela comunidade japonesa o município de Assaí esconde um reduto nordestino (Foto Prefeitura Municipal de Assaí/Sem Data)
Conhecida pela comunidade japonesa o município de Assaí esconde um reduto nordestino (Foto Prefeitura Municipal de Assaí/Sem Data)

“Era tudo gente estranha aqui, mas a gente logo fez amizade com um japonês que arrumou um trabalho para meu marido. Para onde a gente olhava era mato. Em Assaí mesmo, tinha só umas três casinhas. Naquela época era doidura o tanto que o povo falava daqui e meu marido danou para vir ganhar dinheiro”, conta dona Messia Ferreira de Melo, 88. Ela é cearense e vive no distrito há 70 anos.

Ela diz que não sai de Pau D’Alho de jeito nenhum. “Só se for para a cidade de pé junto”, diz, sem economizar gargalhadas. “Meus filhos me chamam para morar com eles em outra cidade, mas eu não vou porque é daqui que eu gosto. Ah, se aqui virasse o Norte eu achava era bom”, suspira.

Manoel José da Silva, o “Mané de Duda” chegou a Pau D’Alho do Sul aos 14 anos
Manoel José da Silva, o “Mané de Duda” chegou a Pau D’Alho do Sul aos 14 anos

FEBRE DO ALGODÃO

Doutora em Geografia e professora aposentada da UEL (Universidade Estadual de Londrina), Alice Yatiyo Asari estudou sobre a colônia japonesa assaiense e descobriu que, ao contrário das demais seções, Pau D’Alho do Sul tinha o menor percentual de japoneses e descendentes. O predomínio era das famílias nordestinas, sendo a maioria de Pernambuco.

Naquele tempo, o algodão era uma “febre” para quem sonhava com uma vida melhor e Assaí, por sua expressiva produção, ficou conhecida como a “Capital do Ouro Branco”. Como os japoneses já estavam instalados por lá, os nordestinos que iam chegando eram contratados para o serviço pesado em troca de abrigo e comida.

Vida nos Distritos

“E foi assim que a gente veio parar aqui. Foram 16 dias de Pau de Arara e já no primeiro dia colhi 25 quilos de algodão. A gente trabalhava que nem escravo”, lembra José Miguel de Oliveira, 72, o “Zé Coleta”. Ele veio com os pais e os irmãos de Garanhuns (PE), com apenas 14 anos. Sua mãe teve 23 filhos, mas muitos já faleceram. O braço direito dele é o irmão Waldemar Miguel Oliveira, 66, conhecido como “Bau”. Como muitos nordestinos, eles esmorecem ao relembrar a viagem. “Dava muita ferida e tinha dias que a única comida era goiaba e rapadura. A gente também tinha que ficar dando nó em corda para não ficar louco.”

Passado o trauma da viagem, os nordestinos buscaram de todas as formas se adaptar aos costumes do sul. Eles ficaram surpresos com a fertilidade do solo, mas uma das maiores descobertas foi o arroz.

Zé Coleta conta que no dia seguinte da chegada de sua família, a mulher de um fazendeiro chegou com um punhado de arroz. “A gente nunca tinha visto um caroço de arroz. Minha mãe botou o arroz na panela e ficou mexendo que nem xerém. A mulher quando viu minha mãe fazendo aquilo, ficou doida, jogou tudo fora e mostrou como faz. Nós comemos tanto que depois deitamos no sol quente e ficamos um tempão lá, que nem bichinho”, diz com alegria.

“E foi assim que a gente veio parar aqui. Foram 16 dias de ‘pau de arara’ e já no primeiro dia colhi 25 quilos de algodão” Zé Coleta

Bem instalados, adaptados ao arroz e convivendo em harmonia com os japoneses, o próximo desafio dos nordestinos foi o inseto Bicudo, uma praga que infestou as plantações de algodão na década de 1970. “Foi terrível. Fiquei devendo 14 mil contos e fui pagando devagarzinho, mas muita gente teve que ir embora porque o bicho acabou com tudo”, lembra Zé Coleta.

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Fravio, cabrito de estimação de Bau
Fravio, cabrito de estimação de Bau

Criado no quintal da residência na avenida principal do distrito de Pau D’Alho tem sua própria casa e é tratado como da família
Criado no quintal da residência na avenida principal do distrito de Pau D’Alho tem sua própria casa e é tratado como da família

Zé Coleta cria galinhas no quintal de sua residência poucos metros da casa de seu irmão. O “Galo de Botina” é seu animal favorito
Zé Coleta cria galinhas no quintal de sua residência poucos metros da casa de seu irmão. O “Galo de Botina” é seu animal favorito

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O FRIO INIMIGO

Mas também havia outro “inimigo” pela frente: o frio. “Para aquecer minhas crianças eu fazia um colchão de palha. Os meninos ficavam deitados dentro de um buraco igual um ninho de galinha”, recorda dona Messia Melo.

Imagine o sofrimento de quem sequer tinha uma blusa, mas precisava madrugar e ir para a lavoura sob geada. Essa memória é tão viva que Zé Coleta tira o chapéu e passa a mão na cabeça recordando que o cabelo ficava branco de gelo. “Os dedos congelavam tudo porque às vezes nem tinha calçado. A parte mais difícil de acostumar foi o frio. Para aquecer, lembro bem que a gente entrava na tulha de algodão a granel e dormia no meio. Chegava até a suar”, diz.

