Folha de Londrina

TERRAE BRASILIS - Os primeiros da terra

TERRAE BRASILIS

Os primeiros da terra

“Antes que os homens aqui pisassem nas ricas e férteis Terrae Brasilis, que eram povoadas e amadas por milhões de índios, reais donos felizes da terra do Pau-Brasil”, cantava Baby do Brasil. Hoje, há quem diga que os índios deixaram de ser índios por não viverem mais nesse cenário. Há quem diga que as reservas os agrupam como em zoológicos, e há quem diga que por estarem em território brasileiro devem se submeter a tudo que o governo postula contra eles, já que os brancos de hoje não teriam culpa do que os brancos do passado fizeram. Há quem diga.

Portal de entrada das Terra Índigena Apucaraninha em Tamarana
Portal de entrada das Terra Índigena Apucaraninha em Tamarana

Dois mil e dezenove. Em um dia abafado na Terra Indígena de Apucaraninha, em Tamarana (Região Metropolitana de Londrina), um dos anciãos do grupo, João Tapixi, 77, diz: “A vida do índio é complicada”. Retrocessos como a medida provisória que transferiu a Funai (Fundação Nacional do Índio) para o Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos e a demarcação de terras indígenas para o Ministério da Agricultura – atos que partiram do governo federal logo no dia 2 de janeiro – deixou o septuagenário “ansiado”.

João Tapixi
João Tapixi

Tapixi quer dizer ligeiro. É uma palavra guarani, dada por sua avó. “Fui cacique por 16 anos, fui do Conselho Indígena por 13 anos. Tive uma luta muito grande contra os não índios sobre desautorização de área indígena. Fui perseguido, teve época que tive de correr da aldeia para não ser morto pelos não índios. A gente conseguiu vencer e estamos até hoje lutando. Sempre vamos lutar. A gente tem mais idade, mais tarde quem vai lutar é a juventude. Estamos preparando a juventude no estudo, para aprender, para combater.” Tapixi e mais 800 mil índios vivem em terras verde-amarelas.

A antropóloga Josiéli Andréa Spenassatto, que faz parte do departamento de antropologia do Museu Paranaense, lembra que a transferência da Funai gerou muita polêmica e revolta também das entidades que defendem indígenas. O MPF (Ministério Público Federal) e a Apib (Articulação dos Povos Indígenas do Brasil) moveram ações apontando a inconstitucionalidade da medida.

A relação que o indígena tem com a terra não é a mesma do não índio. Tapixi conta que a terra “faz parte dele”. Questões de ancestralidade e de espiritualidade, distintas das ideias de explorações e de latifúndios. Para eles, a riqueza da terra não está no capital que ela oferece.

Entrada da “aldeia urbana” na avenida Dez de Dezembro
Entrada da “aldeia urbana” na avenida Dez de Dezembro

À margem da avenida Dez de Dezembro, na zona sul de Londrina, uma “aldeia urbana” abriga os indígenas de passagem pela cidade. O líder Renato Kriri, 53, comenta que “tudo foi retirado dos primeiros da terra, ouro, madeira. Só restou um pouco de terra, e até isso tentam tirar”.

O ambiente é hostil, segundo Spenassatto. A medida provisória não esclarece se os critérios que existem hoje para a demarcação das terras serão seguidos ou alterados. “Outro problema é que os técnicos e a estrutura que eram responsáveis pela demarcação dentro na Funai não existem na Agricultura. Para gerir essas atribuições, não ter o técnico e a estrutura adequada é um grave problema para a demarcação.”

Renato Kriri
Renato Kriri

A Terra Indígena Apucaraninha já teve sete aldeias. Hoje, são apenas três. “Apucaraninha tinha 12 mil alqueires. O índio vinha andando. Vinha índio de Queimada, Mococa e Rio das Cobras. Até hoje eles andam muito, mas hoje é de carro ou moto. Naquele tempo era a pé ou a cavalo”, recorda-se Tapixi.

Um dos primeiros da terra, ele conta que conhece Apucaraninha “de cabo a rabo”. “Tinha muito pasto, muito bicho. Eu saía de São Jerônimo da Serra andando e passava por Tamarana. Conheci Tamarana quando tinha três casas e um armazém.”

Pela sabedoria antiga, Tapixi começou a trabalhar no Centro de Memória e Cultura Kaingang para resgatar a memória indígena. “É um lugar onde tudo ficará guardado, nosso passado e presente. Está aprovado um prédio para sair o museu caingangue. Será um projeto da UEL (Universidade Estadual de Londrina), o primeiro centro de memória caingangue do Paraná.”

Gabriel Kaje, liderança caingangue

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GA (A TERRA)

Só no Paraná vivem cerca de 13,3 mil indígenas, sendo 70% do grupo caingangue e 30% guaranis. Algumas famílias xetá e xokleng vivem em terras indígenas destinadas aos caingangues e guaranis. Ainda há indígenas e descendentes que moram em Curitiba, Londrina e Umuarama, mas a grande maioria vive nas terras administradas pela Funai. São 18 terras indígenas regularizadas no Paraná, em nove diferentes etapas de demarcação.

