UEL estuda terapias alternativas para perda do olfato
Além de validar três terapias em pacientes com anosmia persistente, projeto pretende analisar os efeitos do uso crônico de descongestionantes nasais
PUBLICAÇÃO
domingo, 09 de agosto de 2026
Além de validar três terapias em pacientes com anosmia persistente, projeto pretende analisar os efeitos do uso crônico de descongestionantes nasais

Um projeto da Universidade Estadual de Londrina (UEL) pretende dar soluções para a perda do olfato apontando novos tratamentos, além de analisar malefícios que os tratamentos tradicionais possuem. A anosmia persistente ficou mais conhecida durante a pandemia da Covid-19, porque a ausência de olfato era indicativo de que a pessoa estava infectada com o coronavírus. Há outras razões para a perda olfativa, como sinusites alérgicas e bacterianas, ou até mesmo a perda resultante de um trauma na cabeça com rompimento de nervos. Na maioria dos casos, a perda é temporária, mas em alguns ela persiste, como no da Covid-19, em que 5% dos infectados com a doença continuam sem o olfato mesmo após a cura da infecção.
Coordenado pelo professor do Departamento de Clínica Cirúrgica do Centro de Ciências da Saúde (CCS), Marco Aurélio Fornazieri, o projeto “Terapias Inovadoras para Recuperação da Função Olfativa e Investigação dos Efeitos de Medicamentos Tópicos Nasais no Epitélio Olfativo” abordará a questão em duas frentes. A primeira será a validação de três novas terapias para a recuperação da função olfativa em pacientes com anosmia persistente: a fotobiomodulação (TFBM), a insulina intranasal e o plasma rico em plaquetas (PRP).
Fotobiomodulação
A fotobiomodulação é uma laserterapia de baixa potência, cuja radiação em contato com epitélio olfatório ativa funções celulares. Para explicar o funcionamento da técnica, o professor Marco Fornazieri faz uma analogia com a fotossíntese e as plantas: “Quando a luz bate na folha, estimula a clorofila para gerar todo aquele ciclo de produção de oxigênio. Na laserterapia, a luz estimula uma enzima dentro da mitocôndria da célula, o que aumenta o metabolismo celular, produzindo a regeneração das células olfatórias”, explica.
Insulina intranasal
Outra técnica a ser analisada, a insulina intranasal, tem a mesma função da fotobiomodulação. Segundo o coordenador do projeto, é a mesma utilizada em pacientes com diabetes e será inserida em pequenas esponjas que serão aplicadas diretamente no epitélio olfativo, já que as células desse tecido possuem muitos receptores de insulina.
Plasma rico em plaquetas
Segundo Marco Fornazieri, a terapia baseada no plasma rico em plaquetas consiste em retirar uma parte do sangue, o plasma, que contém as plaquetas, e aplicá-lo no tecido olfativo através de infiltração. As plaquetas são neurotróficas, ou seja, alimentam neurônios, e como as células do epitélio olfatório são nervosas (possuem uma ligação direta com o cérebro), elas se beneficiariam aumentando seu tamanho e, por consequência, contribuindo para a otimização da regeneração provocada com o auxílio das outras duas técnicas.
Conforme Marco Fornazieri, as três técnicas não são desconhecidas, pois já são utilizadas para outros procedimentos médicos, mas o uso da PRP para o sistema olfativo é novo. Ao contrário da fotobiomodulação, que utilizará ratos, os testes com a insulina intranasal e a PRP serão feitos em humanos.
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Efeitos dos descongestionantes nasais
A outra vertente do projeto analisará os efeitos do uso crônico de descongestionantes nasais. Esses medicamentos, amplamente usados para alívio de sintomas gripais, estão associados a danos ao epitélio olfativo quando usados de forma prolongada.
“Inicialmente, quando você usa o remédio, as narinas se abrem muito, como se ‘abrisse uma avenida no nariz’, aumentando a respiração. Mas depois de uma semana, quando passa o efeito, o nariz entope novamente e de forma mais intensa. E aí a pessoa usa mais e mais”, explica o pesquisador.
Sabor dos alimentos
As pessoas podem viver sem olfato mas, sem ele, a qualidade de vida piora. Segundo Marco Fornazieri, o olfato é responsável por cerca de 90% do sabor dos alimentos, portanto sua ausência retira da pessoa os prazeres gastronômicos.
Essa perda pode até afetar a saúde indiretamente, já que a falta de olfato pode causar hábitos alimentares prejudiciais, como comer mais sal ou açúcar para tentar compensar a diminuição do sabor dos alimentos. A ausência do sentido traria restrições até do ponto de vista afetivo, como no caso de uma mãe que não consegue sentir o cheiro do seu bebê.

Função de defesa
Para além de prazeres e emoções, o olfato tem primordialmente a função de defesa, de avisar do perigo. Ele evita que consumamos alimentos estragados e nos avisa do risco de incêndio ao sentirmos o cheiro de algo queimado, por exemplo.
Ainda há os transtornos higiênicos, pois não saber os cheiros que o próprio corpo exala pode causar incômodos. “A pessoa fica insegura em relação à própria higiene, se está com mau cheiro ou não. E é comum pacientes meus chegarem no consultório com muito perfume, porque não conseguem calibrar o quanto usar”, exemplifica o professor.
Protocolos clínicos
Como resultados, o projeto visa a criação de protocolos clínicos para a aplicação de terapias regenerativas e uma base científica sólida para práticas mais seguras com medicamentos nasais. Além disso, a validação das terapias pode trazer impactos nos custos do SUS, já que evitariam tratamentos longos, que podem durar anos.
Sobre a importância do projeto, o professor aponta um motivo, de cunho acadêmico: “O foco é formar, incentivar alunos que tenham a mesma vocação de querer evoluir no tratamento das doenças. Eu estimulo os alunos, para que, como médicos, eles tenham essa visão, de se preocuparem com o que podem fazer em termos de tratamento novo para melhorar a vida das pessoas”, comenta.
O projeto terá a parceria da Universidade de São Paulo (USP), que oferecerá suporte remoto com recursos humanos, além de consultoria técnica para o planejamento dos experimentos e para a avaliação de metodologias. Contará também com o apoio da Universidade da Pensilvânia (EUA), que contribuirá para a análise e validação dos resultados.
(Com informações da Agência UEL)





