Eles não viveram a epidemia de aids no passado. Não viram, por exemplo, famosos como Cazuza ou Freddie Mercury morrendo da doença. Além disso, a maioria dos soropositivos que os jovens conhecem hoje está levando uma vida normal com os avanços no tratamento.
Sendo assim, qual é a relação dos jovens com a doença, que nas décadas de 1970 e 1980 mudou comportamentos e matou milhões de pessoas? Essa resposta pode ter inúmeros direcionamentos, mas o que mais importante agora é o que eles pensam e sabem sobre prevenção da aids.
Na próxima semana, em 1º de dezembro, será comemorado o Dia Mundial de Luta contra a Aids e o objetivo do Ministério da Saúde (MS) é falar justamente com esse público. Com o slogan #partiu teste, se espera trabalhar intensivamente a população de 15 a 24 anos, onde o número de novos casos tem aumentado.
Um panorama de HIV/Aids no País, divulgado pelo MS, revela que em nove anos, ou seja, de 2004 a 2013, 961 novos casos foram diagnosticados entre jovens de 15 a 24 anos. É um crescimento de 27,83%.
"Nacionalmente, a epidemia está estabilizada há muitos anos. Porém, têm algumas populações que chamam atenção, como os jovens, um público onde a aids tem crescido. Temos também os usuários de drogas, como o crack, que estão diretamente ligados com sexo, pois funciona muitas vezes como uma troca", diz Fábio Mesquita, diretor do Departamento de DST, Aids e Hepatites Virais (DDAHV)do MS.
Ele acrescenta, ainda, os jovens homossexuais, travestis e transsexuais, que, pelo crescimento bastante importante entre a população, apresentam prevalência de soropositivos em torno de 11%, nacionalmente.
"Profissionais do sexo, principalmente homens, também se destacam. As mulheres são historicamente, dentro dessas populações-chave, a que melhor se protege. Elas usam camisinha em todas as relações, já os do sexo masculino nem tanto", completa.
No Paraná, considerando pessoas de 15 a 19 anos, a cada 100 mil habitantes, o número de casos saltou de 10 para 15, somente de 2013 para 2014.
Já em Londrina, dados divulgados pelo Centro de Testagem e Aconselhamento (CTA), que é referência em toda a 17ª Regional de Saúde, mostram que entre homens e mulheres de 15 a 24 anos, os casos passaram de 22 em 2013 para 34, no ano passado, uma alta de mais de 54%.
"Nos últimos cinco anos, temos visto uma demanda aumentada de jovens que procuram os testes rápidos e tratamento, mas sentimos também que ainda existe uma população vulnerável (de jovens) que não estamos conseguindo atingir, pois saúde não se faz sozinho. Se constrói em conjunto", comenta Hilda de Cassia Baptistotti, gerente do Programa DST/HIV/Aids, Hepatites Virais e Tuberculose do CTA, em Londrina.

VIDA SEXUAL MAIS CEDO


Um ponto de partida entre entidades e os governos federal, estadual e municipal, para trabalhar os nascidos no final dos anos 1990 e início do ano 2000, é porque eles estão iniciando a vida sexual cada vez mais cedo. Prova disso é uma pesquisa realizada em 2008, pelo DDAHV, com oito mil brasileiros entre 15 e 64 anos. Das respostas, 36,9% afirmaram que tiveram relação sexual antes dos 15 anos.
"Eles não só começam a praticar sexo mais cedo, como também não usam camisinha. Isso os leva a um comportamento de risco, especialmente nas regiões de periferia, de maior vulnerabilidade", observa Paulo Wesley Faccio, membro da Associação Londrinense Interdisciplinar de Aids (Alia), primeira ONG da região Sul a lidar com a questão da epidemia do vírus HIV. Para ele, o ponto-chave é facilitar o acesso dos jovens ao preservativo.
A Pesquisa de Conhecimentos, Atitudes e Práticas na População Brasileira (PCAP), de 2013, traça um panorama do comportamento sexual do brasileiro, e revela que, na região Sul, 96% das pessoas sabem da importância do uso do preservativo.
No entanto, 40% da população sexualmente ativa não fez uso da camisinha em todas as relações sexuais com parceiros casuais, no último ano. Associado a este comportamento, o estudo ainda aponta um crescimento no número de parceiros sexuais.
Os entrevistados – 12 mil pessoas entre 15 e 64 anos – relataram ter tido mais de dez parceiros na vida. O percentual subiu de 16% em 2004 para 25% em 2008, atingindo 49% no ano de 2013.
"Embora a maioria saiba sobre a importância da camisinha, 40% não usa. Portanto, não funciona somente apostar no preservativo. Hoje, consideramos e temos estratégias combinadas de prevenção", frisa Mesquita, do MS.
Ele esteve em Londrina, recentemente, ministrando uma palestra sobre redução de danos. Mesquita se formou em 1982, na Universidade Estadual de Londrina (UEL), e sete anos depois, conquistou prestígio por seu trabalho na área. Ele esteve à frente do projeto inédito de redução de danos para diminuir a epidemia no País, desenvolvido em Santos (SP), enquanto era coordenador municipal de DST/Aids.

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