“Na época de 1980, tive de correr da aldeia porque eles ameaçavam muito a gente. Naquele tempo matavam os índios, mandavam matar cacique. Hoje, não. Hoje a briga é no papel”, conta Tapixi.

Vista aérea do Salto de Apucaraninha em Tamarana (José Fernando Ogura Aen/PR)
Vista aérea do Salto de Apucaraninha em Tamarana (José Fernando Ogura Aen/PR)

Terras Indígenas no Paraná
Terras Indígenas no Paraná

Josiéli Andréa Spenassatto (Foto: Kraw Penas/SECC)
Josiéli Andréa Spenassatto (Foto: Kraw Penas/SECC)

Spenassatto acredita que a transferência para outros ministérios pode intensificar tensões já existentes entre ruralistas, mineradores, setor energético e indígenas, quilombolas, pequenos agricultores e defensores do meio ambiente. “Isso porque essa transferência ocorre em uma questão nacional muito tensa. Nesse caso estão em jogo demandas e interesses que podemos ler na chave sociológica das maiorias contra as minorias. Temos um governo que se pauta pela defesa de alguns interesses em detrimento de outros, no caso das populações mais fragilizadas. Então as terras indígenas do Paraná, bem como todas do Brasil, podem ser afetadas por essa decisão.”

Por meio de nota, o Ministério da Agricultura alegou que a ministra Tereza Cristina tem afirmado que não fará nada que não esteja previsto em lei. “Em depoimento na Câmara, mês passado, ela afirmou: ‘Ninguém vai desobedecer à lei. A Constituição só pode ser mudada se esta Casa assim entender’. Com isso, ela quis tranquilizar os indígenas e quilombolas. Ninguém precisa se preocupar porque os critérios usados pelos técnicos do governo vão continuar os mesmos, sendo baseados em dispositivos legais e constitucionais”.

Terras Indígenas Apucaraninha, Barão de Antonina e São Jerônimo da Serra
Terras Indígenas Apucaraninha, Barão de Antonina e São Jerônimo da Serra

Terras Indígenas da Bacia do Rio Tibagi, Apucaraninha, Barão de Antonina e São Jerônimo da Serra, Mococa e Queimadas
Terras Indígenas da Bacia do Rio Tibagi, Apucaraninha, Barão de Antonina e São Jerônimo da Serra, Mococa e Queimadas

No vai e volta das decisões federais está a municipalização da saúde indígena. A pauta foi trazida pelo Ministério da Saúde em março deste ano, o que gerou críticas das comunidades. Com a repercussão negativa, o governo se retratou: “A pasta avisa que não está mais em avaliação a municipalização da saúde indígena”, bem como a extinção da Sesai (Secretaria Especial de Saúde Indígena), responsável pelo atendimento nas unidades das aldeias.

Ainda assim, o cacique da Terra Indígena de Apucaraninha, Natalino Marcolino, queixa-se da falta de pagamento aos funcionários da unidade de saúde da terra indígena. “Olha o tamanho do posto de saúde para tratar 2.000 índios. Os empregados estão três meses sem receber, com medicamento faltando. Mas eles continuam trabalhando. Não sei o que vai acontecer daqui para frente. Na parte de saúde, ficou ruim”, lamenta.

Natalino Marcolino, cacique caingangue

Tapixi criou-se com o não índio. “Entendo bem dos dois lados.” Lembra-se que foi o único cacique que conversou com o ex-presidente Fernando Collor de Melo. “Foi feita uma demarcação e a área da terra indígena era para ser 1.400 alqueires. Mas quando eu vi a demarcação, na cubagem deu 1.455, porque tinha posseiros. Eu falei com a Funai em Londrina e me mandaram para Brasília.”

João Tapixi

Quando pensa no futuro, Tapixi aconselha seus netos a não perderem a cultura caingangue. “Se cuidem. Porque nós lutamos 500 anos para não sermos eliminados. Agora vocês se cuidem, porque é perigoso vocês se eliminarem por conta.”

Média-metragem caingangue cedido para exibição online no Especial TRANSMÍDIA: Os primeiros da terra

EG JYKRE (A CULTURA)

Na zona sul de Londrina, os indígenas permanecem no desativado centro cultural Vãre, inaugurado em 1999 para promover e valorizar a cultura caingangue. É um abrigo de passagem onde ficam de 30 a 40 indígenas.

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Segundo Kriri, os caingangues ficam no local em maior quantidade no fim do ano, durante as férias escolares. Enquanto os indígenas vêm e vão da aldeia em Tamarana, Kriri permanece. “As matérias-primas para o artesanato têm na aldeia, então eles vão lá, fazem o artesanato, balaio, cesta, e depois vêm para a cidade vender”, conta.

