Folha de Londrina

Radicais e Urbanos

RADICAIS E URBANOS

Cheios de emoções fortes e muita adrenalina, os esportes radicais urbanos reinventam as cidades

Ao transitar pelas ruas, minha frente é cortada por um jovem sobre um skate. O shape colorido e desgastado mostra os anos de asfalto. Ele passa rápido; desce rumo a uma pista que fica logo ali, no Vale do Rubi. Na praça ao lado, o acrílico de patins pesados e velozes deslizam por um corrimão, só não tão velozes quanto os rapazes que descem a rua de longboard. Quase não se vê, só se sente o vento quando passam próximo a um paredão no qual uma moça forte sobe agarra por agarra, dominando a via.

REPORTAGEM

Lucio Flávio Cruz, Patrícia Maria Alves

FOTOS

Gina Mardones, Gustavo Carneiro e Isaac Fontana

EDIÇÃO

Patrícia Maria Alves, Thiago Mossini

Radicais e Urbanos

Os esportes radicais urbanos nasceram da aventura em montanhas corredeiras, desfiladeiros, nas ondas do mar e em atividades do cotidiano. Transmutados de esportes como do alpinismo, que originou a escalada; do surf e seus adeptos “viciados”, que criaram mini pranchas para asfalto e deram origem ao skate; até mesmo de um modo de deslocamento em lagos congelados, como foi criado o hábito de andar sobre patins e, por fim, do treinamento físico militar do pai de David Belle, o criador do parkour. Eles encontraram na cidade o ambiente ideal para se desenvolver; representam a singularidade de seus moradores e hoje são símbolos da vida em grandes centros urbanos. Seus atletas correm riscos, caem, se machucam, mas quando perguntamos porque continuam, a resposta é um brilho no olhar.

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A edição de setembro do Folha Transmídia vai destacar e mostrar várias alternativas de esportes radicais urbanos, que unem a empolgação de se aventurar em manobras e saltos arriscados em meio aos obstáculos e cenários criados pelas paisagens urbanas.

Descemos ladeiras íngremes em alta velocidade com os adeptos do longboard, que gostam de adrenalina total e não ligam para alguns tombos e ralados pelo corpo.

Nesta mesma linha, interceptamos skatistas que encontramos nas nossas ruas e pistas exclusivas existentes pela cidade. Não tão popular assim, mas não menos emocionante e arriscado. Encontramos o patins street, que divide espaço com os skates e as bicicletas nas pistas públicas de Londrina.

Descobrimos que não tínhamos habilidades e capacidades corporais para a prática do parkour com a turma no Zerão, que desafiou os mais variados obstáculos urbanos como pontes, calçadas, muros, morros, casas e construções.

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E, por fim, encaramos um paredão na rocha, ou melhor, construído na cidade mesmo, com os integrantes do CMNP (Clube de Montanha Norte Paranaense) que usam as escadarias de um Estádio em Cambé para vencer os próprios limites físicos e mentais e testar sempre até onde vai a coragem.

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E o que descobrimos que seja em cima de um shape, sobre rodinhas, por cima de muros ou telhados ou bem próximo das nuvens, os esportes radicais urbanos garantem emoção, empolgação, adrenalina em qualquer canto e em qualquer ambiente, em qualquer tempo. Boa aventura e leitura!

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EMOÇÃO E ADRENALINA

SOBRE PRANCHAS E RODINHAS

Existem várias vertentes e formas diferentes de andar de patins. Desde a patinação no gelo, passando pela artística até chegar ao street, também conhecido como patins in-line, já que as rodas dos patins formam uma linha reta, diferente da forma com duas rodas atrás e duas na frente dos patins tradicionais. Mesmo sem a popularidade e a visibilidade do skate, os patins street garantem muita adrenalina e emoção aos praticantes.

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O equipamento tem cano alto e duas rodas maiores nas extremidades. Na parte central, as rodas são menores e a superfície é de plástico para permitir que os atletas deslizem nos obstáculos como rampas e bancos. Um par de patins específico custa cerca de R$ 1,2 mil.

