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O Brasil é Soja

PUBLICAÇÃO
sábado, 16 de junho de 2018

Patricia Maria Alves - Grupo Folha
AUTOR autor do artigo

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O Brasil é Soja

Por Gustavo Carneiro e Nelson Bortolin

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Falta pouco, muito pouco. Quando colher a última saca da próxima safra (2018/19), prevista em 117 milhões de toneladas, o Brasil terá atingido o posto de maior produtor mundial de soja, deixando para trás os Estados Unidos, que deverão colher 116,48 milhões de toneladas. A projeção é do próprio USDA (Departamento da Agricultura dos EUA). A diferença será pequena, mas vai aumentar nos próximos anos. E o Brasil, que já é o maior exportador da oleaginosa, vai se consolidar também na pole position da produção.

Hoje, a área plantada brasileira - em todas as culturas - é de quase 64 milhões de hectares, segundo a Nasa (agência espacial norte-americana). E é possível praticamente dobrá-la. Já os Estados Unidos não têm mais fronteiras agrícolas a romper.

A soja ocupa 53% da área plantada no Brasil e 51% da área plantada no Estado.

Nesta reportagem especial, o leitor vai saber por que a soja é tão importante para o País e o Paraná - segundo maior produtor nacional.

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Grão que vira carne

O USDA estima que o mundo produza 337 milhões de toneladas de soja na safra 2017/2018 - um terço no Brasil. Se fosse movimentar toda essa produção via marítima, seriam necessários 8.425 navios de 40 mil toneladas cada. Sobre trilhos, a safra mundial lotaria 3,3 milhões de vagões ou 9,1 milhões de carretas tipo bitrem, caso o transporte fosse via rodoviária.

Mas, para que serve tanta soja se apenas 6% da produção, de acordo com o USDA, é destinada a alimentar diretamente as pessoas? Na verdade, o homem planta soja para comer carne.

A maior parte da safra mundial é usada como proteína na ração de bois, frangos e porcos.

O farelo de soja e o milho (carboidrato) são a base das rações animais, o que explica uma produção ainda mais gigante deste outro grão: são 1 bilhão de toneladas de milho por ano no mundo.

Quem vai comer?

A quantidade de soja que o mundo produz já é gigante. Mas vai ser necessário muito mais. A cada ano, o número de habitantes do planeta aumenta em 80 milhões. Hoje, são 7,6 bilhões de pessoas. Em 2050, estima-se 9,8 bilhões. Ao contrário do Brasil, que tem baixa taxa de fecundidade, países em desenvolvimento como Índia e outros países da Ásia e África mantêm grande crescimento populacional. Conforme a economia cresce nesses locais, mais gente passa a comer carne. E mais soja é necessário para alimentar os animais.

Nos países ricos, a população não aumenta, mas as pessoas passam a viver cada vez mais. “A soja nunca deixará de ser importante porque a demanda por carne vai continuar aumentando”, diz o pesquisador da Embraba Soja Amélio Dall’Agnol.

A importância do óleo

Quando o grão de soja é transformado em farelo, inevitavelmente separa-se o óleo. A soja tem 18% de gordura, o que não é muito. O amendoim, por exemplo, tem 50%. Mas, diante de uma safra mundial tão grande, o óleo de soja é o segundo mais consumido, depois do de dendê.

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Antes de Cristo, na China

Segundo a Embrapa, as primeiras citações da soja aparecem no período entre os anos de 2883 e 2838 antes de Cristo, quando ela era considerada um grão sagrado, ao lado do arroz, do trigo, da cevada e do milheto. Um dos primeiros registros da soja está no livro “Pen Ts’ao Kong Mu”, que descrevia as plantas da China ao Imperador Sheng-Nung. Para alguns autores, as referências à soja são ainda mais antigas, remetendo ao “Livro de Odes”, publicado em chinês arcaico.

No início, era pasto

A soja chegou ao Brasil, vinda dos Estados Unidos, em 1882. Chegou na Bahia, mas não se adaptou à baixa latitude das zonas tropicais e foi deixada de lado. Já no Rio Grande do Sul, a planta se deu bem. A partir de 1900 era usada como forrageira.