O espaço de passagem para o comércio é uma forma de geração de renda para os caingangues, que, segundo o líder, às vezes não têm dinheiro para comprar calçados para ir à escola. “Os que não têm renda vêm para a cidade vender alimentos. Às vezes trocam balaios por comida. Eu me preocupo porque poderia ter um projeto melhor. Mas para isso tem que ter recurso. Trabalhar com fome é que eles não vão.”

Kriri lamenta que a sociedade critique os índios por vê-los pedindo esmola na cidade. “O problema é do governo, de forma geral. Para os ricos deve estar bom, porque eles têm duas, três, quatro fazendas. Hoje minha população não tem nada. Dentro do Paraná, as terras foram reduzidas pelos governos passados. Hoje se o índio não tem nada, não é culpa dele. Alguma coisa aconteceu.”

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Média-metragem caingangue cedido para exibição online no Especial TRANSMÍDIA: Os primeiros da terra

JÃNJÃN (CANTO INDÍGENA)

Embora em algumas aldeias o idioma nativo tenha sido pulverizado, os caingangues da Terra Indígena Apucaraninha fizeram a língua perdurar. Para João Tapixi, um dos traços mais importantes do grupo é a manutenção do idioma, falar o caingangue.

Spenassatto ressalta, entretanto, que muitos indígenas que não falam mais suas línguas nativas, ainda assim, são indígenas. “A língua é a forma que você manifesta o mundo. Visões de mundo são extirpadas quando você elimina uma língua. Isso aconteceu e acontece pela hegemonia do português.”

Doutora em antropologia social pela USP (Universidade de São Paulo), Kimiye Tommasino acrescenta: “Falar a língua caingangue é apenas a parte mais evidente da diversidade cultural que caracteriza os caingangues.”

É uma estratégia de organização para defender suas terras e direitos constitucionais. Na presença do não índio, fazem questão de se afirmar na língua ancestral. “Sempre que participam de eventos importantes, exibem seu bilinguismo: falam entre si na língua caingangue e com as autoridades não índias, em português.”

A antropóloga, Kimiye Tommasino no acampamento à margem do rio Apucarana durante a Festa do Pari (Arquivo Pessoal/02-04-19)
A antropóloga, Kimiye Tommasino no acampamento à margem do rio Apucarana durante a Festa do Pari (Arquivo Pessoal/02-04-19)

Foi preciso tempo para conseguir a confiança de Tapixi para uma entrevista. Em ambientes com não índios e na presença da imprensa, ele é cauteloso. Defende, sobretudo, seu povo. Dialogava com outras lideranças em caingangue e respondia em português para a reportagem. “Se não segurar, vai ter muita reserva que vai perder a identidade indígena. Em São Jerônimo da Serra, tem aldeia que parece que só tem três famílias de índio. Eles não falam caingangue”, conta.

Tikuen Xetá morreu em 2005. Com ele, a língua. Era um dos últimos remanescentes do grupo, dizimado pelo não índio. Um de seus sete filhos, Claudemir da Silva, é o único que fala língua indígena em São Jerônimo. Lá, a terra indígena caingangue abrangeu o único xetá sobrevivente do norte paranaense. “Claudemir fala duas palavras do Xetá, que o pai dele ensinou”, reforça Tapixi.

“Se nós perdemos nossa identidade, nossa língua, aí passa para o lado do não índio. Nós temos nossa língua, que é a origem do tempo passado, é a origem do outro mundo que não sei quando que veio.”

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Além da língua, a vestimenta também é uma forma importante de reforçar a cultura. Tommasino lembra que em eventos políticos decisórios, como durante a negociação da indenização pela construção da hidrelétrica do Apucaraninha com a Copel e o MPF (Ministério Público Federal), eles se pintaram e usavam adornos.

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Os grupos de dança caingangues e guaranis surgiram nas últimas décadas. Tommasino cita um ex-cacique caingangue lembrando que da mesma maneira que em momentos solenes as autoridades não índias usam paletó e gravata, os caingangues adotam pinturas corporais e adornos plumários para defender seus direitos.

Dança do grupo Nen Ga
Dança do grupo Nen Ga

Os guaranis e os xetás falam línguas do tronco linguístico Tupi. Já os caingangues e xoklengs falam línguas do tronco linguístico Macro – Jê. Segundo a antropóloga Maria Fernanda Maranhão, responsável pelo setor de antropologia do Museu Paranaense, administrado pela Seec (Secretaria de Estado da Cultura), no português há palavras de origem guarani para designar nomes de espécies nativas de frutas, vegetais e animais, como guabiroba, maracujá, butiá, capivara, jabuti, biguá e cutia. O caingangue deu nome aos nomes de municípios como Goioerê, Candói, Xambrê e Verê.

Mas, ao se tratar de sobrenomes, os brasileiros não levam os nomes indígenas. Uma situação incongruente, já que antes dos primeiros europeus chegarem, os ameríndios, os indígenas, já habitavam a terra. Uma pesquisa do Ipea (Instituto de Pesquisa e Econômica Aplicada) de 2016 analisou 46 milhões de nomes cadastrados na Rais (Relação Anual de Informações Sociais) e constatou que 87,5% dos sobrenomes brasileiros têm origem ibérica. O Ipea sugere que os métodos de sobrenome não são apropriados para identificar a ancestralidade indígena ou africana, já que esses grupos foram forçados a adotar sobrenomes ibéricos.

