Teste da linguinha opõe fonoaudiólogos e pediatras
PUBLICAÇÃO
domingo, 16 de fevereiro de 2014
Michelle Aligleri<br>Reportagem Local 
Pediatras e fonoaudiólogos divergem a respeito da criação de uma lei que exige a realização do teste da linguinha em todas as maternidades do País. O exame consiste na avaliação da boca do recém-nascido para identificar se ele apresenta língua presa. Se por um lado os pediatras afirmam que este exame já é realizado pelos médicos durante avaliação geral do bebê, por outro os fonoaudiólogos defendem a criação de um protocolo para que todos os profissionais examinem a criança da mesma forma. O projeto de lei que determina o protocolo que uniformiza a realização deste exame já foi aprovado pela Câmara dos Deputados e aguarda votação no Senado. Como o assunto ainda está em tramitação, o Ministério da Saúde não se manifesta sobre o tema.
A questão coloca as duas categorias profissionais frente a frente e neste embate, cada qual defende seu ponto de vista. Além do fator prático, médicos e fonoaudiólogos também possuem opiniões contrárias a respeito da importância do exame que analisa o freio da língua do bebê. Para o presidente da Sociedade Brasileira de Pediatria, Eduardo Vaz, a lei é desnecessária. "Eu acho que a idealização deste protocolo não é importante. Além disso, para a maioria das crianças que apresenta o freio da língua curto não é necessário fazer absolutamente nada. A preocupação que nós temos é que esta lei acarrete no corte do freio da língua de crianças que não precisam", comenta.
A autora do teste da linguinha e membro da Sociedade Brasileira de Fonoaudiologia, Roberta Lopes de Castro Martinelli, explica que as crianças diagnosticadas com a alteração lingual precisam fazer acompanhamento com fonoaudiólogo. "Os exercícios ajudam a língua como um todo, mas não são eficientes para resolver o problema referente ao freio curto. Fizemos uma pesquisa recente e constatamos que os bebês com este tipo de alteração possuem fibras musculares e colágenas que não permitem que o frênulo (freio) se alongue com os exercícios, por isso a cirurgia é indicada em algumas situações", salienta.
O médico pediatra Renato Moriya explica que o exame da língua do bebê é realizado junto com os demais exames no recém-nascido. "Quando identificamos que a criança tem o freio da língua irregular, fazemos a correção ainda no berçário. Este é o momento mais adequado para fazer o procedimento", frisa.
As entidades divergem ainda a respeito das possíveis limitações que esta alteração traz ao desenvolvimento infantil. Conforme Roberta, o freio curto limita os movimentos da língua, o que atrapalha na fala e na amamentação. "Fizemos um estudo e constatamos que existe limitação da criança para sugar. O ciclo de alimentação deste bebê não é bom e ele apresenta menor número de sucções e maior pausa entre um grupo de sucção e outro", explica. Para Eduardo Vaz, não se deve responsabilizar a criança com língua presa pela dificuldade na amamentação. "A mãe na maioria das vezes não sabe amamentar corretamente, não coloca a criança na posição adequada ou utiliza mamadeiras e "chuquinhas" que acarretam na maior dificuldade do bebê pegar o bico do seio", defende o pediatra.
Preconceito
A fonoaudióloga acrescenta que a criança que não consegue fazer os movimentos adequados com a língua acaba tendo a fala prejudicada. "O que chega nos nossos consultórios são crianças que apresentam distorções de fala e que inclusive sofrem bullying por conta disso", ressalta. Conforme ela, os estudos envolvendo a questão da língua presa já são realizados no Brasil há 30 anos. "Quando a criança já passou pela fase de desenvolvimento da fala e adquiriu sons de maneira distorcida nós indicamos a cirurgia. Os exercícios ajudam, mas não resolvem 100%, por isso é recomendada a realização de cirurgia", comenta. Conforme ela, quanto mais tarde o problema for diagnosticado mais difícil fica o tratamento. "O nosso objetivo é padronizar este teste porque desta forma teremos não apenas o diagnóstico precoce, mas também os valores da incidência e prevalência desta patologia", explica.
Outros testes
Eduardo Vaz considera mais importante do que a lei que regulamenta o teste da linguinha a ampliação das leis referentes a exames que constituem testes que já são realizados nas maternidades. "Precisamos ampliar o número de doenças diagnosticadas pelo teste do pezinho. Há Estados que diagnosticam apenas três doenças neste exame. Além disso, o teste do coraçãozinho deve ser nacional, sabemos que 10% das crianças nascem com cardiopatia congênita e dessas, 3% têm doenças cardíacas que podem ameaçar a vida. Os testes do olhinho e da orelhinha também merecem toda a nossa atenção" ressalta. Conforme ele, a Sociedade Brasileira de Pediatria tem trabalhado para formar profissionais mais capacitados para que as crianças sejam melhor atendidas. "É preciso que o governo federal, Estados e municípios remunerem adequadamente para que tenhamos mais pediatras atendendo na rede pública", complementa.

