Folha de Londrina

ESPECIAL TRANSMÍDIA - O amor nos tempos do 'Corona'
 

O Amor nos tempos do 'corona'

Folha de Londrina

[Sobre o apartheid do amor]


Em março de 2020 o amor foi apartado.


No período geológico chamado Antropoceno, quando a humanidade passou a consumir mais plásticos e mais alumínios, uma grande epidemia apartou o amor e quem ama.


Hoje, mãos tocam sem se tocar, lábios beijam sem se beijar, abraços são dados sem braços.


O amor à distância separa avós de netos, pais de filhos, jovens de idosos. Separa populações em Londres ou Londrina, separa populações em Nova York ou Nova Délhi.


ESPECIAL TRANSMÍDIA - O amor nos tempos do 'Corona'
Douglas Magno/Folhapress
 


O amor tornou-se virtual como já prenunciavam nossas vidas, em tempos de celulares e computadores. O amor, tornou-se digital, mas não menos vibrante. Sem contatos físicos, proibidos pela grande epidemia, ele ainda existe na fotografia, no vídeo, no apelo dos que rezam aos anjos que, de certa forma, sempre foram virtuais, em sua condição de paz etérea. O amor ainda existe e resiste quando o avô dá a benção noturna na telinha e a mãe recomenda cuidados ao filho do outro lado do planeta.


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Isaac Fontana/Framephoto/Folhapress
 


Nesta Semana Santa, em que a vida de Cristo é lembrada como exemplo do amor universal, que entre os gregos se chamava Ágape, o amor é incondicional ainda que não toque, não beije e não abrace. O amor é incondicional com ou sem epidemia, ele existe como sempre existiu, como laço invisível, agora sem os dedos para puxar a fita.


Em tempo de amor incondicional e virtual, lembremo-nos também dos grandes amores, de Abelardo e Heloísa, Romeu e Julieta, Tristão e Isolda, Jane e Tarzan, John e Yoko.


Deixemos o coração vibrar e se encantar ainda que seja à distância que não separa, une. Porque o amor tem muitas faces. Como disse São Paulo: “Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, e não tivesse amor, seria como o metal que soa ou como o címbalo que retine. “


Como disse o poeta Carlos Drummond de Andrade:


Que pode uma criatura senão,


entre criaturas, amar?


amar e esquecer, amar e malamar,


amar, desamar, amar?


sempre, e até de olhos vidrados, amar?


Então, entre o bem e o mal, vamos esquecer nesta Semana Santa do perigo que nos separa e nos lembrar do amor que nos une.


[Célia Musilli]


 


ESPECIAL TRANSMÍDIA - O amor nos tempos do 'Corona'
 


[União nas alas do hospital]


Pausa nos trabalhos para um momento de oração. O grupo antes formado por apenas cinco pessoas cresceu. Todos os dias, às 7h30, funcionários do Pronto Socorro do Hospital Universitário de Londrina se unem para rezar diante dos desafios que estão por vir. A oração rápida dura pouco mais de 5 minutos. Já o expediente não tem hora para acabar.


O setor é a porta de entrada para pacientes de Londrina e região que apresentam quadro de saúde moderado ou grave com suspeita ou confirmação do novo coronavírus. Há quase um mês, a equipe viu toda a rotina ser alterada. Treinamentos constantes, reuniões e tensão a todo momento.


“Como tudo é muito novo e mudou a rotina e a paramentação, as orientações têm que ser repassadas o tempo todo. Sendo um hospital referência, nós também precisamos mudar toda a dinâmica do nosso trabalho. Tudo isso gera muitas reuniões e atividades de manhã até à noite”, explica Patrícia dos Santos Diesel, enfermeira chefe responsável pelo setor.


No hospital, a jornada, que antes terminava sempre às 16h, já se estendeu até às 22h. Fora do Pronto Socorro, o expediente continua nos grupos de whatsapp formados para debater qualquer dúvida em relação aos atendimentos.