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Silva, Souza, Gomes, sobrenomes que vêm da Espanha e de Portugal, são hegemônicos no País. Os que não são ibéricos, são italianos (7,7%) ou em menor escala germânicos, árabes e japoneses. Ter um sobrenome ibérico não significa ser descendente de português ou espanhol, e mesmo que se tenha ancestrais indígenas ou africanos, os sobrenomes passados desses grupos foram apagados.

Rodrigo Bonciani
Rodrigo Bonciani

O professor adjunto da Unila (Universidade Federal da Integração Latino-Americana) Rodrigo Bonciani explica que os nomes nas culturas indígenas têm grande importância, porque podem representar caráter e função da pessoa no grupo ou ser um marcador de parentesco. “Entre os Jê valoriza-se a conservação do repertório de nomes como patrimônio do passado a ser transmitido entre as gerações”, pontua.

Média-metragem caingangue cedido para exibição online no Especial TRANSMÍDIA: Os primeiros da terra

KAINGÁNG AG KURÃ (DIA DO ÍNDIO)

No sábado subsequente ao Dia do Índio, indígenas do CMCK (Centro de Memória e Cultura Kaingang) realizaram a Mostra da Cultura Kaingang e receberam os não índios com comidas típicas, exposições e apresentações.

“Pois todo dia e toda hora era dia de índio. Mas agora eles têm só um dia. Um dia 19 de abril”

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Tommasino lembra que as festas tradicionais dos caingangues foram proibidas, enquanto as festas nacionais foram impostas. “Com a criação do Dia do Índio em 1943, adotado para ser comemorado no dia 19 de abril pelo decreto do presidente Getúlio Vargas, todas as escolas passaram a comemorar e aprender sobre os indígenas. Nas aldeias a comemoração passou a ser com fandangos, bailes e churrascos. Aos poucos foi surgindo o gosto pelos rodeios à medida que participavam das festas regionais, no entorno das aldeias.”

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Cada terra indígena é singular. Geralmente, os caingangues se dividem em várias aldeias, “cada uma sendo habitada por várias famílias entrelaçadas pelo parentesco”, pontua Tommasino. A Apucaraninha tem três aldeias: Sede, Água Branca e Barreiro. “As alianças políticas são costuradas pelos casamentos que acontecem entre os filhos das diferentes famílias organizadas em aldeias e grupos locais”.

Hoje, os rodeios são promovidos nas festas indígenas. O rodeio de Apucaraninha leva muitos não índios ao local para a festa. A integração é uma realidade. Em Água Branca, pequenas índias dançavam ao som de um remix eletrônico de uma música gospel. “Eu mesma assisti a um rodeio na Barão de Antonina nos dias 27 e 28 de junho de 1998 na programação da Festa do Padroeiro”, lembra a antropóloga.

Os indígenas jogam futebol. “É o esporte mais importante dos meninos e jovens em todas as aldeias.” E estão no futebol, como no Bahia, que tem um jogador indígena. O clube frequentemente relembra a luta dos índios pela demarcação por meio de um núcleo de ações afirmativas, que extrapolam as linhas do gramado.

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Os caingangues gostam de festas e de sertanejo. “Homens e mulheres de todas as idades adoram dançar e adquiriram preferência pelas músicas gaúchas. Conheci idosos que tinham bombachas para usar nos bailes”, comenta. De acordo com a antropóloga, o gosto por rodeios e sertanejo tem a ver com a imposição de políticas indigenistas civilizatórias da história recente.

O inca Luis Castañeda se apresenta no Dia do Índio no TI Apucaraninha
O inca Luis Castañeda se apresenta no Dia do Índio no TI Apucaraninha

Índígena boliviano Samuel Condo Tarqui
Índígena boliviano Samuel Condo Tarqui

“Churrasco” de peixe e pinhão
“Churrasco” de peixe e pinhão

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“As festas do Dia do Índio sempre foram abertas ao público regional e da mesma forma as festas sertanejas tinham os índios como convidados. Os índios foram adquirindo o gosto pelas festas regionais que aos poucos adotaram como parte de sua nova cultura, e, nesse processo, ao se apropriarem delas, foram ressignificadas. Hoje as festas de rodeio e os bailes com músicas gaúchas fazem parte de sua cultura. Isso também ocorre com a nossa cultura que a cada dia incorpora novos hábitos e comportamentos importados de outros países e regiões.”