Os amigos Leandro e Fernando praticam juntos há um ano e conversaram com a reportagem da FOLHA enquanto deslizavam pelas pistas do CSA (Centro Social Urbano), da Vila Portuguesa, região central. Leandro anda de patins street há mais de 20 anos e depois de um período afastado das pistas, voltou em 2018. “O que mais me atrai é a oportunidade de sair da rotina, de aliviar o estresse e cuidar do corpo e da mente”, afirma. “Talvez o melhor de tudo é o desafio de sempre buscar uma manobra nova, de errar, cair e insistir até conseguir acertá-la”.

Fernando conta que sempre teve vontade de praticar a modalidade, mas faltava um empurrãozinho para começar. Quando o amigo voltou a andar, ele aproveitou o embalo e comprou seus patins. Os patins dão uma sensação de liberdade junto com a adrenalina. É uma forma de vencer o medo em cada manobra”, aponta.

Até pela dinâmica do equipamento, que não tem a mobilidade, por exemplo, dos patins tradicionais de mudar de direção, a prática dos patins street se restringe às pistas, até por uma questão de segurança. Além de poucos espaços públicos exclusivos, os praticantes reclamam da falta de manutenção e da falta de conhecimento na construção das pistas. “Temos cidades vizinhas aqui de Londrina, que são bem menores e possuem pistas bem melhores. A pista aqui do CSU tem um espaço maravilhoso, mas foi malfeita. Eles deveriam chamar pessoas que entendem para termos um espaço bom e que todos poderiam andar seja de patins, skate e bicicleta”, ressalta Leandro. “O piso da pista aqui não é bom. Além de machucar muito, detona o equipamento. Nós não temos em Londrina nenhuma pista iluminada para se fazer a atividade durante a noite”, reclama Fernando.

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Os principais locais onde skatistas e patinadores se reúnem, atualmente em Londrina, se resumem as pistas do CSU, Zerão, Autódromo e próximo a UTFPR (Universidade Tecnológica Federal do Paraná), na zona leste.

TESTE DE PERSISTÊNCIA

Morador do Centro, o estudante Bruno Amano, 20 anos, utiliza sempre o espaço no Zerão para as suas manobras radicais de skate. Natural de São José dos Campos (SP), Amano veio para Londrina para cursar Engenharia de Produção e conta que desde os dez anos anda de skate.

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“Venho sempre aqui no Zerão porque é mais próximo da minha casa. Todos nós precisamos praticar esporte pensando na saúde. O skate é um teste de persistência porque você insiste várias vezes até conseguir fazer uma manobra”, ressalta.

O estudante Mateus Lopes, 19, pratica manobras a pouco mais de cinco anos e meio e seu primeiro shape foi herdado da irmã. “Ela comprou o skate e não andava. Então eu peguei.” Mateus sempre que pode vai às pistas do Zerão para andar.

Mateus Lopes
Mateus Lopes

Morador da região ele vê que não há muitos lugares para se praticar skate em Londrina mas conta que o skatista vê a cidade de outra forma e que qualquer lugar pode se tornar um “pico” para as manobras. Dentre as vantagens do esporte elenca a que foi mais importante para ele “fiz muitos amigos.”

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Tradicional ponto de encontro de skatistas, principalmente nos anos 80 e 90, o half-pipe (pista em formato de U) do Vale do Rubi, na região oeste da cidade, passou uma grande revitalização pelos próprios praticantes. Inconformados com o estado de abandono do local, que estava todo pichado e sem condições de uso, o grupo começou a se mobilizar pelas redes sociais. Com material arrecado com dinheiro próprio, fizeram a roçagem do terreno, limpeza do espaço e reformaram a pista.

half-pipe no Vale do Rubi - Londrina/PR
half-pipe no Vale do Rubi - Londrina/PR

Com nova pintura, em 2019, o local que já foi palco de grandes manobras de atletas de todo Norte do Paraná, exibe placas coloridas que informam: “43 árvores foram plantadas pelos skatistas” e exibe outra face do esporte: a solidariedade e companheirismo.

