O último mês do ano é marcado por uma campanha nacional de prevenção ao vírus HIV, a Aids e outras ISTs (Infecções Sexualmente Transmissíveis). Durante o Dezembro Vermelho, a atenção é voltada para a assistência e proteção dos direitos das pessoas que têm a infecção, destacando o diagnóstico precoce e o combate ao preconceito.

Cerca de 38 milhões de pessoas no mundo vivem com o HIV, segundo a Organização Mundial da Saúde. O Boletim Epidemiológico – HIV e Aids (2024) do Ministério da Saúde aponta que, desde 1980 até 2024, o Brasil contabilizou 1.165.599 casos de infecção, com uma média anual de 36 mil novos casos nos últimos cinco anos. Em 2024, o país registrou 68,4 mil pessoas vivendo com HIV ou aids.

E também houve queda de 13% no número de óbitos por aids entre 2023 e 2024, o que representa mais de mil vidas salvas, segundo o novo boletim epidemiológico divulgado pelo Ministério da Saúde

No Paraná, de acordo com a Sesa (Secretaria de Estado da Saúde), 2010 a 2025, foram notificados 32.703 casos de Aids em adultos e 21.983 casos de HIV. A maior concentração está na faixa etária de 20 a 39 anos (65,7%). A proporção no período é de, aproximadamente, 2,5 casos do sexo masculino para cada caso do sexo feminino.

Em 2024, no Estado, foram registrados 19,9 casos por cem mil habitantes. Em 2025, dados até 17 de novembro, apontam para uma redução, sendo registrados 16,3 casos por cem mil habitantes.

‘Não era o fim’

O chefe de cozinha de 55 anos, de Londrina, conta que foi diagnosticado e trata a Aids há dez anos no Centro de Referência Dr. Bruno Piancastelli Filho, que engloba o CTA (Centro de Testagem e Aconselhamento), Ambulatório de Tuberculose, Ambulatório de IST/HIV/Aids e o atendimento do urologista municipal, que consulta casos de ISTs referenciados por UBSs. Ele conta que se viu em uma rua sem saída quando testou positivo para a doença e que o apoio dos profissionais de saúde foi essencial para seguir em frente.

“Meu ex-namorado falou que era para eu fazer o exame de HIV, que ele tinha me contaminado com o vírus. Quando eu recebi o resultado, comecei a chorar, não sabia o que fazer. Quase tentei tirar a própria vida, mas o enfermeiro falou: ‘não é um bicho de sete cabeças, levanta a cabeça e bola pra frente’”, recordou. Disse ainda que passou por muitas dificuldades quando recém-diagnosticado, mas que conseguiu “viver tranquilo”, porque “não era o fim”.

Imagem ilustrativa da imagem ‘Vivo feliz do jeito que sou’, diz ativista na luta contra a Aids
| Foto: Heloísa Gonçalves

Sendo acompanhado nas áreas da urologia e infectologia, toma somente dois remédios diariamente no âmbito da terapia antirretroviral. Em 2020, o cozinheiro recebeu a notícia de que sua carga viral passou a ser indetectável e, assim, não transmite o vírus.

“O HIV pode ser considerado uma doença crônica quando há adesão correta e o paciente se adapta bem às medicações. Fica intransmissível e não é mais encontrado nos exames de sangue”, pontuou Michele Amadeu, gerente do Programa Municipal de IST/Aids/Hepatites Virais/Tuberculose da Secretaria Municipal de Saúde. Disse ainda que “as pessoas aderentes ao tratamento certo vivem uma vida normal e acabam adoecendo e indo a óbito por outras doenças, e não pelo vírus”.

Se cuidar e viver feliz

O chefe de cozinha passou por outro teste sanguíneo duas semanas atrás, o que reforçou a indetectabilidade da doença. Contando que é uma prioridade fazer uso de preservativos em relações sexuais, afirmou que é saudável e segue na luta contra a Aids, realizando a entrega de autoestes, encaminhando pessoas que foram expostas a alguma infecção ao CTA e sendo um ombro amigo a quem precisa.

“Estou forte, bem, tenho disposição para trabalhar. Vou lutar até o fim, porque com a Aids tem que se cuidar, tomar os medicamentos certos e viver a vida, como sempre fizemos. Eu vivo feliz do jeito que eu sou”, finalizou.

Michele Amadeu, da Secretaria Municipal de Saúde: “As pessoas aderentes ao tratamento certo têm uma vida normal"
Michele Amadeu, da Secretaria Municipal de Saúde: “As pessoas aderentes ao tratamento certo têm uma vida normal" | Foto: Heloísa Gonçalves

Atendimento gratuito e especializado

O Centro de Referência presta assistência médica gratuita e especializada a pessoas com diagnóstico de HIV/Aids e demais ISTs. Os portadores têm acesso facilitado a exames em todas as UBSs e no CTA, que disponibiliza estratégias de prevenção, como a PrEP, medicação para prevenir a infecção, e a PEP (Profilaxia Pós-Exposição), que deve ser usada em até 72 horas após uma possível exposição.