Não foram só os caingangues que tiveram a oportunidade de exibir sua arte durante a mostra do Dia do Índio, na Apucaraninha. O inca Luis Castañeda, 39, é equatoriano. “Eu estava na Alemanha e conheci um brasileiro. Ele me falou do Brasil e eu vim para São Paulo. Acabei conhecendo minha esposa e vim para o Paraná”, conta. Músico, Castañeda magistralmente soprava diversas flautas em companhia do indígena boliviano Samuel Condo Tarqui, 42. Ambos vendiam artesanato aos não índios durante a mostra.

Média-metragem caingangue cedido para exibição online no Especial TRANSMÍDIA: Os primeiros da terra

KAINGÁNG AGENTE GA TY KARANIH (APUCARANINHA)

A autoridade política dos indígenas centra-se na figura do cacique e do vice-cacique, que são eleitos, “dentro de um modelo imposto aos índios pelo órgão indigenista, mas apropriado pelos índios de acordo com suas necessidades e seu modo próprio de fazer política”. Seja por Tamarana ou por Lerroville, para chegar até Apucaraninha custa tomar estrada de terra. Poeira vermelha, morros e mata guiam até o portal com uma placa que anuncia a área indígena demarcada.

Na entrada da aldeia sede, se vê o CMCK (Centro de Memória e Cultura Kaingang), onde um grupo trabalha para documentar a cultura com tecnologias atuais, e a casa do cacique. Um lugar simples, díspar das residências de autoridades não indígenas. Choque número um: não há ocas, mas casas de alvenaria.

Cachorros, galinhas e motos. Muitas motos pela aldeia caingangue. Choque dois: crianças andam com os pais nas motocicletas, todos sem capacete. O antropólogo francês Claude Lévi-Strauss ponderava que as sociedades “primitivas” não têm a visão de previdência que a sociedade ocidental capitalista tem. Vive-se pelo dia de hoje, e só. “Nós somos diferentes de vocês, agimos diferente, não temos ambição. Não queremos ser donos do Brasil, porque já somos dono dele. Não pensamos no amanhã. Para nós é hoje”, diz João Tapixi.

Eles se vestem como não índios. Falam português. Usam celular e fones de ouvido. Editam vídeos que eles mesmos produziram no computador. Estão no Facebook, no Instagram e no Whatsapp. Há mais de um século, convivem permanentemente com os não índios. Mas isso não significa que deixaram de ser índios, comenta a antropóloga Kimiye Tommasino.

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“A cultura se refere ao conjunto dos sistemas simbólicos, ou seja, são os sentidos que estão subjacentes aos usos e costumes em qualquer momento de suas trajetórias. Os caingangues de hoje são índios modernos, são índios de nosso tempo, mas eles continuam recriando e atualizando a cultura de seus antepassados preservando suas raízes simbólicas e sua cosmologia que continua muito diferente da nossa.”

No centro da aldeia, a “rádio kaingang”. Alto-falantes para anúncios à comunidade. Uma unidade básica de saúde e duas escolas. E o salto do Apucaraninha, cachoeira de 116 metros.

Rádio caingangue
Rádio caingangue

Além do cacique e vice-cacique, uma comissão de lideranças dá apoio logístico e atua internamente em casos de brigas, bebedeiras e outros problemas internos. No dia do índio, os indígenas comemoravam que “as lideranças trouxeram sorvete.”

O mandato do cacique dura quatro anos. Mas Tapixi lembra que, diferente do não índio, se ele não for bom, a comunidade tira. “A hierarquia existe, mas diferente do que temos em nossa sociedade. A base da legitimidade e do prestígio político nas sociedades indígenas em geral provém da sua generosidade, da sua capacidade de distribuir bem-estar para o seu grupo, principalmente das famílias que constituem sua base de apoio”, comenta Kimiye Tommasino.

‘Fui calçar um sapato com 14 anos”, lembra João Tapixi. Quando se casou, na década de 60, tinha dois pares de calçados: um para bailar e outro para trabalhar. “O índio de antes era muito trabalhador, no mato, com ferramentas. Tudo era no braço, os índios eram muito bons no trabalho no braço. Hoje a nossa juventude não sabe mexer com isso. Só que também se naquele tempo aparecesse carro ou moto não saberiam mexer. Hoje eles mexem com tudo, carro, internet.”

A vida mudou. Tanto para os índios quanto para os não índios. “A gente tem que prestar muita atenção, a vida pode mudar, mas não podemos deixar de ser o que somos. Nós somos filhos do Brasil, não podemos esquecer o que vivíamos no passado.” Ele se lembra de seu pai que falava que um dia “os mortos iriam falar”. “Pois hoje os mortos falam. Artistas que já morreram e estão cantando na televisão”, comenta.

Média-metragem caingangue cedido para exibição online no Especial TRANSMÍDIA: Os primeiros da terra

VÃKYR (MÚSICA INDÍGENA)

Para os caingangues, não há pajés. Existem curandeiros. Os “kuiã” foram perseguidos por parte do SPI (Serviço de Proteção do Índio) – órgão antecessor da Funai, pertencente ao Ministério da Agricultura, Indústria e Comércio, criado em 1910.