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Foto: HU/UEL
 


Quem está na linha de frente no combate a covid-19 precisa transformar o cansaço e a saudade de casa em dedicação aos desconhecidos. “Faz mais de duas semanas que eu não beijo meu filho, por exemplo. Parece simples, mas é uma situação muito complicada. Ele completou 1 ano e 5 meses ontem. Agora tenho que me aproximar menos dele. Ele ficou doentinho na semana passada e minhas preocupações aumentaram”, conta a enfermeira.


Em família, os cuidados foram intensificados. “Eu chego, vou direto para o banho, tenho cuidado com os sapatos, uso máscara 24 horas e hoje durmo sozinha. Meu marido e meu filho estão praticamente separados dentro do apartamento. Temos contato, mas com segurança. Hoje eles estão em isolamento social. Se ficarem doentes, fui eu que levei o vírus para a casa.”


Em alguns momentos, o medo diante do novo coronavírus também dá lugar à esperança. No último domingo (5), funcionários de todos os setores comemoraram a primeira alta da UTI de uma paciente que ficou em estado grave com covid-19. A melhora surpreendeu a equipe. A jovem de 33 anos deixou o local sob aplausos dos funcionários. Já o pai dela, também infectado, não resistiu e faleceu dias depois no HU.


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Enfermeira espera pacientes de Covid-19 na UPA Sabará. Foto: Isaac Fontana/Framephoto/Folhapress
 


“Aqui nós vivemos intensamente a covid-19. Estamos em alerta o tempo todo, 24 horas mesmo, pela equipe, pela família. Estão todos bem apreensivos. Não sabemos o que será em um futuro próximo. Por enquanto, as pessoas estão mantendo o isolamento social e isso nos ajudou com certeza. Mas, se todos retomarem suas atividades, a gente acredita que o número de internações vai subir. Aí vem a nossa insegurança, nosso receio, como será aqui no hospital? Tem toda a paramentação necessária, o pessoal está treinado e capacitado, mas nós pensamos nos pacientes que vêm, na sobrecarga do sistema de saúde. Tudo isso aflige muito a gente. [...] Com a covid-19, esse momento de oração tem sido imprescindível. É um momento de união, de agradecimento e de força para o que está por vir.”


[Viviani Costa]


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Gustavo Carneiro
 


[De portas fechadas e corações abertos]


Dizem que ninguém mais será a mesma pessoa quando tudo isso passar. Pode ser que sim, mas cada um sente e absorve esses últimos acontecimentos de diferentes formas. Tem aqueles que descobrem seu lado mais sensível, outros, o lado mais ofensivo. Em alguns, o medo triplica de dimensão, enquanto muitos conseguem manter uma rotina adaptada e aproveitam o tempo.


| Autor: Rita de Cássia
 


Mas como ficam as relações quando o mais seguro é ficar isolado? O que se ganha ou o que se perde? Que tipo de valor as amizades, os familiares, os casamentos e os namoros têm em plena quarentena? Em São Paulo, a comerciante Rita de Cássia Magalhães, 54, tenta tirar algum aprendizado de toda essa nova rotina imposta pela pandemia. Ela mora com o pai que tem 93 anos e por isso, tem se comunicado com o namorado somente por telefone. “Ele tem saído para trabalhar e, portanto, não temos tido contato físico”, conta. Ela diz que chega a sentir medo da solidão porque também está afastada dos irmãos, da família e dos amigos, e compartilha que só não entrou em depressão pela fé que tem mantido acesa. “Eu penso muito no meu pai, que apesar da idade, dirigia, fazia trabalho social e ainda caminhava todos os dias. Ver ele isolado está sendo ainda mais difícil, pois ele está em uma enorme tristeza e não sei se voltará à ativa quando tudo isso passar. A saúde emocional das pessoas vai ficar muito balançada e todos vão ficar carentes de amor, de gente, de abraços”, desabafou.


