Sintomas podem levar a diagnóstico e tratamento errado
Valdereza Martins da Cunha, de 54 anos, é uma mulher lutadora. De natureza simples e com um sorriso sempre no rosto, ela conta que já trabalhou como babá, empregada doméstica e manicure. Val, como prefere ser chamada, precisou deixar o trabalho para cuidar de si.
A descoberta da anemia falciforme veio por acaso, em uma viagem de avião que ela fez com os patrões, quando tinha 25 anos. ''Eu passei mal durante toda a viagem, quando chegamos em Belo Horizonte (MG) me levaram ao hospital e o médico que me atendeu fez o correto diagnóstico. Eu tive muita sorte porque naquela época esta doença não era muito conhecida, mas como o médico tinha feito um trabalho na África, acabou identificando que eu tinha a anemia falciforme'', comenta.
Val nasceu com a doença e sempre conviveu com os sintomas de dores fortes pelo corpo e falta de ar, mas ela não poderia imaginar que a origem do sofrimento estava na transmissão de um gen defeituoso de seus pais. ''Antes de descobrir o que eu realmente tinha, os médicos me tratavam como se tivesse problemas reumáticos. Por dez anos, eu tomei injeções duas vezes por mês para tratar reumatismo'', lembra. De acordo com ela, a crise de dor se estende por sete dias e aparece geralmente quando ela passa por uma situação de estafa. ''Depois de tantos anos, eu aprendi a controlar o estresse'', comenta.
As transfusões de sangue são importantes para pacientes que apresentam anemia falciforme, Val afirma que já chegou a fazer três transfusões em um único mês e a última foi realizada em novembro de 2012. ''A doença causa alguns efeitos no organismo, como o depósito de ferro nos órgãos, por isso eu preciso tomar um medicamento que elimina o excesso de ferro do corpo, mas este remédio tem muitos efeitos colaterais''.
Quem olha para Val não imagina que ela é portadora de uma doença tão séria, mas a anemia falciforme já deixou marcas no corpo dela. ''Por conta da doença eu tive necrose na cabeça do fêmur e em um osso do braço, hoje eu tenho próteses nos dois lugares e preciso fazer fisioterapia constantemente. A pressão alta que eu tenho também é consequência da doença'', explica. Paciente do Sistema Único de Saúde (SUS), ela reclama que é preciso sempre comprovar a necessidade de fazer fisioterapia, já que depois de uma determinada quantidade de sessões, o benefício é suspenso e ela é obrigada a entrar com nova solicitação.
Val tem dois primos que também são portadores da forma grave da anemia falciforme, eles possuem mais problemas relacionados à doença do que ela. ''Apesar da anemia, eu consigo levar uma vida normal, mas quando vou ao médico encontro pessoas que não conseguem. A dor que passamos é terrível, eu não tenho filhos, mas hoje cheguei à conclusão que esta foi uma boa escolha. Eu não teria condições de cuidar de uma criança que poderia nascer doente como eu'', conclui. (M.A.)