LONGA E VELOZ

Em busca de mais velocidade em detrimento de tantas manobras, o longboard surgiu na década de 1960, na Califórnia, nos Estados Unidos, como uma variação do skate tradicional.

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Com uma prancha ou uma tábua mais longa, a modalidade vem ganhando adeptos justamente pelas altas velocidades alcançadas pelos praticantes, o que torna o esporte altamente emocionante e perigoso. “Já cheguei a atingir 95 km/h. Dá aquela sensação que vai explodir tudo”, relata João Fábio da Silva, 39 anos, vice-presidente da Associação Londrinense de Skate de Velocidade, como é conhecido também o longboard.

A associação tem cerca de 15 praticantes assíduos, que se reúnem duas ou três vezes por semana para encarar grandes descidas da região. Os lugares preferidos são no Jardim Silvino, em Cambé, na entrada de Rolândia e no Jardim Botânico de Londrina. “Escolhemos trechos longos, a partir de um quilômetro em descidas inclinadas e com muitas curvas”, revela o engenheiro de processos Luis Guilherme Scalone, 30, que anda de longboard há seis anos.

Entrevista LongBoard

Por ser um esporte de risco, o uso de equipamentos de segurança é uma questão vital. É necessário a utilização de capacete fechado e feito exclusivo para a modalidade, luvas, que possuem uma proteção especial na palma da mão, além de macacão de couro, para amenizar os machucados e os ralados nos inevitáveis tombos. “Normalmente o primeiro tombo é o que separa quem quer realmente andar e aqueles que param. Eu tenho várias cicatrizes no cotovelo, queixo, mas sempre volto a andar”, lembra Scalone, que na juventude andava de skate. “A adrenalina de andar sempre em alta velocidade compensa qualquer queda”.

O shape do longboard é mais comprido que do skate tradicional, o que garante mais estabilidade. As rodas são maiores e mais macias, para permitir uma velocidade maior. Diferente do skate, onde o diferencial são os estilos e as dificuldades das manobras, no longboard o que vale mesmo é quem anda mais rápido.

“Procuramos sempre andar em locais mais afastados e onde não exista tráfego de carros. Muitas vezes nós mesmos bloqueamos algumas ruas para andar. Temos vários casos de acidentes graves e até mortes quando há o contato com trânsito aberto. Sabemos dos perigos que existem para andar de longboard e, por isso, temos que minimizar os riscos”, ressalta João Fábio.

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SEM OBSTÁCULOS

O parkour foi desenvolvido inicialmente na França nos anos de 1980 e tem como objetivo permitir às pessoas ultrapassar de forma rápida, eficiente e segura quaisquer obstáculos utilizando somente as habilidades e capacidades do corpo humano. O termo é uma adaptação da palavra original parcours - “percurso” em francês.

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A atividade física se espalhou por diversas cidades mundo afora e, em Londrina, não é raro encontrar pessoas ou grupos subindo escadas, escalando árvores e pulando obstáculos, principalmente em parques e espaços como o Zerão.

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“O parkour sempre foi erroneamente conhecido como o esporte de pular muros. O parkour trabalha com o movimento humano e suas habilidades naturais. Tem como objetivo desenvolver a força e o equilíbrio para uma melhor qualidade de vida e saúde”, explica o professor de educação física Luiz Oliva, 42 anos. Oliva coordena um grupo que se reúne todos os finais de semana no Zerão para a prática da atividade. A FOLHA acompanhou uma sessão do treinamento e encontrou em ação homens, mulheres, jovens e crianças nas manobras, técnicas da ginástica olímpica e das artes marciais.