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Foto: Isaac Fontana/Framephoto/Folhapress
 


Do outro lado do mundo, o londrinense Alessandro Akio Hirooka, 43, também passa pela adaptação à uma nova realidade longe da esposa Carina e da filha Gabriela, de 9 anos. Ele acaba de se mudar para o estado de Saitama, no Japão, e os planos iniciais eram de que toda a família estaria reunida por lá o mais breve possível. Porém, com a situação do Covid-19, Hirooka lamenta pela incerteza. “Quando vai estar juntos? Infelizmente, a gente não tem essa resposta. A saudade é grande. Nunca tinha ficado tanto tempo longe delas e agora já são três semanas e não há previsão de quando tudo voltará ao normal”, diz.


| Autor: Alessandro Hiroka
 


Em cada lar, em cada território, as histórias se encontram e todas estão escrevendo uma nova maneira de ver a vida, de consumir, de dar sentido ao ‘estar junto’. As portas estão fechadas, mas os corações estão abertos como nunca.


[Micaela Orikasa]


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Gustavo Carneiro
 


[Como se diz 'Eu te Amo'?]


A Covid-19 transformou a maneira de nós todos demonstrarmos o amor. Com o isolamento social a presença física se perdeu, pais, filhos, parentes e amigos todos distantes. Ao mesmo tempo, no entanto, que a doença nos afastou de quem é importante na nossa vida, nos deu a oportunidade de encontrar outras formas de nos relacionarmos, de demonstrarmos o amor e aproveitar o tempo em casa. “Sem a correria do dia a dia eu estou tendo muito mais contato com a minha família. Sabe aquele primo, aquela prima que você não fala há muito tempo.


| Autor: Viviane Sibelle Moraes
 


A internet nos proporciona isso e temos recordado muitas histórias boas e engraçadas do passado”, comenta a empresária Viviane Sibelle Moraes, 42 anos, para quem falar em amor é falar em família. Casada, mãe de um menino de quatro anos, ela aproveita o período de quarentena para resgatar vários laços familiares perdido na rotina estressante. O isolamento a distanciou dos pais, temporariamente, que moram em Londrina, mas estão no grupo de risco, em razão da idade. E isso gera tristeza, sobretudo no filho, que tinha contato com os avós diariamente. “Não temos que pensar que é mais um dia em casa e sim que é menos um dia de coronavírus. Sou uma pessoa muito otimista e sei que isso vai passar. É só uma fase e logo vamos voltar todos a se abraçar”.


[Lucio Flávio Cruz]


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Gustavo Carneiro
 


[Como se diz ‘Eu me amo?’]


Morando em Curitiba desde que se mudou de Londrina em 2006, a psicóloga Lucilene Garcia de Farias relata que o isolamento causado pela pandemia de Covid-19 mudou, primeiramente, a relação consigo mesma. “Embora eu já goste muito da minha companhia, algo mudou na minha possibilidade de me olhar ainda mais fundo”, diz ao comentar que as relações familiares também foram afetadas. “Tenho mais tempo para o meu filho de 14 anos e para minha filha de 21, e eles têm mais tempo pra mim.


Nossos territórios coexistem, mas usamos o espaço e o tempo de forma muito distintas. Meu filho tá vivendo o sonho do relacionamento virtual com os amigos. E minha filha, que é universitária e mora em Campinas, também está conosco. Limpar a casa virou nossa academia. Todo mundo ajuda nas tarefas domésticas e temos mais tempo para conversar”. Já com outros familiares, a psicóloga acredita que o isolamento aumentou o respeito pelo espaço do outro. “Antes nas reuniões de domingo ficava todo mundo junto, mas cada um perdido no seu próprio espaço individual e minha mãe não parava, pois dividia a atenção entre filhos, noras e netos.


| Autor: Lucilene Garcia
 


Agora, eu e minha mãe temos um horário marcado para conversar coisas que são só nossas, olhando no olho pelas vídeochamadas”, relata. Lucilene diz que com os amigos a relação estabelecida virtualmente evidenciou o apreço pela singularidade de cada um. “Já com meus pacientes, a relação no formato virtual se tornou mais íntima e menos imparcial. Tem sido uma experiência muito tocante”, conclui.


