Você tem bruxismo?
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domingo, 10 de agosto de 2014
Micaela Orikasa<br> Reportagem Local 
Ainda na infância, antes mesmo de compreender o significado do bruxismo, Jéssica Ilhe Silva teve que passar por um tratamento por conta do distúrbio. Aos 8 anos, sua mãe percebeu que durante o sono ela produzia ruídos pelo ato de ranger os dentes.
"Fui ao dentista e tive que usar um aparelho intrabucal e uma placa para dormir. Hoje melhorou muito, mas nos dias em que estou nervosa ou muito ansiosa volto a ranger os dentes, incomodando inclusive minha mãe que dorme ao lado", diz Jéssica, hoje com 26 anos.
A educadora física afirma ainda que, apesar do diagnóstico do bruxismo, nunca sentiu dores e procura manter o controle sobre esse hábito noturno. "Visito o dentista anualmente para saber se está tudo bem", completa.
O relato de Jéssica não é isolado, pois o problema se apresenta em grande parte da população e em muitos casos pode interferir negativamente na qualidade de vida das pessoas. "Trata-se de um hábito parafuncional de ranger e/ou apertar os dentes, audível ou não, consciente ou inconsciente e diurno ou noturno. Porém, geralmente, se manifesta mais à noite porque no período de consciência você consegue controlar isso", diz Guilherme de Almeida, docente na área de Odontopediatria e Ortodontia da Universidade Federal de Uberlândia (MG).
Almeida esteve em Londrina recentemente participando do 45º Encontro do Grupo Brasileiro de Professores de Ortodontia e Odontopediatria. Ele explica que o bruxismo é multifatorial e cita três grupos distintos de agentes causadores.
O primeiro deles pode ser fisiológico. "Na infância, uma das características dos dentes decíduos durante e após a troca é a atrição, pois a posição dos dentes de leite é diferente dos permanentes. Eles são todos em pé. É uma condição anatômica que favorece os movimentos da mastigação e que na criança ainda não estão definidos porque a articulação está em formação. Dadas essas diferenças, há uma necessidade de atritar os dentes para alisar a superfície", explica.
Porém, ele ressalta que o bruxismo só se configura quando essa atrição fisiológica ultrapassa os limites da normalidade e torna-se patológica. "Outro grupo são os agentes psicoemocionais, que incluem desde um traço a um estado de ansiedade", diz, salientando que fatores sistêmicos também interferem, como por exemplo, pessoas com refluxo ou verminose.
Pra identificar se o indivíduo está rangendo ou apertando os dentes, há uma série de recursos de diagnóstico, mas só um dentista pode avaliar. "Não necessariamente a pessoa vai sentir dor. Mas há aquelas que acordam com a sensação de cansaço, pois a musculatura passou pelo sobre-esforço e está respondendo com dor", afirma.
O cirurgião-dentista Glaykon Alex Vitti Stabile, doutor em Cirurgia e Traumatologia Buco-Maxilo-Facial (CTBMF) e coordenador do programa de residência do Hospital Universitário (HU) em Londrina, acrescenta que os sinais do bruxismo podem variar de pessoa para pessoa, depender da intensidade do problema e da capacidade das estruturas da boca e face em suportar a sobrecarga.
"Desgastes dentários, trincas e fraturas principalmente nos dentes da frente, acordar pela manhã já com dores de cabeça na região da testa ou acima das orelhas (têmporas), sensação de peso, cansaço ou dores no rosto ou cabeça após um dia de estudos ou trabalho também podem ser sinais", afirma Stabile, que também é coordenador do Colégio Brasileiro de CTBMF no Paraná.
Se não tratado, o bruxismo pode dar início a uma série de problemas devido à sobrecarga dos dentes, ossos, músculos, ligamentos e articulações. De acordo com o especialista, os mais comuns são desgastes dentários, fraturas de dentes e restaurações, sensibilidade dentária, dores crônicas de cabeça e na face, diminuição da capacidade mastigatória, de concentração, qualidade do sono e aumento no volume dos músculos do rosto de cabeça.
"Além disso, pode haver mobilidade e perda dentária, fratura e perda de implantes e próteses dentárias, dores e diversos tipos de problemas na articulação mandibular", completa.