O CTA realiza uma média de 300 atendimentos relacionados a testes rápidos para ISTs ao mês, contemplando o HIV, a sífilis e hepatites B e C. No ano passado, foram 3.521 exames no total. A equipe médica inclui um infectologista, psicólogo, assistente social, enfermeiros e auxiliares de enfermagem, que oferecem escuta ativa e explicações sobre janela imunológica e métodos contraceptivos de barreira.

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HIV ≠ Aids

O HIV é o Vírus da Imunodeficiência Humana e ataca o sistema imunológico, responsável por proteger o corpo contra doenças. Quando não é tratado, pode evoluir para a Aids (Síndrome da Imunodeficiência Adquirida), representando o estágio mais avançado da infecção pelo HIV.

O vírus pode ser transmitido por meio de relações sexuais desprotegidas, compartilhamento de seringas e agulhas, aleitamento materno inadvertido, transmissão vertical - da gestante para o bebê -, transfusão e doação sanguínea, ou ainda pelo recebimento de órgãos contaminados.

Transmissão vertical

O Paraná obteve a certificação referente à eliminação da transmissão vertical do HIV em 2023. Recentemente, o Ministério da Saúde anunciou que atingiu mais de 95% de cobertura em pré-natal, testagem para HIV e oferta de tratamento às gestantes que vivem com o vírus. Isso significa que o país interrompeu, de forma sustentada, a infecção de bebês durante a gestação, o parto ou a amamentação, atingindo as metas internacionais.

Com as rígidas normas de segurança instituídas pela Vigilância Sanitária do SUS e exigências de testagens durante o pré-natal, o risco de infecção pela maioria das opções foi drasticamente reduzido, com a transmissão sexual sendo responsável por quase 100% dos novos casos diagnosticados.

Terapia antirretroviral

O tratamento do HIV, mesmo se não tiver evoluído para a Aids, é feito por meio da terapia antirretroviral, com o uso diário de uma combinação de remédios que ajudam a evitar o enfraquecimento do sistema imunológico. A coordenadora do Programa Municipal que engloba o CTA, Michele Amadeu, explicou que, “com a evolução do tratamento, o paciente usa apenas um ou dois tipos de medicamentos. O termo ‘coquetel’ para o tratamento da Aids já não é aceito”.

Agendamento

O Centro de Referência Dr. Bruno Piancastelli Filho fica na Alameda Manoel Ribas, 01, região central, ao lado da Concha Acústica. O atendimento no CTA, que realiza os testes rápidos, ocorre de segunda a sexta-feira, das 7h às 13h. É necessário agendar um horário no Portal da Prefeitura.

Atividades em Londrina

A programação em Londrina para a campanha Dezembro Vermelho começou ainda em novembro, com uma iniciativa do CTA (Centro de Testagem e Aconselhamento) na Praça da Concha Acústica, região central, no dia 28. Houve a promoção de testagens rápidas de ISTs, distribuição de autotestes, orientação sobre vacina para usuários de PrEP (Profilaxia Pré-Exposição) e realização de exames do “Combo do Bigode”, que inclui hemograma, lipidograma, glicemia de jejum, creatinina e PSA (Antígeno Prostático Específico).

A mesma ação será promovida em outros pontos do município, como o Jardim União da Vitória (zona sul), assentamento Aparecidinha e Flores do Campo (ambos na região norte). “Existe a previsão do oferecimento de testes rápidos para doenças sexualmente transmissíveis em áreas de maior vulnerabilidade, porém, ainda não foram estabelecidos os dias e horário dessas ações, pois serão realizadas pela Atenção Primária, ou seja, em conjunto com as UBSs (Unidades Básicas de Saúde)”, informou Michele Amadeu.

Simpósio de HIV e AIDS da UEL contou com a presença de Vivian Feijó, secretária municipal de Saúde
Simpósio de HIV e AIDS da UEL contou com a presença de Vivian Feijó, secretária municipal de Saúde | Foto: Heloísa Gonçalves

No Dia Mundial de Luta contra a Aids, na última segunda-feira (1º), a UEL promoveu o V Simpósio de HIV e AIDS, com o mote “O Avanço da ciência e o retrocesso do preconceito”. Profissionais e alunos das áreas da saúde e ciências humanas debateram sobre temas que permeiam o vírus e a doença, com o objetivo de destacar avanços científicos e encorajar a solidariedade e eliminação do estigma.

O evento foi promovido em parceria com a Secretaria de Saúde e a COMUNIAIDS, subcomissão do Conselho Municipal de Saúde de Londrina. No grupo, estão representados membros da sociedade civil, de universidades, instituições de saúde e servidores municipais. Conta também com um único integrante que sabe como é ter a infecção, auxiliando pessoas que vivem com o HIV, mas também sendo ajudado.

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