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Gustavo Carneiro
 


| Autor: Regina Aranda
 


Londrinense radicada na Itália há sete anos, Regina Aranda relata os sentimentos de quem já está em quarentena há quase um mês. A jornalista que atualmente reside em Castellabate, um balneário localizado no sul de um dos países mais afetados pela Covid-19, com mais de 15 mil mortos, relata de tem mantido contatos com familiares pela internet. “Não tem sido nada fácil, pois eu oscilo entre depressão, normalidade, esperança, falta de esperança às vezes. Porém a gente tem esse instrumento poderoso que é a web. Isto nos permite ter um contato visual, alguma coisa mais próxima com nossos afetos. Então eu posso ver meu filho e isso me deixa um pouco mais aliviada”, comenta.


[Marcos Roman]


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Gustavo Carneiro
 


[Corações partidos pelo coronavírus]


Pode até parecer exagero ouvir que alguém dividia a rotina entre o Brasil e a Itália. Mas é exatamente assim que a família da londrinense Dagmar Maciel Magnani vive - ou vivia, até que a pandemia do covid-19 atingisse o mundo todo. Mãe e filha partiram de Bolonha, dia 15 de fevereiro e nunca apresentaram sintomas. Mas desde os primeiros casos eclodirem na Itália, cerca de uma semana de sua chegada ao Brasil, a rotina de Dagmar, Massimo e Glória foi alterada. Massimo não está contaminado, permanece em quarentena e infelizmente não poderá reencontrar sua família em abril, quando estava programado. “E nós também não poderemos ir ao final de junho, como era o costume”, diz a brasileira.


| Autor: Dagmar e Gloria
 


Dagmar é descendente de famílias italianas, cresceu em contato com a língua e os hábitos dos imigrantes - vindos da região de Pádua, Rovigo e Venetá, no nordeste da Itália - onde até hoje residem seus parentes. Após muitas idas e vindas da Itália, onde fez vários cursos de língua, culinária e artes, conheceu o engenheiro Massimo Magnani - ele originário de Cesenatico, cidade no centro da Itália - com aproximadamente 30 mil habitantes, às margens do mar Adriático. Eles se casaram e são pais de Glória, que nasceu na Itália e tem 10 anos. Até o período em que a criança estava na Educação Infantil, eram seis meses lá, seis meses cá.


 


“Acredito que o pior dia foi quando o número de mortos na Itália chegou perto de 1 mil. Eu sei que Massimo se cuida, está trabalhando em casa, mas ficamos abalados. Infelizmente, a família não sabe precisar quando irá se reencontrar”, reflete.


 


Para minimizar a distância e a tristeza que aperta, eles se falam e se distraem interagindo em vários aplicativos. “A família se fala várias vezes ao dia. “Minha sogra, Martina, tem 88 anos e mora perto de nossa casa em Cesenatico. Ela tem uma cuidadora, sofre de Alzheimer, então não sabe o que se passa. Em recente conversa, Dagmar conta que o marido reclamou que os cabelos dele estão grandes. ‘Então eu disse a ele que até o Mattarella que é o presidente está, então ele pode esperar tudo isso passar para então cortar os cabelos”, sorri.


[Walkíria Vieira]


[Longe dos olhos, mas dentro do coração]


O casal formado pelo técnico de segurança no trabalho aposentado, José Camilo Pegoraro, 76, e a enfermeira aposentada Aildes dos Santos Pegoraro, 82, decidiu em comum acordo com seus filhos e netos que não receberia a visita das crianças, para evitar uma contaminação, já que os dois são idosos e isso significa que eles estão no grupo de risco. Eles moram em uma casa geminada com um de seus filhos, a cunhada e os netos. Contudo, o portão que separava as duas casas e que possibilitava o livre acesso das crianças à sua casa, hoje está trancado.


