Folha de Londrina

ESPECIAL TRANSMÍDIA - UTI-4 COVID-19 HU - Um lugar de esperança, vida e morte

UTI-4
COVID-19
HU

Um lugar de esperança, vida e morte
Fotorreportagem de Sergio Ranalli

HU,

Estar em uma UTI (Unidade de Terapia Intensiva) específica para casos de Covid-19 exige um rigoroso protocolo de paramentação e uma grande dose de ética. Era por volta de 10h, de um dia de semana, quando a reportagem da Folha de Londrina entrou em uma delas, a UTI-4-Covid, do HU (Hospital Universitário Regional do Norte do Paraná), que é administrado pela UEL (Universidade Estadual de Londrina). Lugar de luta pela vida e de enfrentamento de última instância ao vírus Sars-CoV-2.

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RITMO,

Incessante, são mais de vinte profissionais de diversas áreas e especialidades, alarmes de monitores multiparamétricos, respiradores e bombas de infusão. Para quem não é da área médica, tudo isso causa medo, em um primeiro momento. Mas logo ouvidos, olhos e mentes se acostumam com o ambiente. Quem tem a UTI-4 do HU como local de trabalho de todos os dias vê com naturalidade a cena de um enfermeiro interagindo com uma paciente pelo lado de fora das paredes envidraçadas do box de isolamento.

A mulher está consciente, usando apenas uma máscara que lhe fornece oxigênio para facilitar a respiração. A ficha de identificação afixada à porta do leito indica surpreendentes 91 anos e Covid-19 confirmada. Ela fora extubada na noite anterior, depois de nove dias respirando artificialmente, graças à ajuda de um aparelho. Com comorbidades associadas, subverteu todas as estatísticas. Apenas 48 horas depois estaria de alta da UTI. Profissionais relataram que, logo quando aquela brava paciente voltou da sedação e começou a falar, tinha dois pedidos a fazer: um café e um cigarrinho para “pitar”.

Quando ficou evidente que todos seríamos atingidos pela avalanche da Covid-19, no início deste ano, hospitais públicos, filantrópicos e privados começaram a se preparar, tanto para a compra de equipamentos e insumos, como para encontrar espaços físicos em condições de se transformarem em UTIs. Por sorte, o HU estava na fase final de construção de uma futura unidade cardiovascular, nova e moderna, que foi transformada na UTI 4 – Covid.

Projetada para ter dez leitos de isolamento, a Unidade tem sistema de pressão negativa, que impede a saída de ar dos quartos quando as portas são abertas, proporcionando mais segurança para os pacientes e profissionais de saúde. Ao meio-dia, duas horas depois de nossa entrada, mais de uma dezena de profissionais se reuniram à frente do leito número um. Começava a rotina diária do “Round multiprofissional”. É quando médicos, enfermeiros, técnicos de enfermagem, fisioterapeutas, farmacêuticos, nutricionista e psicólogo discutem a evolução de cada paciente e estabelecem as estratégias do tratamento.

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A CENA,

desmonta rapidamente a ideia que os “respiradores” são a panaceia da Covid-19. Eles são uma das engrenagens de um complexo e caro mecanismo que depende de muita tecnologia, equipamentos e, principalmente, recursos humanos para funcionar. Para montar um leito de UTI é necessário um respirador, um monitor multiparamétrico (mede os sinais vitais do paciente), bombas de infusão (administra, de forma confiável, fármacos e drogas que necessitam de muita precisão na vazão), cama elétrica com medição de cabeceira e disponibilidade de aparelhos de Raio-X, tomografia e hemodiálise. “O paciente com Covid-19 entra em insuficiência renal muito rápido, de um dia para o outro. Um funcionário nosso internou na segunda e hoje já está em insuficiência renal. Foram só dois dias. E, nesses casos, necessita de hemodialise”, relata a enfermeira Adriana Cristina Galbiatti Parminondi Elias.

Nos períodos em que a FOLHA esteve na UTI, a ocupação variou entre 70% a 90%; desse total 80% eram pacientes confirmados de Covid-19 e o restante aguardava resultado dos exames. Quando os pacientes têm o resultado negativo para o novo coronavírus são logo transferidos para as outras UTIs do hospital que tratam de pacientes sem a contaminação pelo Sars-CoV-2.

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ISOLAMENTO,

Com leitos de isolamento, é possível fazer esse remanejamento. A média de idade dos pacientes era de 72 anos, sendo o mais jovem com 59 e, com exceção da senhora de 91 anos, todos estavam intubados. Já a média desde que a UTI foi montada é de 65 anos, variando de 19 a 95 anos. Homens representaram 62% da ocupação. O tempo médio de internação na UTI-4-Covid é de 9,1 dias. A permanência mais duradoura até o fechamento desta reportagem foi de 34 dias. Alguns já apresentavam evolução e os médicos aos poucos começavam a reduzir a sedação. Esse procedimento é necessário para observar se o paciente já consegue respirar sozinho. Passando por essa prova, começa o processo para extubar o doente.

