Tratamento global é a melhor receita
O autismo é um transtorno do desenvolvimento cerebral que geralmente tem início no primeiro e segundo ano de vida e possui um componente genético bastante expressivo, comprometendo as habilidades de comunicação e interação social. As alterações genéticas muitas vezes não são herdadas, mas espontâneas no momento da concepção.
Um aspecto fundamental é o diagnóstico precoce, pois uma vez identificado o Transtorno do Espectro do Autismo (TEA) é possível trabalhar melhor o desenvolvimento da linguagem, das habilidades sociais e reduzir comportamentos característicos do autismo.
"Ainda há uma dificuldade muito grande dos próprios pais aceitarem o diagnóstico, mas também há um atraso nesta identificação. Com isso, perde-se momentos preciosos do desenvolvimento cerebral quando as intervenções seriam mais efetivas", comenta o psiquiatra Guilherme Vanoni Polanczyk.
De acordo com ele, em relação as habilidades sociais estudos demonstram que a intervenção comportamental chamada ABA (traduzido do inglês como Análise Aplicada do Comportamento) é um tratamento de primeira linha que deve ser implantado de forma efetiva em diferentes locais, como escola, casa e outros ambientes onde a criança está inserida. Além disso, envolve vários profissionais, assim como os pais e demais cuidadores.
A psicóloga Luciana Helena da Silva, analista do comportamento e especialista em neuropsicopedagogia explica que a ABA trata-se de uma abordagem científica que atua no campo da psicologia. "A ideia é avaliar o comportamento de uma forma geral. É estipulado um programa de trabalho com essa criança que engloba objetivos de curto, médio e longo prazo", diz.
Existem vários níveis de comprometimento do TEA e, portanto, deve-se sempre reforçar o tratamento global, em conjunto com outras especialidades. De acordo com ela, ao pensar em comportamento (processo de aprendizagem no qual o indivíduo aprende a interagir com o mundo, com a sociedade e eventos da vida) como um todo, há uma grande preocupação com as variáveis (fatores que podem influenciar esse comportamento de forma positiva e negativa).
E entre essas variáveis está a alimentação. Para ela, o comportamento é um reflexo de todo o conjunto de mecanismos envolvidos (biológicos, individuais, psicológicos, sociais e culturais) tanto em um aspecto micro, por exemplo, a família, quanto macro, a sociedade em geral.
"A alimentação é muito importante porque vai suprir esse mecanismo fisiológico que influencia o neurológico. Algumas pesquisas sugerem que substâncias, como a caseína e o glúten, acabam influenciando o sistema nervoso central, no sentido de aumentar a hiperatividade e a inibição de alguns neurotransmissores importantes para o equilíbrio emocional", ressalta.
Porém, ela reforça que o tratamento deve sempre estar em conjunto com outras especialidades, já que cada criança tem sua especificidade. "A alimentação não é uma cura. Mas a gente entende que quando o trabalho é feito com outras intervenções associadas, é possível desenvolver melhor o trabalho clínico porque a criança tem mais condições de concentração. Se o cérebro fica menos excitado, a criança tem condições de se concentrar mais, pois a atenção é a porta para o aprendizado", completa. (M.O.)