Os irmãos pernambucanos Bau e Zé Coleta vivem há 58 anos em Pau D’Alho do Sul
Os irmãos pernambucanos Bau e Zé Coleta vivem há 58 anos em Pau D’Alho do Sul

‘TÁ NO CORAÇÃO’

“Da garrafa eu faço a vela, da parte Lira o caixão, me enterre no alambique com um copo verde na mão, a metade no Pau D’Alho e o resto no Cebolão”. O repente de “cachaceiro”, como Mané de Duda mesmo diz, é uma pequena demonstração de que a alegria está enraizada nos nordestinos.

Mesmo revirando o passado de sofrimento, eles encontram motivos de sobra para sorrir e brincar. “A alegria vem da nossa tradição. Não importa onde a gente vá, o nordeste tá no coração”, justifica.

“Os dedos congelavam tudo porque às vezes nem tinha calçado. A parte mais difícil de acostumar foi o frio” Zé Coleta

Questionados sobre a decisão em permanecer no Paraná, a paixão resume. “O Paraná para mim é um céu aberto. É onde vejo fartura, onde enchi a barriga e criei meus filhos. É um lugar de santo de Deus”, responde Zé Coleta.

Planta do feijão guandu
Planta do feijão guandu

Zé Coleta cultiva plantas típicas do nordeste. Na foto, feijão guandu: comum no sertão, é consumido moído em forma de farinha
Zé Coleta cultiva plantas típicas do nordeste. Na foto, feijão guandu: comum no sertão, é consumido moído em forma de farinha

PESQUISA

A professora Miriam Lopes, mestre em Geografia, esteve em contato em 2010 com 60 famílias de nordestinos em Pau D’Alho do Sul para a pesquisa “As migrações internas e a configuração sócio-econômico-espacial de Assaí-PR: o caso dos nordestinos”. Ela buscou apontar a contribuição dessas famílias para o desenvolvimento do município e conta que o solo fértil era algo “que os deixava perplexos” e cheios de esperança para buscar o restante da família que tinha ficado no Nordeste.

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Em Junho, a comunidade de Pau D’Alho do Sul comemora tradicionalmente o dia de São João, com uma festa no dia 24
Em Junho, a comunidade de Pau D’Alho do Sul comemora tradicionalmente o dia de São João, com uma festa no dia 24

Em 2019, a festa foi adiada para o dia 29 de junho, dia de São Pedro
Em 2019, a festa foi adiada para o dia 29 de junho, dia de São Pedro

Uma bandeira em homenagem aos três santos é levada em procissão pela praça da paróquia
Uma bandeira em homenagem aos três santos é levada em procissão pela praça da paróquia

Decorada de Flores as imagens dos santos juninos São Pedro, São João e Santo Antônio
Decorada de Flores as imagens dos santos juninos São Pedro, São João e Santo Antônio

Em meio ao canto de “Viva São João” o mastro é levantado no centro da praça
Em meio ao canto de “Viva São João” o mastro é levantado no centro da praça

Há queima de fogos de artifícios para celebrar a data
Há queima de fogos de artifícios para celebrar a data

Em cerimônia tradicional da comunidade, mulheres e crianças colam velas para Santo Antônio, o casamenteiro
Em cerimônia tradicional da comunidade, mulheres e crianças colam velas para Santo Antônio, o casamenteiro

A editora Patrícia Maria Alves foi intimada pela anfitriã da festa, Maria de Fátima da Silva, a participar: “Se a vela cola no mastro é certo, em um ano casa”
A editora Patrícia Maria Alves foi intimada pela anfitriã da festa, Maria de Fátima da Silva, a participar: “Se a vela cola no mastro é certo, em um ano casa”

Toda a comunidade faz doações para ajudar na organização da festa
Toda a comunidade faz doações para ajudar na organização da festa

A cozinha também é tomada por voluntários
A cozinha também é tomada por voluntários

Aproximadamente, 300 pessoas compareceram na comemoração de 2019
Aproximadamente, 300 pessoas compareceram na comemoração de 2019

Foram distribuídos mais de mil sanduíches, pipoca, refrescos e canjica
Foram distribuídos mais de mil sanduíches, pipoca, refrescos e canjica

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Um dos casais que Lopes entrevistou foi José e Maria Amaral Ferreira, já falecidos. “Eles trabalharam muito e adquiriram 106 alqueires de terra, passando a empregar muita gente nas lavouras de café e algodão. O pai de José trabalhou ainda como dentista leigo no distrito e um dos migrantes chegou a ser prefeito e deputado federal. A contribuição deles foi fundamental para o desenvolvimento do município, da região”, aponta.

Fogueira de São João no distrito de Pau D’Alho do Sul
Fogueira de São João no distrito de Pau D’Alho do Sul

Edição impressa
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HISTÓRIAS AO REDOR

PUBLICADO EM
17 de Agosto de 2019

TEXTOS
Isabela Fleischmann, Micaela Orikasa, Simoni Saris, Vítor Ogawa

FOTO & VÍDEO
Gina Mardones, Marcos Zanutto, Patrícia Maria Alves, Ricardo Chicarelli

EDIÇÃO
Lucília Okamura, Patrícia Maria Alves

ARTE
Patrícia Sagae

CAPA
Ciro Ruiz @cartoarte

ASSISTENTE DE PRODUÇÃO
Ana Elisa Frings

DIAGRAMAÇÃO/IMPRESSO
Gustavo Andrade

DESIGN/WEB
Patrícia Maria Alves

EDIÇÃO SITE
Erick Rodrigues

SUPERVISÃO DE PROJETO
Adriana De Cunto (Chefe de Redação)

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