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Porém, a atividade só é considerada um esporte na Inglaterra. No restante do mundo é identificado como um método de treinamento e, por isso, não existe pontuação e competição entre os praticantes. “O que me atrai no parkour é a adrenalina, a atividade radical e o ambiente muito bom do grupo. É uma atividade para todas as idades e que pode ser praticada por pais e filhos”, afirma Lucas Yamaguchi, instrutor e praticante há 13 anos da atividade. Não é difícil encontrar na internet vídeos radicais de adeptos do parkour mostrando performances arriscadas em arranha-céus, pontes e estádios de futebol. É pela internet também que a maioria conhece a atividade física e desenvolve a curiosidade pelo treinamento.

“Apesar de muitas pessoas terem uma visão diferente, o parkour é uma atividade segura. Porque você desenvolve técnicas de movimento, medimos com todo o cuidado a superfície onde vamos praticar e isso te dá segurança”, garante o estudante de física Douglas Sanini, 20 anos. “O que mais me atrai é a sensação de liberdade. O parkour me ajudou a ser mais organizado no meu dia a dia e a conhecer os meus limites”.

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Ultrapassar obstáculos que o dia a dia nas cidades nos impõem. Fazer isso utilizando apenas as habilidades e capacidades corporais e ao mesmo tempo desenvolver fisicamente o corpo, além de equilibrar e harmonizar a mente. Tudo isso pode ser alcançado através da prática do parkour

No grupo londrinense, as atividades são distribuídas respeitando o limite de idade e o desenvolvimento físico de cada praticante. O engenheiro agrônomo Ricardo Franconere há um ano leva os três filhos de 13, nove e sete anos para os treinos no Zerão. “Eles fazem muita atividade esportiva ao longo da semana, mas o que eles esperam com mais expectativa é o parkour no sábado e no domingo. Vejo que as atividades são seguras para as crianças também porque eles fazem movimentos menores e mais leves”, revela Franconere. Os filhos conheceram o parkour através de um amigo da escola e garantem que se divertem muito. “Pular e as atividades em que a gente tem que subir são as minhas preferidas. Se levo algum tombo, não ligo. Já levanto e não desanimo” garante Bernardo. “Descer os barrancos é o que eu mais gosto”, afirma o caçula da família, Eduardo.

O parkour valoriza os movimentos naturais do ser humano, o que permite a prática para todas as faixas etárias. “Acredito que eles gostam tanto porque é feito ao ar livre, os movimentos são aqueles que as crianças gostam mesmo de fazer, correr, pular, agachar. E não é uma atividade monótona, porque cada dia é um desafio diferente”, aponta Ricardo Franconere.

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Heloisa Kawano acompanhava pela primeira vez o filho João, oito anos, ao Zerão, e afirmou que está ensaiando para entrar no grupo e dividir as atividades com o filho. “Ele gosta muito de vir e participar. Sei que existem vários pais que fazem junto com os filhos. Já pensei em fazer também, mas ainda não deu certo para eu começar”.

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De acordo com Luiz Oliva, o grupo recebeu do município um local no Zerão para construir um espaço próprio para a prática das atividades. “A ideia é construir uma espécie de circuito para que possamos melhorar os nossos treinamentos”, ressaltou.

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DESAFIANDO A GRAVIDADE

Há mais de duas décadas, valentes escaladores exploram a região de Londrina com o objetivo de, em frente a um paredão na rocha ou na cidade, conquistar “as vias” e desafiar seus próprios limites físicos e mentais. A via é um pedaço da rocha que alguém conquistou, outros souberam e quem tem coragem quer repetir aquela façanha. Esse é o prazer do esporte: seguir a via do começo ao fim, dominá-la, superá-la e equipá-la.

“A gente precisa de bons equipamentos. Furadeira, parabolt, chapeletas, cordas, mosquetão, sapatilha, cadeirinha... então o pessoal se reuniu e falou: ‘vamos montar o clube’ para conseguir esses materiais e fomentar o esporte” e há 13 anos eles se organizaram no CMNP (Clube de Montanha Norte Paranaense), como explica o dentista e expert em escalada Adolfo Henrique Mansano, presidente do clube.