Caçada de papagaios, óleo sobre tela de 1970 (Acervo CMCK)
Caçada de papagaios, óleo sobre tela de 1970 (Acervo CMCK)

Durante o período do SPI, o índio sofreu. Principalmente na época da ditadura militar, como lembra João Tapixi. “Quando tinha meus 15 anos, via os índios velhos sofrendo na unha de quem tomava conta. Era preso no tronco, apanhava. Não podia falar na língua nativa porque eles não entendiam, achavam que estávamos tramando coisas contra eles. Então na época, de 55 até 60, a gente padeceu muito na mão do não índio.”

Nascido na Terra Indígena Barão de Antonina, Tapixi passou por momentos penosos. Viu seu cacique ser assassinado. “Esse cacique dava muito a favor dos índios e contra os não índios, que é a causa de todo cacique até hoje. Teve um posseiro que se fingia de amigo do cacique. Ele arrumou um carpinteiro para fazer a casa que o cacique queria fazer. Mas não era para fazer a casa do cacique, era para matar o cacique”, lembra.

Foi em uma festa, durante a madrugada. Tapixi recorda que alguns homens pediram que ele chamasse o cacique. “Eu era um dos líderes, acompanhei o cacique. Deram um tiro no peito dele. Eu estava a três metros.” Em agosto de 2014, Tapixi foi convidado para prestar depoimento para a Comissão da Verdade na UEM (Universidade Estadual de Maringá). “Eles perguntaram se eu tinha visto quem matou. Disse que até hoje nunca vi. Perguntaram se eu gostaria de saber onde eles estavam e eu disse que sim. Contaram que os homens que assassinaram o cacique foram mortos pela ditadura. Assim falou para mim o Ministério Público Federal.”

Bisneto de indígenas, José Cícero Dantas da Silva, 48, veio de Pernambuco. Casou-se com uma indígena e atualmente vive em Barão de Antonina, em São Jerônimo da Serra. Vende colares com sementes e pedras, brincos com penas minuciosamente confeccionados por Dantas e a esposa dele expondo a cultura caingangue. Cultura que ele trouxe da bisavó. “O costume de comer sentado no chão, aprendi tudo isso com ela.”

José Cícero Dantas da Silva
José Cícero Dantas da Silva

O artesão conta que muita coisa mudou na cultura, como o tradicional ritual de sepultamento caingangue. Para ele, o que cortou o tempo, foi a linguagem. “Meu filho estava na escola do branco e minha mulher estava ensinando a linguagem caingangue para ele. Mas, a professora ensinava diferente.”

Toto, em caingangue, é borboleta. Lembrando que sua esposa falava “Toto”, e o filho respondia “mãe, isso não é Toto, é borboleta”, o artesão resolveu colocar o filho para estudar na aldeia.

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Com a proibição das crenças tradicionais, o ritual de sepultamento mais importante para os caingangues, o Kikikoi (ritual dos mortos) desapareceu na bacia do Tibagi há cerca de 70 anos, segundo Tommasino. “Os curandeiros persistiram fazendo curas e cerimônias ‘menores’, sempre às escondidas das autoridades indigenistas. Com o surgimento dos movimentos sociais para retomar terras invadidas e depois para serem ressarcidos pelas hidrelétricas do Apucaraninha e de Mauá, entre Ortigueira e Telêmaco Borba, esses kuiã atuais passaram a preparar novos guerreiros para as guerras modernas e ressurgiram os rituais de construção dos corpos desses guerreiros”, acrescenta a especialista Tommasino.

Grupo guerreiro tradicional caingangue (Acervo CMCK)
Grupo guerreiro tradicional caingangue (Acervo CMCK)

Os rezadores de hoje fazem “remédios”, como conta Tapixi. Antes de uma batalha importante – seja ela disputa por terras no papel – os índios recebem esses remédios, passam no corpo, como uma “água benta”. Cabe aos enfermeiros e médicos que atuam na UBS das aldeias o entendimento de que, em caso de uma doença, o indígena vai aliar o medicamento do não índio às curas indígenas. Doenças físicas e espirituais.

Tapixi tem armadilhas de caça até hoje. “Meu pai fazia e me ensinou a fazer. Tenho minhas armas de caçar pássaro. Armamento original de índio, eu mesmo que faço.”

Ele lembra dos ensinamentos de seu pai. “Meu pai colocava um pedaço de pau entre uma árvore e a oca. Perguntei o que ele estava fazendo e ele disse que me ensinaria a brigar. Deu umas pancadas no pedaço de pau que pulava de um lado para o outro e falou para eu treinar três dias pelo menos uma hora. E eu comecei. Tinha hora que aquele pedaço de madeira vinha na minha cara, tirava o couro. No terceiro dia ele chegou e eu estava brincando. Perguntou se eu tinha aprendido. E eu disse que eu batia em qualquer um em qualquer lugar. Ele falou que não era isso que eu tinha que aprender. Que eu tinha que aprender a brigar com a vida.”