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José Camilo Pegoraro e Aildes dos Santos Pegoraro juntos com a família antes da quarentena FOTO: Arquivo Pessoal
 


Aildes descreve que essa separação dos netos é muito triste. “A gente estava acostumada a encontrar com eles diariamente, fazer arte, tomar café junto com eles. Eu era a super vovó e agora a gente está isolada assim. Nós tínhamos contato direto pelo portão do quintal, que ficava sempre aberto. Eles nos visitavam e a gente ia lá direto também.” Ela sente falta dos netos chegando na casa e pedindo balinhas ou chocolate. “Nós sempre deixávamos que eles pegarem esses doces. O contato era muito grande. Às vezes faltava bolacha para tomar café na casa deles e eles vinham tomar aqui. Para mim é difícil aguentar essa ausência”. Ela relata que nem conversando com eles pelo tablet ameniza a saudade.


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Gustavo Carneiro
 


“Eu escuto a voz deles e dá vontade de chorar. Conversar com eles pela internet ou gritando pela sacada ajuda a matar essa saudade, mas não é a mesma coisa. Nosso contato era a toda hora. Eles ficavam aqui com a gente. Vamos ver até quando vai essa solidão. É preocupante. Nós não sabemos o nosso destino com essa quarentena”. Ela enaltece que a presença dos netos faz parte da vida deles. “A gente sempre esteve perto deles. Hoje a gente ouve a voz deles e não pode ir lá para abraçá-los. Só quem passa por isso pode definir o que estamos passando. Não vejo o dia da gente superar isso aí e voltar ao que era antes.”


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Gustavo Carneiro
 


Mesmo sem contato, é possível sentir o amor que os netos possuem por eles. “Disso não tenho nem dúvida. Eles gritam pelo muro. ‘Oi, vó! Oi, vô!. Tudo bem com vocês?’ A gente sente que eles também estão preocupados conosco”, observa Aildes que trabalhou por muitos anos como enfermeira, vê as estatísticas de morte de vítimas da pandemia e relata nervosismo e preocupação diante desses dados. “A gente nunca sabe se vai estar no meio dessas estatísticas. Isso tudo fica martelando em minha cabeça e fico até meio deprimida”, declara. Ela garante que mesmo aos 82 anos possui vontade de viver mais. “Tenho saúde e sou muito forte ainda. Ainda consigo fazer o trabalho de casa”, declara.


Seu marido, José Camilo Pegoraro, afirma que essa saudade faz bater acelerado o coração dele. “A gente fica com saudade. A gente tem que respeitar essa distância para um não ter o risco de transmitir essa doença para eles ou vice-versa”, aponta. “A decisão dessa separação foi tomada em conjunto. A gente ia ter dificuldades com as crianças, porque a gente não ia conseguir evitar os beijos e abraços. Fizemos esforço entre os adultos para fazer isso. Claro que eu sinto falta do afeto, do calor humano deles. São sentimentos nossos que não dá para negar.”


Ele relata que em toda a sua vida já viveu muita coisa, mas não passou por nada parecido. “Ouvi histórias do pós-guerra, que teve a gripe espanhola. Também lembro quando surgiu o ebola, o H1N1 e também quando surgiu a AIDS. Antes disso tudo teve a peste negra. Mas isso nunca havia nos afetado. Agora estamos sentindo na pele. Pode matar tanto quanto ou mais. A gente não sabe como essa pandemia vai evoluir. Estamos naquela incerteza. Como será o dia de amanhã? É uma interrogação de todos nós. Espero que a gente dê a volta por cima disso aí.”


[Vitor Ogawa]


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Isaac Fontana/Framephoto/Folhapress
 


[‘Tudo sofre, tudo crê, tudo espera’ - Coríntios 13]


Os convites chegaram mencionando a comemoração no dia 21 de março de 2020, porém, naquela semana, saíram os primeiros decretos de distanciamento social. Nenhum estabelecimento aberto, sem abraços, nem beijos, ninguém na rua, sem aglomeração, eventos e reuniões cancelados. Era para ser um dos dias mais representativos do casal Ágata e Gabriel, eles se casariam naquele sábado, mas a quarentena mudou tudo, até a forma de se relacionar. O que ficou foi o amor.