A virada do agronegócio

Até os anos 1960, a soja pouco se expandiu. No início da década, a produção nacional era de apenas 200 mil toneladas. “Houve um salto e chegamos a 1969 com uma safra de um milhão de toneladas. Ao final da década de 70, eram 15 milhões de toneladas. Foi a virada do agronegócio brasileiro”, afirma Amélio Dall’Agnol.

O Brasil vai permanecer como maior produtor mundial porque tem muitas áreas aptas e disponíveis para produzir. De acordo com o pesquisador, além dos 64 milhões de hectares de área plantada atualmente (em todas as culturas), há pelo menos mais 50 milhões de hectares agricultáveis. “Isso sem invadir áreas preservadas, sem tirar terra de índios e quilombolas”, garante. A maior parte fica no Cerrado, principalmente em áreas de pastagens pouco produtivas ou degradadas.

Graças às pesquisas desenvolvidas pela Embrapa, diferentemente do passado, hoje há cultivares adaptáveis a todo tipo de clima. “Podemos produzir em qualquer lugar com a mesmíssima eficiência.” Fertilização, conservação do solo, plantio direto, novas cultivares. Muitos são os fatores que permitiram ao Brasil melhorar a produtividade da soja. “Eram 1.100 quilos por hectare na década de 70 e hoje são 3.300”, conta.

A Embrapa

Não dá para falar do grão, sem falar da Embrapa Soja, que foi instalada em Londrina, em 1975, junto à Claspar (Empresa Paranaense de Classificação de Produtos), órgão do governo do Estado, e mudou-se para a sede do Iapar (Instituto Agronômico do Paraná) no mesmo ano. Só em 1989, ganhou sede própria, a fazenda experimental de 350 hectares onde funciona até hoje no distrito da Warta.

Até a década de 1970, a sojicultura comercial estava restrita às regiões de climas temperados e sub-tropicais, com latitudes próximas ou superiores aos 25 graus. Os pesquisadores da Embrapa Soja romperam essa barreira, desenvolvendo variedades adaptadas às condições tropicais com baixas latitudes, permitindo o cultivo da oleaginosa em todo o território brasileiro.

Garantindo o superavit

Desde o ano de 2001, e com exceção de 2014, o Brasil apresenta superavit em sua balança comercial. Ou seja: exporta mais que importa. Não fosse o agronegócio, puxado pela soja, essa sequência prolongada não teria sido possível. A soja é o primeiro item da pauta de exportação do País. No ano passado, foram vendidos ao exterior 25,7 bilhões de dólares do grão. Em segundo lugar, os minérios foram responsáveis pela entrada de 19,1 bilhões de dólares. “O agronegócio banca o deficit de outros setores da economia”, diz Dall’Agnol

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Motor do Paraná

A soja começou a se disseminar pelo Paraná somente nos anos 1960. No Norte do Estado, ganhou mais espaço com a geada que arrasou a cultura cafeeira em 1975. Enquanto a produção de café caiu de 613 mil toneladas para apenas 231 de um ano para outro, a da soja subiu de 2,5 milhões para 3,6 milhões de toneladas. O café nunca mais teve força e a oleaginosa só cresceu. Hoje, com mais de 19 milhões de toneladas, o Paraná é o segundo produtor do Brasil, perdendo para Mato Grosso, que colhe mais de 31,8 milhões de toneladas.

O economista e professor universitário Eugênio Stefanelo, que já comandou a Conab (Companhia Nacional de Abastecimento) no Paraná, afirma que os pés de café exterminados pela geada foram sendo substituídos pela soja, milho, trigo, arroz, amendoim... E a soja se expandiu mais rápido.

“Chamou a atenção dos produtores que a soja tinha muita liquidez, podia ser vendida no mercado interno e no externo”. Ele lembra que, na época, ainda não havia sementes brasileiras. “Eram importadas e a produtividade era um terço da atual.” Para o economista, é difícil imaginar a economia paranaense sem a soja. “É o primeiro produto em valor agregado do Estado, o que gera mais receita para os produtores. É o principal item da pauta de exportação.”