Brigar com a vida, porque no rosto de Tapixi cresceria barba. Embaixo do nariz, cresceria um bigode. Ele se lembrava que o pedia que honrasse o bigode que tem embaixo do nariz e a barba que tem no rosto. Tapixi cumpre até hoje. Se marca algo, cumpre na hora correta. “Ele me ensinou isso. Disse: ‘Você tem que lutar para criar seus filhos. Essa é a briga que você vai ter. Você vai em um armazém, mas não compre fiado, não fique devendo.”

Média-metragem caingangue cedido para exibição online no Especial TRANSMÍDIA: Os primeiros da terra

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VÃNH-GÉNH TU VÃJÉ (CANTO DA GUERRA E DA VITÓRIA)

“Os índios estão o tempo todo manifestando a sua condição: querem ser reconhecidos como membros da sociedade caingangue e ao mesmo tempo esperam ser aceitos como cidadãos da sociedade nacional, como brasileiros”, lembra antropóloga Kimiye Tommasino.

Há quem seja intolerante. E índios ainda são vítimas de discriminação quando saem das aldeias para estudar, trabalhar ou vender produtos. O professor Amaral Valentim do Carmo trabalha desde 2012 com os indígenas. Desde 2013 leciona na escola dentro da aldeia e em 2016 assumiu a direção do colégio. Segundo Carmo, a maioria dos jovens indígenas acaba englobando as culturas do não índio, até mesmo por vergonha.

Amaral Valentim do Carmo
Amaral Valentim do Carmo

O diretor conta que algumas pessoas vão conversar com os indígenas e pensam que eles não dão atenção. Mas, na verdade, eles não estão compreendendo os não índios. “Quando eles dão risada do não índio, não é que eles estão tirando sarro, é que eles não estão entendendo nada que o não índio está falando. Grande parte deles só fala caingangue e só vai ter contato com o português no terceiro ou quarto ano das séries iniciais e o sotaque deles é forte”, explica.

A hora do intervalo
A hora do intervalo

Os jovens da escola caingangue são como os jovens não índios. “Gostam de ouvir reggae, funk. Quando estão fora da terra indígena, têm vergonha de falar a língua deles e têm vergonha de falar o português, porque é arrastado. O forte da discriminação é o desconhecimento. Você não conhece a cultura e o modo de vida do outro, você discrimina. Antes de trabalhar com eles, eu também tinha uma visão diferente. Quando se pensa em indígenas, pensa-se só na Amazônia. Quem não conhece pergunta se eles moram na oca, andam pelados. Acham que só se viver dessa forma é índio. Críticas, sempre tem. Mas é através do conhecimento que se desmistifica. É um trabalho de formiguinha, é o que o indígena sofre, o negro e o pobre sofrem.”

A educação indígena mudou na última década. Antes, os caingangues estudavam em escolas não indígenas em Tamarana. Para Carmo, mesmo com todos os percalços do transporte diário até a aldeia, o trabalho é gratificante. “Nós não indígenas vamos ficar aqui enquanto não tiver indígena formado na área. Estamos aqui como um ‘tampão’.” Contudo, hoje os caingangues estão cada vez mais confiantes, como lembra Tommasino. “Hoje temos vários indígenas nas universidades e muitos já estão fazendo pós-graduação.” Por ano, no mínimo três estudantes caingangues que deixam a escola indígena na aldeia passam no vestibular. Carmo lembra de alunos estudando geografia, educação física, arquitetura, direito, fazendo especialização em letras. “Conforme eles forem se formando, terão espaço aqui.”

TERRAE BRASILIS - Os primeiros da terra

O respeito e a disciplina dos indígenas em sala de aula surpreenderam o diretor. “A forma de eles se relacionarem com os professores é diferente. É uma coisa fantástica. Se for comparar com a qualidade do ensino da escola lá de fora, a relação que a gente tem com os alunos aqui é fora do comum. Lá fora, sala de professor é ambiente exclusivo para professor. Aqui, não.” É uma estrutura social diferente. Carmo explica que não há “adolescentes indígenas”. Até 12 anos é considerado criança, depois, é adulto. “Eles respondem aqui como adultos. O que pode pode. O que não pode não pode. Eles têm a justiça e a polícia deles.” A anormalidade é quando um ou outro indígena mata aula.

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Marilene Bandeira é pedagoga na escola caingangue. Há dez anos trabalha na Terra Indígena do Apucaraninha. Nascida e criada em Cândido de Abreu (Centro), foi alfabetizada em português. Queria ser professora. Ao terminar a oitava série, ingressou no magistério não indígena. Em quatro anos concluiu e começou a atuar como professora de português e caingangue.

“Surgiu o primeiro vestibular indígena do Paraná em 2001, fiz e passei. Fui para Ponta Grossa. Na época, meu marido passou em agronomia e eu em pedagogia. Foi muito bom, tive muitas experiências nas escolas não indígenas em Ponta Grossa. Conheci o lado da educação não indígena e já tinha a indígena, fiquei com os dois conhecimentos. Na faculdade, a gente aprende só a ser professor como não indígena, mas eu já tenho a cultura.”

