Vivendo um falso amor
PUBLICAÇÃO
domingo, 06 de agosto de 2017
Micaela Orikasa<br>Reportagem Local 
Claudia (nome fictício), 34, aprendeu que a dor precisa ser compartilhada e que ela merece viver um amor verdadeiro. Há meses, ela tem saído de casa uma vez por semana para ir aos encontros do Mada (Mulheres que Amam Demais Anônimas), em Londrina. Junto com outras mulheres, ela ganha força e o entendimento de que não é responsável por "salvar" o casamento. Claudia vive um relacionamento abusivo há anos, mas foi somente na segunda união que ela se identificou nessa condição e conseguiu buscar ajuda.
"Meu marido era usuário de crack e toda vez que ele estava sob efeito, a culpa era minha. Ele me manipulava a ponto de eu realmente me sentir culpada por tudo de ruim que acontecia com ele. Eu não conseguia sair daquela relação porque lembrava do primeiro casamento e achava que tinha que salvar esse", comenta.
O relato de Mariana (nome fictício) também tem contornos semelhantes. Ela se submetia a certas situações, como manter relações sexuais para não perder o companheiro. "Pois ele dizia que iria procurar outra. Então, eu fazia de tudo para conquistá-lo. Perdi minha autoestima e achava que merecia tudo aquilo que estava vivendo. E isso era um padrão. Em toda relação eu me entregava totalmente, me apaixonava perdidamente e sofria muito", revela.
Essas duas histórias, felizmente, estão tomando outros rumos porque ambas encontraram uma rede de apoio no Mada. Claudia segue casada, pois o marido está em tratamento contra a dependência química há um ano. "Hoje eu tenho consciência sobre os meus limites; e com o grupo e a terapia sei o quanto estou fortalecida para conseguir viver sem ele caso tenha uma recaída ou se torne abusivo novamente", diz.
Já Mariana cortou qualquer relação com o "companheiro" e comemora a nova fase. "Não estou em nenhum relacionamento agora, mas me sinto mais segura. Sei que não preciso me sacrificar para conquistar ninguém", conta.
A coordenadora do Mada em Londrina, Sarah Carvalho, abriu o grupo em outubro de 2016, o que possibilitou já ajudar mais de 20 mulheres. Os encontros são semanais, sem custo e abertos para aquelas que se identificam com o tema.
O grupo é um braço do Mada Brasil e é estruturado com 12 passos, como acontece no AA (Alcóolicos Anônimos), porém, o objetivo é atender mulheres que vivem relacionamentos destrutivos. "Por ser um grupo de espelho, não podemos dar conselhos durante as reuniões. A ideia é uma escutar a outra como uma troca de experiências e espaço para desabafo. Com isso, aprendemos a nos conhecer e descobrir o porquê de algumas escolhas", ressalta.

ASSIMETRIA DE PODER
A psicóloga Mirtes Viviani Menezes, que atua há nove anos no CAM (Centro de Referência Especializado de Atendimento à Mulher) em Londrina, afirma que uma grande dificuldade em um relacionamento abusivo é a pessoa se identificar nessa condição. "Muitas vezes, o abuso é silencioso, sutil. Então, a mulher começa a ser cerceada de seus direitos, como visitar familiares, ter amigos ou mesmo vestir certas roupas, travestido pela noção de cuidado, de amor", aponta.
Ela destaca que cada casal tem o seu arranjo, sua dinâmica e que por isso, não há nenhum problema quando algumas escolhas são pactuadas, ou seja, de comum acordo, deliberada por ambas partes.
Fernanda de Mello Nogueira, psicóloga que também atua no CAM, acrescenta que nos relacionamentos abusivos há sempre uma assimetria de poder. "Esse é um aspecto importante que ajuda a identificar tal condição. Nenhum relacionamento violento começa com um tapa na cara. As coisas começam através de um controle, de um isolamento", afirma.
As profissionais destacam ainda que os abusos que se dão nos relacionamentos independem de gênero e vínculo existente. Entretanto, historicamente, as mulheres são a maior parte das vítimas.
Dados do Ligue 180 da SPM (Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres) de 2015 revelam que dos 76.651 relatos registrados, 50,15% eram violência física; 30,33% psicológica; 7,25% moral; 5,17% cárcere privado e 4,54% sexual.
Ainda de acordo com o levantamento, em 72% dos casos as violências foram cometidas por homens com quem as vítimas têm ou tiveram algum vínculo afetivo, sendo companheiros atuais ou ex, cônjuges, namorados ou amantes.

SERVIÇO:
As reuniões do Mada em Londrina acontecem toda segunda-feira, às 19h30, na Rua Brasil, 658. Mais informações pelo e-mail [email protected] ou www.grupomadabrasil.com.br
Além de denúncias, o Ligue 180 da Secretaria de Políticas para as Mulheres serve como um canal de orientação sobre direitos e serviços públicos para a população feminina em todo o País.