Foi no colégio que os dois se encontraram. Da juventude atual dos 24 anos, nove eles traçaram juntos. Há dois, decidiram formalizar a união que prometem um ao outro ser para sempre. “No meio do ano passado a gente decidiu por uma data: dia 21 de março de 2020, que também é nosso aniversário de noivado. A partir disso, começamos a nos planejar”, conta Ágata Iwama.


A proposta seria uma festa pequena, para 43 convidados. Todos os serviços foram contratados com carinho especial pelo dia. “Até dezembro a gente já tinha fechado quase tudo. Entregamos os convites no final de dezembro também. Em janeiro, o Gabriel recebeu uma proposta de trabalho em Pato Branco (Sudoeste). Então, os planos eram eu me mudar para lá assim que a gente se casasse”, menciona.


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Gustavo Carneiro
 


Mas os planos mudaram com a mesma celeridade em que notícias sobre a pandemia do novo coronavírus mudavam a realidade das pessoas. “Acho que o Gabriel, por ser da área da saúde, percebeu antes de mim que a situação estava ficando complicada por aqui”, menciona.


Pela situação nos aeroportos brasileiros, veio a decisão: cancelar a viagem de lua de mel que seria no nordeste do País, mas na semana do casamento, a prefeitura passou a adotar medidas mais restritivas em Londrina. “Percebi a situação quando começou a entrar os decretos do prefeito, que, na segunda-feira já tinha adotado algumas medidas. Como casamento é muito beijo, abraço, como a gente iria fazer uma coisa que não pode nem cumprimentar as pessoas?”, menciona o noivo Gabriel Matheus dos Santos.


| Autor: Ágata e Gabriel
 


Na semana do casamento, ele ligou para a noiva para ter uma conversa triste. “Quarta-feira, com um monte de coisa resolvida, ele falou que ia me ligar para a gente conversar. ‘Não vai rolar, vamos ter que adiar, até sábado não sabemos como vai estar essa situação’, ele falou. As medidas que estavam sendo tomadas aqui já eram muito restritivas”, conta Ágata agora com tranquilidade ausente na ligação. “Fiquei supernervosa, eu chorei, porque estava muito perto. O casamento era sábado e toda essa situação veio na semana, a decisão foi na quarta-feira”, comenta. “Nunca foi um sonho, mas uma vontade muito grande de poder comemorar esse momento e quanto estava chegando perto, eu imaginava tudo pronto e eu, realmente, não queria desistir disso”, compreende.


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Gisele Amâncio, assessora de eventos da Amâncio Eventos, ficou responsável por renegociar com os fornecedores. Os pais ligaram para os convidados. Questão da cerimônia resolvida, mas vieram outros desafios. Depois de nove anos juntos encontrando-se algumas vezes na semana, morar junto em plena quarentena parece ter vindo para reforçar o sentimento. “Juntos 24 horas por dia, o único momento que a gente nãos e vê é quando o Gabriel vai ao mercado”, ri a noiva. Ele foi suspenso das atividades na empresa onde trabalha, ela atua em home office. “Acho que a gente está aprendendo a ter mais paciência. Se a gente brigar, discutir, vai ter que ficar aqui, um olhando para a cara do outro, estamos aprendendo a tolerar mais. É uma lua de mel diferente”, brinca.


O casamento foi remarcado para o final de setembro, até lá, as experiências novas servirão para tornar o dia mais especial.


[Laís Taine]


[Diálogo em tempos de solidão]


O isolamento social trouxe também o desafio da solidão. A casa vazia sem a visita de amigos, o distanciamento entre avós e netos, o silêncio. Enquanto jovens se esbaldam nos relacionamentos virtuais, a maturidade nem sempre está conectada ou tem facilidade para manusear a tecnologia.


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Isaac Fontana/Framephoto/Folhapress
 


Os sentimentos contraditórios causados pela necessária medida de prevenção ao novo coronavírus são transmitidos diariamente aos voluntários do CVV (Centro de Valorização da Vida). Desabafos e pedidos de ajuda fizeram com que a quantidade de ligações aumentasse de 6.323 (em 1º de março) para 7.742 (em 1º de abril). A estatística abrange atendimentos realizados em todo o país.