Bandeira conta que desde que a escola se instalou na aldeia foi feito um trabalho de revitalização das disciplinas. “Os indígenas estavam deixando um pouco de lado sua cultura. No nosso programa de aula consta a semana cultura, o ritual do Pari, com as armadilhas que nossos antepassados faziam. Hoje, Apucaraninha é referência em cultura e podemos com isso buscar os direitos deles também. Nossa escola não trabalha igual a escola de fora, porque temos uma cultura diferente, pensamos diferente, nosso jeito de trabalho é diferente.”

NEN GA

Os Nen Ga são um grupo de dança de Apucaraninha. É a juventude que, por meio de danças e cantos, recuperou a tradição caingangue. Além da juventude, o grupo Guerreiros, com mais velhos, apresenta-se e veste-se com adereços característicos em ocasiões de celebração ou de luta por direitos. “Os Guerreiros continuam guerreiros para sempre. Se amanhã tiverem de enfrentar novas batalhas em defesa de seus direitos, eles estarão guerreando. As danças fazem parte da vida dos caingangue e dos índios em geral. Os guerreiros dançam e cantam para comemorar suas vitórias, reverenciar um guerreiro morto, nas apresentações do grupo de dança em espaços públicos, em vários momentos da vida”, pontua Tommasino.

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E essa identidade caingangue tem sido trabalhada na escola indígena. “Está funcionando. Eles são alfabetizados na língua materna deles, tem surgido bastante efeito. O pessoal daqui é bem requisitado nas manifestações que têm Brasil afora.” Tommasino acrescenta que os jovens indígenas de hoje têm um foco em conseguir uma inserção mais qualificada na sociedade e na revalorização das raízes culturais.

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FESTA DO PARI

A Festa do Pari, feita às margens do rio Apucarana Grande – como os indígenas chamam o rio Apucarana - é uma reinvenção caingangue de um evento milenar que tinha como função principal a obtenção de alimentos nos meses de inverno.

(foto: Acervo CMCK)
(foto: Acervo CMCK)

O pari é a armadilha feita com pedras e galhos para capturar peixes. “Foi uma reinvenção da pesca como festa, como ritual de integração social entre as gerações das aldeias da Terra Indígena Apucaraninha. Parece se tratar de um evento que busca, durante os cinco dias que ficam acampados às margens do rio, fortalecer tanto a relação dos homens com a natureza como entre si, principalmente entre as gerações”, diz a especialista.

(foto: Acervo CMCK)
(foto: Acervo CMCK)

(foto: Acervo CMCK)
(foto: Acervo CMCK)

(foto: Acervo CMCK)
(foto: Acervo CMCK)

Os pequenos brincam no rio, pescam e aprendem a prepará-lo, sempre com os pais. “As meninas brincam, mas também ajudam as mães a lavar as panelas e as roupas nas águas do rio.” Os meninos competem com arremesso de lança, corrida, natação, cabo de guerra e zarabatana.

(foto: Acervo CMCK)
(foto: Acervo CMCK)

Segundo Tommasino, a festa também é um ritual espiritual, com celebração, histórias contadas pelos mais velhos. “São momentos em que as pessoas mais idosas da comunidade procuram transmitir a história dos caingangues para os mais jovens, assim como certos conhecimentos sobre suas experiências de vida. Nesses dias, os caingangues vivem intensamente uma experiência comunitária de verdadeira comunhão espiritual. Ouvi de algumas pessoas que participaram das festas do Pari anteriores que ao final todos choram de emoção e as crianças não querem voltar para suas casas na aldeia”, conta.

Média-metragem caingangue cedido para exibição online no Especial TRANSMÍDIA: Os primeiros da terra

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TERRAE BRASILIS - OS PRIMEIROS DA TERRA

DATA DE PUBLICAÇÃO
11 de Maio de 2019

TEXTOS
Isabela Fleischmann

IMAGENS
Isabela Fleischmann, Patrícia Maria Alves, Ricardo Chicarelli

FOTOGRAFIA
Ricardo Chicarelli

EDIÇÃO E PRODUÇÃO MULTIMÍDIA
Patrícia Maria Alves

EDIÇÃO DE TEXTOS
Fernando Rocha Faro

EDIÇÃO SITE
Erick Rodrigues

ARTE
Junior Zamuner, Patrícia Sagae

APOIO LOGÍSTICO
Zenil Costa

DIAGRAMAÇÃO/IMPRESSO
Junior Zamuner DESIGN/WEB Patrícia Maria Alves

SUPERVISÃO DE PROJETO
Adriana De Cunto (Chefe de Redação)

AGRADECIMENTOS
À comunidade indígena caingangue pela recepção amistosa e autorização do uso de imagens feitas pela equipe em suas terras. Ao cacique Natalino Marcolino e às lideranças caigangues pelo pronto atendimento. E aos participantes do projeto CMCK pela cessão de seus filmes para a publicação nesta reportagem.

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