Vontade descontrolada de comer
Momentos de tristeza, raiva e euforia fazem parte do dia a dia, mas ainda há muita dificuldade de lidar com essas emoções
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 15 de abril de 2019
Momentos de tristeza, raiva e euforia fazem parte do dia a dia, mas ainda há muita dificuldade de lidar com essas emoções
Ana Elisa Frings/Estagiária 
Comer para aliviar os sentimentos ou ter um prazer momentâneo pode ser um ato corriqueiro para muitas pessoas. Mas o hábito pode se tornar preocupante quando a compulsão prevalece sobre a atitude racional de parar de comer.

Segundo Aline Quissak, nutricionista e pesquisadora, de Curitiba, compulsão alimentar é a vontade descontrolada que temos de comer. “Mesmo quando já está satisfeito, mesmo quando não cabe mais no estômago, a pessoa continua comendo. E esses alimentos, na maioria das vezes, são ricos em açúcar e gordura; mas podem ser também variados. Ou seja, a pessoa come tudo que está à disposição e em volumes muito grandes”, detalha. “A compulsão até pode iniciar com a ideia de comer por prazer, mas durante o processo a pessoa não está mais no controle do seu apetite; ela come e não para, até passar mal ou até acabar a comida que está exposta na sua frente”, esclarece.
A principal causa apontada pela nutricionista para essa compulsão é a dieta restritiva. “A longo prazo essas 'dietas da moda' fazem o paciente privar-se de alimentos sem substituir os maus hábitos. Isso gera uma inflamação no corpo, já que não somos feitos só de calorias e sim de vitaminas, minerais, antioxidantes e vários outros elementos que estão presentes nos alimentos. Sem eles, a deficiência pode causar não só compulsão alimentar como problemas de coração (AVC e trombose), diabetes e transtornos alimentares”, explica.
A especialista observa também que é comum descontarmos nossas emoções na comida; e isso acontece porque temos uma relação emocional com ela. Segundo Quissak, quando estamos estressados, tristes, ansiosos, acabamos comendo esses alimentos em busca do prazer. O problema não é comer o que nos faz sentir bem, mesmo quando o alimento não é saudável, e sim achar que comer vai resolver nossos problemas. Como não resolve, continuamos comendo para manter o nível de prazer, e depois sentimos culpa por termos exagerado, o que acaba desencadeando um ciclo vicioso.
'Compreender o contexto do evento é importante'
Para a psicóloga e pesquisadora Maria Salete Arenales, de Londrina, como as pessoas reagem de forma diferente aos sofrimentos é importante avaliar caso a caso. Algumas deixam de comer, outras ganham peso rapidamente após um acontecimento penoso em suas vidas. As dificuldades mais vistas entre as pessoas que buscaram ajuda no consultório, aponta ela, têm em comum a descrição de um evento que na sequência desencadeou o aumento de peso. "Os pacientes chegam com muita dificuldade de falar do próprio corpo, mas sempre estava presente no depoimento um marco na história pessoal que os fez comer mais e engordar", conta.
A importância do apoio psicológico nesses casos é no sentido de encontrar um novo caminho para entender o significado do que foi vivido. "Compreender o contexto do evento é importante para o tratamento. Pacientes que passaram pela terapia tiveram muita evolução, porque puderam tratar toda uma conjuntura que afetou inclusive a saúde do corpo."
Na opinião da psicóloga, a sociedade está vivendo em um “cenário engordativo” e as causas podem se somar. "O preparo das comidas está cada vez mais alterado, com comidas ainda mais gordurosas e a atividade física ficou diminuída. Desde as crianças que se movimentam menos no dia a dia até os corpos perfeitos de modelos que exercem uma cobrança pela imagem impecável, mas que na prática são irreais." As causas emocionais são mais um fator na lista de influências.
'Há muito freio nas emoções nos tempos atuais'
Sobre possíveis formas de prevenção da compulsão alimentar, a psicóloga e pesquisadora Maria Salete Arenales, de Londrina, alerta para começar olhando pelo lado emocional. "Há muita dificuldade de colocar os sentimentos em palavras, há muito freio nas emoções nos tempos atuais. Também vemos vínculos mais frágeis entre as pessoas e silêncios entre as famílias. É preciso haver uma conversa, falar sobre dificuldades", aponta. No sentido físico, se o corpo passar muitas horas sem receber comida é também uma forma de gatilho para a compulsão.