Apesar de sua grandeza, a soja ainda é vista de forma preconceituosa por uma parcela da sociedade, segundo Stefanelo. “Tem gente que critica o fato de usarmos metade de nossa área plantada com um produto que não vamos comer. E não sabe que, ao comer um ovo, tomar leite, comer um bife, está comendo soja indiretamente”, afirma ele referindo-se ao fato de a oleaginosa estar presente na ração animal. “Hoje, a soja é um dos nossos principais alimentos.”

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O problema é a logística

O Brasil tem tecnologia, produtividade e muita área para plantar soja. Tanto que será em breve o maior produtor. Mas poderia ir bem além. Por problemas de infraestrutura logística, exportar soja aqui é bem mais caro que nos principais países concorrentes: Estados Unidos e Argentina.

Enquanto no Brasil 60% dos grãos chegam aos portos por caminhões, o modal mais caro, nos EUA somente 15% da produção é escoada pelas rodovias.

O custo para transportar uma tonelada de soja da região de Sorriso (MT) até a China é estimado em US$ 131,91, sendo US$ 92,83 na parte rodoviária e US$ 40,08, na marítima. Da região de Iowa, nos Estados Unidos, a China, são US$ 60,46 por tonelada - US$ 22,47 na hidrovia e US$ 37,99 no mar. Ou seja, o produtor brasileiro gasta mais que o dobro do americano para exportar o grão numa distância equivalente.

A Argentina, assim como o Brasil, transporta soja majoritariamente por caminhões, mas lá as distâncias até o porto são bem menores. Da região de Córdoba até Rosário, por exemplo, o frete rodoviário sai a US$ 16 a tonelada. De Rosário a China, de navio, são mais US$ 38,77, totalizando US$ 54,77. Por essa conta, o custo logístico argentino é 59% menor que o brasileiro.

Mais trem e menos caminhão

Segundo o diretor-executivo do Movimento Pró-Logística, Edeon Vaz Ferreira, a logística tem melhorado “um pouco” nos últimos anos no Brasil, mas está longe do ideal. Para Ferreira, o País deveria limitar a 40% o transporte rodoviário da soja.

Desde 2015, segundo ele, devido à implementação de portos fluviais, foi possível aumentar em 196% o volume de soja exportado pelo Norte e Nordeste. “O Brasil evoluiu na logística da soja nos últimos anos. Mais ainda é pouco.”

Peso do pedágio no Paraná

No Paraná, onde a maior parte da soja é transportada diretamente até Paranaguá por caminhões, a logística poderá ficar mais barata quando e se for implantado o trecho da ferrovia Norte-Sul, ligando o Mato Grosso do Sul ao porto, previsto para cortar o Estado. “A dependência que temos do transporte rodoviário causa seríssimos problemas ao Brasil”, diz o diretor do Movimento Pró-Logística.

E o pedágio encarece demais o transporte. Só para se ter uma ideia, uma carreta tipo bitrem – a mais usada no transporte de grãos – gasta R$ 417,20 no trajeto Londrina-Paranaguá, só de ida. Para os produtores da região de Foz do Iguaçu, a despesa é bem maior: R$ 821,80. Um bitrem leva 37 toneladas de grão.

Nílson Hanke Camargo, engenheiro agrônomo da Faep (Federação da Agricultura do Paraná), concorda que a logística da soja seria bem mais eficiente com uma malha ferroviária mais desenvolvido no Estado. Mas ele, que vem acompanhando há anos as discussões sobre a infraestrutura no Estado, não acredita que novas ferrovias sejam construídas em curto ou médio prazos. “São investimentos muito caros que não se viabilizam economicamente só no transporte de soja e milho.”

Para Camargo, se o Paraná puder contar com taxas de pedágio mais baixas já será um avanço importante. “Já no ano que vem, vamos nos reunir com os governantes eleitos em outubro para começar a discutir um novo projeto para o pedágio do Paraná a partir de 2022”, afirma. Os atuais contratos vencem em 2021.