O volume de trabalho foi potencializado pela angústia de quem está do outro lado da linha e tenta assimilar todas as mudanças repentinas adotadas nas últimas semanas. Do lado de cá, voluntários como o porta-voz do CVV em Londrina, Aparecido Beltrami, se revezam para ouvir e acolher as preocupações de quem se vê impotente diante da pandemia.


 


“O sentimento agora está potencializado. Muitas pessoas ligam desesperadas porque criou-se uma desinformação que se a pessoa é contaminada pelo vírus, ela vai morrer, não tem outra saída. Criou-se esse estigma e as pessoas estão apavoradas. O risco de se pegar o vírus é muito grande, para todos nós. As pessoas vulneráveis que já tem algum problema de saúde podem potencializar os sintomas. O fato é que as informações não são precisas e há muito desencontro. Isso causa muito medo”, afirma.


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Gustavo Carneiro
 


Antes da pandemia, os voluntários recebiam ligações com mais frequência aos finais de semana. Agora, com o isolamento social, a quantidade aumenta dia após dia. Conforme Beltrami, há 122 postos do CVV em funcionamento no Brasil. Em 15 deles, as ligações são recebidas 24 horas. Em Londrina, o atendimento ocorre das 7h às 23h. As medidas de prevenção da doença covid-19 também foram adotadas pelos voluntários do CVV. Grande parte deles tem mais de 50 anos. Parte do grupo passou a atender as chamadas da própria residência.


A cada quatro horas trabalhadas no plantão, Beltrami recebe de 8 a 15 ligações. Em alguns casos, o tempo de atendimento chega a até 1h30, se necessário. “Quando a pessoa está emocionalmente desconstruída, ela exige muito tempo e dedicação do voluntário. A ajuda é em cima da fala de quem está do outro lado da linha. Às vezes, é trabalhoso, mas estamos aqui para ouvir e acolher, demonstrar amor e compaixão. Oportunizar a pessoa de falar, respeitar o sentimento dela. Muitas vezes, as pessoas não conseguem conversar com os familiares. Ninguém mais ouve ou agora ninguém mais visita. O CVV deixa essa pessoa desabafar e externar o sentimento durante a conversa”, explica.


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Gustavo Carneiro
 


O atendimento não substitui consultas com psicólogos ou psiquiatras. É apenas uma forma de apoio emocional. “Quando as pessoas perguntam o que fazer, a gente orienta que elas tomem cuidado, acatem as recomendações dos órgãos de saúde dentro do que é possível acatar, mas que elas também não parem de viver. A gente tenta passar um pouco de paz, de tranquilidade. Orienta a pessoa a se cuidar, a se alimentar bem.”


O porta-voz do CVV lembra ainda que, mesmo em uma época em que muitas pessoas estão sozinhas, próximas ao telefone e com vontade de ajudar ao próximo, não seria possível ampliar o número de voluntários de uma hora para outra. A seleção dos interessados é feita por meio de um curso inicial com 8 horas de duração, seguido de outro curso preparatório com conteúdo prático e teórico ministrado durante quatro semanas.


“Grande parte das pessoas quando faz o curso desiste e percebe que o CVV não é um trabalho para ela. Muitas vezes, quem vai fazer o curso também passou por um momento de extremos e vai em busca de respostas pessoais. Para uma pessoa ser voluntária, por mais que ela seja humana e empática, ela tem que ter um treinamento. Uma pessoa legal, bacana, que gosta de ajudar os outros, se acolher alguém que liga em um momento de desespero e não estiver preparada pode desencadear sentimentos diversos”, detalha.


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Isaac Fontana/Framephoto/Folhapress
 


Em Londrina, 30 voluntários se revezam para manter o serviço. Em todo o país, são mais de 3,6 mil pessoas aptas a receber as ligações. “Se a pessoa não estiver legal, não estiver bem, precisar conversar, é importante que ela ligue. Ela vai ser acolhida, respeitada e tudo o que for conversado será confidencial”, completa Beltrami. Quem entra em contato não precisa se identificar. O telefone do CVV é o 188. Mais informações no site cvv.org.br.