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Em 2019, Mansano completa 42 anos e entende que a escalada entrou na sua vida de forma natural. Filho de pais aventureiros, “desde piazinho” viajava de Santana Quantum - veículo projetado em 1980, com um porta-malas “tamanho família” - para acampar, estar na natureza. Teve o estímulo dos pais, também, para a prática de outras modalidades esportivas como judô, natação, futebol, a que credita a facilidade com que sobe o paredão.

“São dez anos que pratico ininterruptamente. Mesmo na cidade quando chega o final de semana a gente reúne o grupo e dá uma escapadinha, vai para a rocha e durante a semana na cidade a gente treina aqui no paredão. Se não dermos uma escaladinha a gente fica doente.” Satisfeito, Mansano vê no Cetec (Centro de Treinamento de escalada de Cambé) um espaço fundamental para que o grupo possa ter acesso à prática durante a semana. “Sempre tem um pessoal aqui, de segunda a sexta-feira, quem gosta e quer vir manda uma mensagem para a ‘galera’. Estamos sempre abertos para receber”.

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Com oito metros de altura e quase 150 metros quadrados de área de escalada, o próprio Cetec guarda uma história que remonta há mais de 20 anos, segundo o veterano no esporte Claudinei Gloor. “As arquibancadas aqui do estádio José Garbelini sempre promoveram desafios e logo os escaladores de Cambé e outros da região vieram e fizeram os primeiros testes. Foi um campo-escola”. Há cerca de dez anos decidiram por ocupar definitivamente o espaço. Buscaram autorizações e apoio do poder público e conseguiram melhorar a estrutura e adaptar para o estilo de treinamento urbano.

Atualmente o grupo se encarrega da manutenção das agarras, limpeza e conservação do espaço. “Em um primeiro momento, usamos recursos dos escaladores de Cambé, que deram o pontapé inicial; mas depois de algum tempo, todo mundo que vem que usa o espaço, se propõe a colaborar também. E essa ajuda tem feito ele (o Cetec) evoluir sempre mais.”

Gloor escala há 27 anos e sua meta é seguir enfrentando o paredão até quando completar 60 anos de idade. “A escalada evoluiu muito aqui na região e eu sou um privilegiado de ter participado disso tudo ao longo do tempo.”

MÃE ESCALADORA

Tanto Gloor quanto Mansano têm algo a mais em comum, além da paixão pelo esporte: conheceram suas esposas na prática. Michella Cardoso Gloor hoje é analista de sistemas, mas quando se interessou pela escalada trabalhava em uma empresa de telefonia. “Certa vez eu estava vendo um pessoal colocar luzes de Natal no prédio onde eu trabalhava e eu fui falar com eles. Eu perguntei: ‘Como vocês fazem isso nessas alturas?’ Eles me explicaram que escalavam com o Claudinei e me deram o telefone dele. Fiz o curso com ele, na época era na Pedreira do Cafezal. Mais de um ano depois, então, começamos a nos envolver, casamos e hoje temos nosso filho pequeno”.

Há três anos Gabriel, hoje com sete, acompanha Michella em suas aventuras. “O maior desafio que a gente tem, como mulher, é como conciliar um esporte desse com a maternidade. Então temos que superar alguns medos, alguns limites, mas eu vi que é possível.”

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Com duas meninas pequenas, Fernanda Liz Mansano é mãe-escaladora há quatro anos. Ela resolveu parar com a atividade somente durante a gestação para proteger a barriga, mas quando a filha mais velha fez três meses, voltou a acampar. “A logística para nós mudou muito. Além do equipamento de escalada, que é muito pesado, o de camping, de cozinha, tínhamos que levar brinquedos e trocador de fraldas. Mas eu vi minha filha se desenvolver diferente de outras crianças. Ela aprendeu a andar na trilha.”