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Cuidados com a lavoura

Cultivar soja não é simples como pode parecer. O pesquisador da Embrapa Soja, Osmar Conte, explica: “Primeiro, se faz a correção do solo, com o uso de fertilizantes. Depois, é preciso fazer a dessecação, processo químico que mata as plantas sobre o solo.” Só aí, já foram de 7 a 30 dias. É preciso também fazer o tratamento da semente, processo que pode ser industrial ou na própria fazenda. Depois de plantada, a soja germina em até sete dias. “A primeiro preocupação depois que o verde começa a surgir no solo é com as ervas daninhas”, diz o pesquisador.

De 15 a 20 dias após a germinação, faz-se pulverização com herbicidas. Ao longo do desenvolvimento da soja (da germinação ao final do ciclo), faz-se o monitoramento e o controle das pragas, quando necessário. Embora a Embrapa Soja oriente para o uso dessas substância só quando necessárias, os produtores costumam fazer aplicações preventivas.Em relação às doenças que afetam a planta, a maior preocupação é com a ferrugem asiática. “Ela exige cuidado redobrado, porque a disseminação da doença é rápida e abrangente..”

A colheita da soja se dá num prazo que vai de 100 a 140 dias, dependendo da região do País. No Norte do Paraná, são 120, em média, sendo que o plantio ocorre a partir de outubro.

Vivendo da soja

Ricardo Kenji Amano, cooperado da Integrada, conhece bem as alegrias e dificuldades da cultura de soja. Sua família é uma das que trocaram o café pela oleaginosa após a geada de 1975. “Acabou o cafezal, começaram a plantar um pedacinho de soja. Esse pedaço foi aumentando e hoje temos toda a área com soja”, conta. São 170 hectares em Cambé. Devido à tecnologia, é mais fácil cultivar soja atualmente que há 20 anos, diz ele. Mas, garantir boa produtividade dá trabalho. “Temos de controlar a erva daninha, a lagarta, a ferrugem.”

O trabalho começa com a análise do solo. A propriedade é dividida em talhões. E cada um deles recebe tratamento diferente, dependendo da fertilidade do solo. “Tem local que a gente precisa colocar um absurdo de fertilizante. Em outro não joga nada.” A análise em laboratório permite, por exemplo, descobrir a acidez do solo provocada pelo alumínio. Neste caso, coloca-se calcário para corrigir o problema. Mesmo com todo cuidado, o produtor diz que é preciso pulverizar a lavoura com herbicidas, inseticidas e fungicidas. Na propriedade dele, uma safra boa exige no mínimo três aplicações. Mas, dependendo do clima, podem ser necessárias até oito pulverizações. Com uma produtividade de 3.600 quilos por hectare, ele se diz satisfeito. Além disso, o preço está bom, cerca de R$ 80 a saca.

Aposta na tecnologia

O casal Cidinha e José Luiz Jardim, de Arapongas, dedicava-se exclusivamente à pecuária. Há oito anos, passou a cultivar soja, em sua propriedade de mil hectares em Leópolis. E não se arrepende. “O preço do boi caiu e a agricultura ficou mais interessante nos últimos anos”, diz ele.

A família não poupa investimentos em tecnologia e inovação. E trouxe para o Paraná um novo conceito, que vai além da agricultura de precisão: a Fazenda Digital, ou Fazenda Inteligente. O sistema garante, por exemplo, a colocação precisa da semente no solo.

Por meio de GPS, é feito o mapeamento da propriedade. Com um pen drive, a plantadeira é alimentada das informações. “A máquina sabe a dosagem certa de semente que tem de semear em cada área, se tem de plantar mais fundo ou menos fundo. E não coloca semente num mesmo lugar, evitando a sobreposição”, explica Cidinha.

“Em sintonia fina, o sistema examina cada fatia de solo para descobrir suas reais necessidades”, conta o agricultor. Com base nas informações digitalizadas, também é possível, por exemplo, colocar mais ou menos nutrientes em cada parte da propriedade.

Com investimentos em tecnologia, o aumento da produtividade é certo. No caso da fazenda do casal, a Santa Alice, são 4 mil quilos por hectare.