Já a nutricionista Aline Quissak, de Curitiba, ressalta que a primeira coisa é não deixar o corpo perceber que tem comida à disposição. Segundo ela, uma pessoa com compulsão não consegue ver um bolo e comer apenas uma fatia dele. Ela sugere cozinhar em porções pequenas, como um bolo de caneca, por exemplo. E também é recomendável não deixar a comida na mesa - sirva-se no fogão e coma na mesa - , para os olhos não ficarem estimulados e você acabar repetindo.
Quissak reforça que é preciso optar por alimentos saudáveis, considerados anti-inflamatórios, pois eles vão ajudar a diminuir o cortisol (hormônio do estresse que aumenta a vontade de carboidrato). Por isso, é preciso evitar alimentos industrializados e gordurosos, ricos em açúcar refinado, pois estes vão aumentar o cortisol e ainda vão estar à disposição quando a compulsão atacar. Se estiver estressado, ansioso, triste, tente respirar fundo e fazer algo que não envolva comida. “Faça uma massagem, dê uma volta no quarteirão, converse com um amigo/familiar, mas não saia para comer ou não passe no supermercado para comprar comida. Nesta hora você não fará escolhas inteligentes pois estará sendo controlado pelos seus hormônios”, complementa.
A nutricionista lembra da importância de procurar uma equipe multidisciplinar, já que especialistas vão ajudar a resolver o problema com calma, visando a saúde. O endocrinologista Cervantes Loli, de Londrina, reforça que pacientes que receberam tratamento médico em conjunto com acompanhamento psicológico tiveram resultados mais expressivos e seguros a médio e longo prazos. "Quando há assistência com terapia e medicamentos para controle de ansiedade e compulsão, por exemplo, a melhora começa a aparecer. Aos poucos, à medida que o estado geral do paciente melhora e os acessos de compulsão diminuem, o aumento de peso para de acontecer. O próprio paciente se dá conta disso e passa a acreditar na própria capacidade de recuperação.”
Para o médico, além do controle regular dos remédios, é importante haver espaço para os pacientes manifestares como se sentem. "É preciso ouvir, sem julgamentos ou cobranças. E depois instruir para o tratamento. É comum haver muita culpa nesse processo e nem sempre a família entende a situação. Pensam que a pessoa está assim por que quer, mas trata-se de um caso de doença", argumenta. (A.E.F.)
'Hoje estou feliz, vivo bem com as regras que adotei'
S.C., 45, hoje se considera feliz com seu corpo e com saúde, mas o caminho para a aceitação passou por um tratamento médico de quase três anos. Ela admite que sofria de compulsão alimentar. Fazia as refeições serem sempre em alta quantidade e muitos lanches rápidos, com alimentos gordurosos. "Tive momentos de comer caixas de Bis inteiras. E era fácil comer muito chocolate, de duas ou três barras de uma vez. E logo depois me sentia muito mal, no corpo e com culpa."
Após engordar mais de 20 quilos durante a segunda gravidez, considerou que não estava se sentindo bem e precisava de ajuda. Sofreu episódios de pressão alta, até ter uma convulsão. Além dos medicamentos, recebeu do médico um alerta para a saúde mental.
A forma de lidar com questões familiares do passado e as altas cobranças consigo mesma precisavam tanto de mudança quanto os hábitos de alimentação. "Aos poucos ganhei força para contar que tinha crises de choro escondida no banheiro. Eu me sentia irritada, estressada sem saber muito bem o porquê. Pensei que as sucessivas perdas que tive na vida, como a separação do meus pais,
podiam ter a ver com meu estado de saúde", relata.
O processo de recuperação incluiu mudança de hábito alimentar dos mais simples, como tomar café da manhã e incluir verduras nas refeições. Ela começou também a fazer pilates e se dedica aos cachorros que tem em casa. "É importante procurar atividades prazerosas. Também procurei livros e mantive a fé em Deus. Levou tempo para eu perceber que o maior inimigo são os problemas que guardamos com a gente. Tem dias que ainda sinto mal-estar, mas aprendi a fazer repouso quando o corpo pede; aprendi a me cuidar de verdade", desabafa. Ela perdeu 20 quilos ao longo do tratamento.
Sobre a alimentação, ela diz que come o que tem vontade, mas sempre está vigilante. "Não adianta ser radical na dieta sem enfrentar outros problemas. Hoje estou feliz, vivo bem com as regras que tive que adotar. Antes eu fazia um bolo e comia sozinha. Hoje o corpo já se readaptou e logo sinto incômodos quando exagero na fritura ou nas quantidades.”
Supervisão: Lucilia Okamura – editora Saúde