[Viviani Costa]


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Isaac Fontana/Framephoto/Folhapress
 


[Quarentena tem rendido matches]


Ler, estudar, “maratonar” séries, organizar a casa. O período de quarentena oferece inúmeras oportunidades de utilizar bem o tempo para quem vê o atual momento no conceito do “copo meio cheio”. Mas por que não usar estes dias para encontrar o amor da vida, fazer novas amizades ou garantir um encontro pós-isolamento? E tudo isso sem colocar a saúde em risco e dentro de casa, cumprindo o que recomenda as autoridades em saúde.


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Isaac Fontana/Framephoto/Folhapress
 


Os aplicativos de relacionamento são opção para quem escolhe este caminho. De acordo com a assessoria de imprensa do Tinder, as conversas diárias ao redor do mundo aumentaram em média 20% desde o início da pandemia e a duração média destes papos já se tornou 25% maior. No Brasil, as conversas cresceram uma média 25% e já estão 20% mais longas.


No dia 29 de março, por exemplo, quando um terço da população mundial estava em isolamento, houve mais swipes - o famoso arrastar para lá e pra cá no Tinder - do que em qualquer outro dia da história do aplicativo. Além disso, os usuários estão conscientes na plataforma. Fique em casa, fique seguro, mantenha o distanciamento social e emojis que representam lavar as mãos e o rosto estão sendo cada vez mais usados nas biografias.


Quem está aproveitando a quarentena no Tinder é uma estudante de fisioterapia em Londrina, de 22 anos, que preferiu não ter o nome divulgado. Segundo ela, a quantidade de matches (quando as pessoas se curtem e aprovaram a foto uma das outras) aumentou consideravelmente nas últimas semanas. “Nos primeiros dias sem estágio (que foram suspensos por conta da pandemia) usei muito. Toda a hora estava abrindo o aplicativo e comecei a conversar com várias pessoas”, contou.


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Gustavo Carneiro
 


Vindo de um término de relacionamento no começo deste ano, quando resolveu baixar o aplicativo, a estudante viu no Tinder uma oportunidade de formar novas amizades. “Namorei por quase três anos e só conhecia os amigos do meu ex, pessoal da faculdade. Então, queria conhecer pessoas novas”, destacou. Um dos matches da jovem gerou um encontro. “Fui em uma lanchonete que é do lado da minha casa, mas nós viramos apenas amigos”, afirmou ela, que garantiu que nenhuma combinação acabou em relacionamento.


Por conta de toda essa procura pelo Tinder, a empresa proprietária do aplicativo liberou gratuitamente a função passaporte, que normalmente está disponível como um recurso para quem é assinante. Esta função permite que o usuário converse com moradores de outros países ao redor do mundo.


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Isaac Fontana/Framephoto/Folhapress
 


Na última semana de março a taxa de uso desse recurso aumentou 15% no Brasil. Na Alemanha foi 19% e na e Índia 25%. Longe ou perto, a pandemia tem mostrando que o mais importante é o match com a conscientização.


[Pedro Marconi]


#FiqueEmCasa


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Isaac Fontana/Framephoto/Folhapress
 


[Expediente]


AMOR NOS TEMPOS DO 'CORONA'

11 de Abril de 2020


TEXTOS

Celia Musilli, Micaela Orikasa, Viviani Costa, Lucio Flávio Cruz, Marcos Roman, Walkíria Vieira, Pedro Marconi, Laís Taine é Vítor Ogawa


FOTOGRAFIA

Gustavo Carneiro, Isaac Fontana/Framephoto/Folhapress


COORDENAÇÃO DE REPORTAGEM E EDIÇÃO

Patrícia Maria Alves


DIAGRAMAÇÃO/IMPRESSO

Anderson Mazzeo, Gustavo Andrade


DESIGN/WEB

Patrícia Maria Alves


SUPERVISÃO DE PROJETO

Adriana De Cunto (Chefe de Redação)


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