Numa doença nova, com muitas perguntas ainda a serem respondidas pela ciência e com fármacos em fase de estudos, como é o caso da Covid-19, a luta dos médicos numa UTI é para manter o paciente vivo, lançando mão do que a Medicina já conhece, e aguardar até que o organismo do paciente reaja ao vírus. “Sobre o tratamento desta doença para a qual ainda não temos protocolos definidos e não temos um remédio estabelecido, é necessário se manter constantemente atualizado. Como todos devem saber, diariamente surgem novas publicações sobre o assunto. As sociedades médicas estão constantemente oferecendo material para estudo”, explica a médica-intensivista Aline Cristina Vieira Walger, com mais de oito anos de experiência em UTIs.

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TENSÃO,

Outra preocupação da médica é sobre a chegada de um momento de ter que fazer a “escolha de Sofia”, situação na qual, numa hipotética saturação de leitos de UTI, os profissionais tenham que decidir de quem é a vaga. “Sim tenho medo de ter que fazer esta escolha. Na verdade, estou preocupada porque isso pouco tem sido discutido. Acredito que, se chegar a acontecer, vamos precisar das equipes que trabalham com cuidados paliativos, o que não existe na maioria dos hospitais do Brasil.” Para entrar na UTI, todos profissionais de saúde tem que vestir a roupa privativa, proteção nos calçados e máscara. Já para entrar nos boxes de isolamento, são necessários os aventais, máscaras N95, toucas, luvas e protetores faciais. Parte desses EPIs têm de ser descartados nas saídas dos isolamentos. Para onde se olha há um profissional fazendo a paramentação e a desparamentação, um processo que é repetido meticulosamente, em alguns casos mais de uma dezena de vezes num único plantão pelo mesmo profissional. Por dia são consumidos mais de 400 aventais, 60 máscaras, 60 toucas e incontáveis pares de luvas, isso só na UTI-4-Covid.

Já as lavagens e aplicação de álcool nas mãos se repetem a todo instante. “A Covid-19 trouxe a adesão ao uso de EPIs. Antes tínhamos que fazer campanhas para lavagens de mãos, hoje você não precisa falar mais nada. Nossos indicadores de infecção melhoraram, só pelo fato de as pessoas lavarem mais as mãos e passar álcool. Ninguém mais sai de algum lugar sem lavar as mãos em função do medo. O medo trouxe algumas coisas boas”, destaca a enfermeira Adriana.

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MEDO,

substantivo quase nunca utilizado pelos profissionais de saúde que trabalhavam em Unidades de Terapia Intensiva, até o surgimento da pandemia. A combinação de alto índice de transmissibilidade, ausência de drogas eficientes, inexistência de vacina e efeito devastador e imprevisível no organismo aflorou o sentimento. Os números de profissionais de saúde contaminados e mortos confirma o temor. No Brasil, a morte de enfermeiros bate recordes mundiais. Até o dia 27 de maio eram 157 profissionais mortos. “Sempre saio da minha casa e falo: estou indo, mas não sei se volto. Porque a gente também tem medo de se contaminar. Sei que a culpa não é minha, mas a responsabilidade sobre os funcionários é minha. Cada vez que um se contamina eu me sinto muito mal, muito triste pela pessoa, pela família. Não temos muitos afastamentos por Covid-19 confirmada, a maioria dos afastamentos são pela apresentação dos sintomas, mas que acabam não se confirmando”, revela a Diretora de Enfermagem Magali Godoy Pereira Cardoso.

O distanciamento provocado pela pandemia atinge seu ápice quando o doente é internado e isolado. Mas é no momento em que o quadro evolui e o paciente é levado para uma UTI, onde a falta do toque, da voz e do olhar de parentes e amigos aumentam a angustia de doentes e daqueles que estão do lado fora enfrentando a ansiedade, a dor e o medo.

A aflição de parentes e amigos é a possibilidade de nunca mais ver o ente querido, já que reconhecimento de corpos estão sendo dispensados em muitos lugares e os ritos funerários são encurtados não permitindo velório, nem a ultima exposição do corpo.

Quando o paciente melhora e começa recobrar a consciência a chance de ver, mesmo que de longe algum parente, traz esperança e força para vencer a fase final da luta contra a Covid-19. Nesse contexto, o HU foi o terceiro hospital do pais a permitir visitas. Os leitos de isolamento possibilitam, com segurança, que visitas vejam os internados pelas paredes envidraçadas dos leitos. Apenas uma pessoa, por cinco minutos, duas vezes por semana. Parece pouco para quem lê, mas é uma eternidade para quem tem um parente internado com Sars-CoV-2. São orações, palavras de esperança e olhares impacientes por algum gesto do acamado. Um mexer de mãos, um abrir dos olhos, um movimento do corpo valem muito mais do que um bocado de diamantes para quem está do lado de cá das vidraças.

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[Expediente]

UTI-4 COVID-19 - UM LUGAR DE ESPERANÇA, VIDA E MORTE

6 de Junho de 2020

TEXTOS & FOTOGRAFIA

Sergio Ranalli

EDIÇÃO

Patrícia Maria Alves, Sergio Ranalli

DIAGRAMAÇÃO/IMPRESSO

Anderson Mazzeo

DESIGN/WEB

Patrícia Maria Alves, Willian Coelho

SUPERVISÃO DE PROJETO

Adriana De Cunto (Chefe de Redação)

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