Com cerca de 50 colaboradores, boa parte morando na fazenda, o agricultor ressalta a importância social da sojicultura. “São 50 famílias que dependem da lavoura”, ressalta. Ele também afirma sentir-se gratificado em produzir alimentos. “O mundo terá 9,8 bilhões de habitantes até 2050. Quando passo nos corredores (da plantação), tenho um sentimento gratificante de saber que estou colaborando para alimentar tanta gente.”

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A polêmica da transgenia

A chegada das primeiras sementes transgênicas há cerca de 30 anos é um capítulo à parte na história da sojicultura brasileira. Embora a transgenia não fosse exatamente uma novidade, pois já era usada na medicina, na insulina e na vacina contra hepatite B, o uso da técnica no setor de alimentos causou polêmica. Uma polêmica não só desnecessária, na visão do pesquisador da Embrapa Soja, Alexandre Nepomuceno, como prejudicial à pesquisa. Em 1998, a Monsanto, que detinha a patente da semente transgênica, pediu autorização para plantá-la no País à Comissão Técnica de Biossegurança Brasileira, a CTNBio.

O Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente), a entidade ambientalista Green Peace, e o Idec (Instituto de Defesa do Consumidor) se posicionaram contra. Na época, teve início uma guerra jurídica, com decisões a favor e contra a Monsanto. E o então governador do Paraná, Roberto Requião, tentou transformar o Estado em área livre de transgênicos. A disputa só foi pacificada em 2004, com decisão judicial a favor da autorização da CNTBio, em 1998, para a semeadura.

Em seguida, em 2005, a nova lei de biossegurança foi implementada no Brasil, regularizando a situação sobre a avaliação de biossegurança no Brasil. Para o pesquisador, houve um exagero de preocupação em cima de uma tecnologia que já se usava há muito tempo, desde a década de 70 na medicina e na indústria. Por causa disso, o País ficou de 1998 a 2005 praticamente sem pesquisas nesta área, prejuízo que tem reflexos até hoje. Fundida com a Bayer em 2016, a marca Monsanto deixou de existir no início deste mês. Embora a empresa não tenha apresentado justificativa, o mercado entendeu que a decisão está ligada à polêmica dos transgênicos e os prejuízos de imagem que ela causou.

Bactéria resistente

O pesquisador explica que a Monsanto retirou um gene de uma bactéria resistente ao glifosato e o incluiu na semente da soja. Com isso, os produtores puderam pulverizar toda a plantação com o herbicida, sem prejuízo para a soja. “A tecnologia desenvolvida pela Monsanto facilitou tremendamente o manejo”, considera Nepomuceno. E foi uma verdadeira revolução na sojicultura em todo o mundo.

A Monsanto era uma das produtoras de glifosato, o Roundup. E esse era um dos argumentos usados por quem era contra a semente, acusando a multinacional de querer apenas vender seu produto.

Na Argentina, lembra o pesquisador, a semente sofreu pouca resistência na sua implementação. Como o país não assinava o tratado internacional de patentes, passou a usar a transgênica em 1997 sem pagar royalties. E “da noite para o dia” a Argentina passou a ter quase 100% da área com este tipo de soja.

A nova revolução

Depois de três décadas da primeira semente transgênica, a sojicultura está prestes a viver uma nova revolução: a edição genética, que já está sendo pesquisada na Embrapa. Para este novo salto tecnológico, Alexandre Nepomuceno não espera tanta polêmica, já que não são misturados genes de duas espécies, mas alterado o gene da própria soja. A técnica de edição genética utilizada é o Crispr (pronuncia-se Crisper), sigla de Clustered Regularly Interspaced Short Palindromic Repeats. Em tradução literal, significa “repetições polindrômicas pequenas agrupadas e espaçadas”.

O nome assusta, mas Nepomuceno diz que não é tão complicado assim: a técnica consiste em “desligar” parte de uma sequência genética que não interessa, ou mesmo ativar outras. “Para a produção da soja, por exemplo, podemos tentar desligar um fator que diminui o aproveitamento da proteína da soja pelos animais. Com o gene desligado, o animal vai absorver melhor a proteína da soja.”

