Volta ao trabalho pode ser sem culpa
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 22 de abril de 2013
Michelle Aligleri<br> Reportagem Local 
Quando uma listrinha cor de rosa aparece no exame de gestação, a mulher geralmente vive uma mistura de sentimentos, dúvidas, preocupações com o futuro e com a mudança significativa na vida em razão da chegada do novo membro da família. A questão referente à mudança na rotina profissional acaba fazendo parte do pacote de preocupações das mulheres que trabalham. O tempo de licença-maternidade, o retorno ao trabalho e a dedicação ao bebê, tudo isso passa a ser questionado intimamente por muitas mulheres.
Para psicólogos e pesquisadores, toda esta ansiedade faz sentido, já que, segundo eles, quanto mais tempo a mãe ficar com o bebê nos primeiros anos de vida, melhor. A coordenadora do curso de psicologia da Unifil, Denise Tinoco, explica que pesquisas mostram a importância de cuidar da criança e fortalecer o vínculo familiar. ''A perda do convívio com a mãe nos primeiros anos de vida traz consequências para a criança'', destaca.
Denise considera a licença-maternidade brasileira muito curta e destaca que o fato das famílias matricularem as crianças nas creches e escolinhas muito cedo é prejudicial à criança. ''Tem se percebido a importância da função materna. É ideal que ela seja exercida pela mãe, mas também pode ser feita pela avó ou pelo pai. Esta função inclui alimentar, acalentar, aconchegar e acolher a criança'', frisa. Segundo a psicóloga, a criança precisa ter uma pessoa para manter contato diário e criar vínculo. ''Sem isso, ela se sente muito ansiosa, com a sensação de desamparo muito grande'', explica. Para a especialista, a ausência de vínculo na primeira infância pode resultar em dificuldades na vida adulta. ''Isso causa ansiedade, insegurança e a pessoa fica muito voltada para ela mesma. É visível a dificuldade destas pessoas em criar vínculos posteriormente e, algumas vezes, elas acabam tendo uma relação de dependência com os parceiros'', ressalta.
A psicóloga recomenda que, pelo menos nos três primeiros anos de vida, a criança seja acompanhada o maior tempo possível por uma pessoa que tenha vínculo familiar. ''Pode ser a mãe, o pai e até a avó ou uma tia'', elenca. Denise enfatiza que o ideal é esperar passar esta fase antes de colocar a criança na escola, já que a família é o primeiro grupo social que a criança pertence.
Em grande parte das famílias as mulheres trabalham e, além da renda delas ser importante no orçamento, algumas não estão dispostas a abrir mão da carreira profissional. Diante do impasse, a psicóloga recomenda que o melhor é fazer com que o pouco tempo em família tenha qualidade, sem deixar de lado os limites. ''Este comportamento dos pais de chegarem em casa e irem direto para o computador ou fazerem outras atividades, deixando os filhos de lado, aumenta os índices de transtorno de atenção'', explica.
Para que a criança tenha um desenvolvimento saudável, ela precisa de atenção, afeto e dedicação dos pais, sentencia a psicóloga. ''É importante a reprodução humana, mas é fundamental que seja feita com responsabilidade para que estas crianças tenham saúde mental'', destaca. Ela acrescenta que a infância dura cerca de dez anos e que este período não pode ser sobrecarregado de atividades, adiantando a vida de adulto.
Denise acrescenta que, de acordo com pesquisas, as principais causas de problemas comportamentais em escolas durante a adolescência têm relação com a ausência do vínculo materno precoce. ''O primeiro vínculo social deve ser criado com a família e não com a professora'', ressalta. Ela acrescenta que os pais devem ficar atentos já que nem todas as escolas ou creches têm pessoas preparadas para cuidar de várias crianças ao mesmo tempo.
Na avaliação da psicóloga, as mães não devem se sentir culpadas por precisarem trabalhar, mas devem fazer o que podem de acordo com as circunstâncias para minimizar o problema.