Adepta da modalidade há pelo menos 15 anos, rebate a ideia de que escalada é mais difícil para as mulheres: “Se uma via exige mais força e eu me colocar no mesmo lugar de um homem, com jeitinho eu consigo. É uma visão diferente, eu tenho que me adaptar e superar o desafio”.

MEDO DE ALTURA

O sentimento de superação tanto física como pessoal faz parte dos benefícios elencados pelo professor de sociologia Daniel Guerrini, 34, como pontos altos do esporte. Guerrini se juntou ao grupo CMNP há pouco mais de dois anos e deixou no passado o medo de altura. “Foi incrível porque eu me vi fazendo coisas que nunca imaginei, estando em situações que antes só de pensar já me dava tremedeira. Aprendi a cair.” E a altitude da parede e a distância do chão não lhe assustam mais. Mantém o foco, regula a respiração e segue em frente sempre para cima sem pensar que vai cair.

Guerrini foi lutador de kung fu por anos e não sabia as diferenças que existem entre escalada, alpinismo e montanhismo. O que conhecia sobre o assunto era o que assistia nos programas de televisão como no Canal Off. Foi em uma conversa despretensiosa que conheceu o amigo natural de Rolândia Marco Cossari - hoje radicado na Serra do Cipó, em Minas Gerais - que lhe ensinou os primeiros passos. O escalador “monstro” explicou sobre as diferentes modalidades a Guerrini que agora, no falar apaixonado, já se assemelha a um expert pontuando as vias que mais lhe atraem, as diferenças de trajetos e seus desafios: “É um aprendizado enorme! E me fez retomar o hábito de viajar, de conhecer outros lugares e estreitou meu contato com a natureza também”.

A PRIMEIRA SUBIDA

“Não deixe as oportunidades passarem, Patrícia. Às vezes elas só acontecem uma vez”, me exortou Fernanda Mansano ao ouvir minha tímida negativa para subir o paredão. Minha espinha gelou, senti o peito apertado. Se o jovem professor Guerrini havia há pouco me contado que superou o medo de altura, o pavor que eu sentia estava intacto e aquecendo minha nuca. Invoquei um mantra “Eu sou corajosa, ou sou maluca?” Com a ajuda de Adolfo vesti o equipamento. “Pode ficar tranquila que estou te cuidando”, prometeu ele, que há alguns anos ajuda novatos como eu a iniciar na escalada.

Patrícia Maria Alves
Patrícia Maria Alves

De frente para o paredão eu ainda repetia aquele mantra, mas com um pouco mais de convicção que eu estava maluca. “Vai, Patrícia, foca na subida e não na altura” ouvi como incentivo.

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Assim eu toquei a primeira agarra com um pouco de magnésio nas mãos. Segunda agarra e ainda parecia fácil, eu ganhava confiança. Na terceira agarra eu já imaginava que estava no alto, mas o colchão de suporte ainda parecia perto. Subi mais duas agarras e a gravidade começou a pesar sobre meu corpo. Foi só uma espiadela para baixo e o pavor tomou conta de mim. Pedi para descer, não conseguia me focar. Minha cabeça boicotou meu progresso. Para mim foi uma subida de quilômetros. Na realidade foram apenas alguns metros; más línguas vão dizer que foram centímetros, desconfie!

Mas, sim, eu senti a adrenalina, a força, a vontade de seguir adiante. Se eu estivesse um tanto mais corajosa, eu seguiria até o fim.

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PUBLICADO EM
21 de setembro de 2019

TEXTOS
Lucio Flávio Cruz, Patrícia Maria Alves

EDIÇÃO SITE
Erick Rodrigues

FOTOS & VÍDEOS
Gina Mardones, Gustavo Carneiro, Isaac Fontana, Lucio Flávio Cruz, Patrícia Maria Alves

EDIÇÃO
Patrícia Maria Alves, Thiago Mossini

DIAGRAMAÇÃO/IMPRESSO
Anderson Mazzeo

DESIGN/WEB
Patrícia Maria Alves

SUPERVISÃO DE PROJETO
Adriana De Cunto (Chefe de Redação)