Da mesma forma, pretende-se editar genes para aumentar a tolerância da soja à seca, ao alagamento, aumentar sua resistência à ferrugem, e aumentar a qualidade de óleo e da proteína. “O Crispr tem potencial de corrigir tudo isso. Será uma nova revolução tão impactante quanto a soja transgênica. Mas uma revolução muito mais precisa e de baixo custo que permitirá que instituições públicas e privadas possam desenvolver tecnologias com base biotecnológica para o produtor”, assegura.

GLOSSÁRIO

AGRICULTURA DE PRECISÃO¹ - Conjunto de técnicas de gerenciamento sistêmico e otimizado de um sistema de produção agrícola através do domínio da informação, com a utilização de uma série de tecnologias e tendo como base as informações sobre o posicionamento geográfico. A essência da agricultura de precisão é a contínua obtenção de informações espacialmente detalhadas da cultura, seguida da utilização adequada destas informações para otimizar o manejo, definindo-se como aplicar no local correto, no momento adequado, as quantidades e tipos de insumos necessários à produção agrícola, para áreas cada vez menores e mais homogêneas.

CERRADO¹ - Composto por árvores de porte baixo, caules tortuosos e retorcidos, bem espaçadas e intercaladas com arbustos, mas apresentam também grupamentos mais densos, de caules menos tortuosos, cobre cerca de 20% do território nacional.

FORRAGEIRA¹ - Qualquer espécie de vegetação, natural ou plantada, que cobre uma área e é utilizada para alimentação de animais, seja ela formada por espécies de gramíneas, leguminosas ou plantas produtoras de grãos.

FRONTEIRA AGRÍCOLA¹ - Limite da área de exploração agrícola.

MILHETO¹ - Variedade de milho com grãos muito pequenos.

OLEAGINOSA² - Plantas que contêm alto teor de óleo, tanto a partir de suas sementes (soja, colza/canola, girassol) como a partir de seus frutos (palma, babaçu, coco), podendo ser utilizadas para a produção de óleo vegetal. Outra característica importante de algumas dessas plantas é o fato de que após a extração do óleo, os subprodutos podem ser utilizados para diferentes aplicações.

PLANTIO DIRETO¹ - Tecnologia de plantio que consiste em plantar as espécies sem fazer o revolvimento ou preparo do solo com utilização de máquinas pesadas, efetuando rotação de culturas e mantendo cobertura morta ou palha para proteção do solo contra erosão e perda de nutrientes. Representam uma substancial redução de custos e uma alternativa benéfica em termos de preservação e recuperação de ambientes.

TRANSGENIA³ - É uma evolução do melhoramento genético convencional, que permite transferir características de interesse agronômico entre espécies diferentes, com o objetivo de torná-las resistentes a doenças ou mais nutritivas, entre outras inúmeras aplicações

FONTES ¹ BNDES ² Mapa ³ Embrapa

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O BRASIL É SOJA

DATA DE PUBLICAÇÃO
16 de Junho de 2018

TEXTOS E GLOSSÁRIO
Nelson Bortolin

IMAGENS E DOCUMENTÁRIO
Gustavo Carneiro

PRODUÇÃO/EDIÇÃO MULTIMÍDIA
Patrícia Maria Alves

EDIÇÃO DE TEXTOS
Zilma Santos

EDIÇÃO SITE
Erick Rodrigues

INFOGRAFIA
Folha Arte

APOIO LOGÍSTICO
Sérgio Fávaro, Zenil Costa, Vander de Silvio Martins, Jenes de Almeida

PROJETO GRÁFICO E DESIGN (IMPRESSO)
Anderson Mazzeo e Luciano Rodrigues

(WEB)
Patrícia Maria Alves

SUPERVISÃO DE PROJETO
Adriana De Cunto (Chefe de Redação)

AGRADECIMENTOS

Banda AMINOÁCIDO pela cessão da trilha sonora e a equipe da Fazenda Santa Alice.

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