Entra no mercado Shangri-lá pela porta principal, aquela da pracinha, e contempla o mundo das cores, das flores. Vasos no chão exalam perfume, sedução. Você quase tropeça num. Verde, vida, ambiente diferente, diferenciado. Dá para sentir. Alguns passos mais e dá de cara com a grelha da casa de carnes, a degustação: o cheiro agora é o da culinária, tentação.
  Antes não resiste e corre os olhos para as manchetes dos jornais, revistas semanais. É domingo, afinal, e ainda não as viu na Internet.
  Além disso está todo mundo aí lendo e fazendo algum tipo de comentário. Massa crítica geralmente bem-humorada.
  Mais à frente, corredor estreito, os olhos agora são para o colorido das alfaces, tomate, uma diversidade de frutas e legumes frescos.
  Alternam-se bandejas com pedaços de abacaxi, mangas. Vendedor grita no ouvido mas tem, mais à frente, queijos e vinhos. Tudo isso antes de chegar ao pastel quentinho.
  Comida no mercado Shangri-lá é de uma dimensão que não é lógica, pragmática. É o templo do paladar, do sabor.
  As pessoas não se alimentam, comem.
  E depois da ingestão de tudo aquilo - quilos! - chega em casa e tem coragem de dizer que não almoçou. De fato não há restaurante no Shangri-lá. É verdade que muitos se fartaram do peixe assado ou sashimi... mas, convenhamos, não foi um almoço. Simplesmente comeram.
  O mercado do Shangri-lá não é só isso. É um ponto de encontros.
  As pessoas têm muitos adjetivos para definições semelhantes, como a do empresário Raul Fulgêncio: ‘‘Estando em Londrina, passo por aqui. Pela qualidade e porque aqui encontro amigos maravilhosos como o nosso poeta Dinho (Domingos Pellegrini Júnior)’’.
  É um ponto de encontro: ‘‘A degustação, os produtos, são uma manifestação de afetividade’’, define Raul. ‘‘Aqui temos o melhor peixe e o melhor pastel do Brasil...’’.
  Ufanismo londrinense à parte, a observação de Raul remete para o que dissera, pouco antes, a comerciante Natalina Mendonça, a Tica, há 24 anos no local, herdeira de uma das primeiras quitandas: ‘‘A gente não vende, a gente atende as pessoas com tratamento vip’’.
  O odontólogo e poeta tem a visão do conjunto: ‘‘O Shangri-lá vem incorporando ingredientes ao viver londrinense. É ponto de gastronomia, cultura e lazer’’.
  Já Ossamu Assada (Dino), acha o local aconchegante e seguro.
  E Walter, o do peixe - a que Raul se refere como ‘‘único’’ -, lembra que a freqüência aumentou depois das reformas feitas pelos próprios comerciantes. ‘‘O Cheida (Luiz Eduardo), quando prefeito, queria ampliar, modernizar’’ - lembra. Mas houve acordo e os comerciantes tocaram por conta a restauração: deixaram as instalações com a ‘‘cara’’ que eles entendiam agradar o público. Acertaram.
  A esta altura, um freguês intervém: ‘‘Esses corredores apertados, mesas dificultando a passagem das pessoas, isto não é desconforto é aconchego’’.
  Pode ser, mas e o preço das coisas: Ora, alguém está preocupado com preço?
  Para o flamenguista Medeiros, da banca de jornais, o Shangri-lá deu certo porque o poder público não interferiu. ‘‘O da Vila Casoni, muitos anos atrás, não deu certo. O Quebec está num bairro rico e não tem essa característica. Por que? Porque são mercados municipais’’, afirma.
  Mas, nesse domingo o freqüentador mais ilustre está lá na entrada, ao som de jazz, lançando o ‘‘Terra Vermelha’’.
  ‘‘É a terceira vez que venho apresentar meus livros aqui. O ‘Tempero do Tempo’ vendeu 116 exemplares numa manhã como esta. Já no dia do ‘Notícias da Chácara’, tinha ocorrido uma geada forte e havia um vento frio...’’.
  Entre autógrafos regados a ‘‘Clos de Nobres’’, Dinho define o local, a pedido do repórter: ‘‘Aqui é o local onde se encontra a vida’’.
  A conversa é interrompida por pessoas que querem autografar o livro. Ou por votos do tipo ‘‘Estamos torcendo muito por você!’’, pela candidatura à Academia Brasileira de Letras.
  ‘‘Eu gosto de mercado, em todas as cidades que vou visito um. Em Florianópolis vou no box 32, tem cada vinho!’’
  O repórter: Mas aqui...
  Dinho: Aqui se dá o milagre da natureza que transforma o mineral em orgânico. É milagre. Caramba, você está entrevistando...
  O local tem história, construída pelos Assada, Furuta, Mendonça, Onishi, Shiroma, Yamamura, Hirayama e outros. Na origem foi um ponto de apoio para os feirantes, que dividia o espaço com alojamentos do 5º Batalhão da Polícia Militar - contam Walter e Dino. Depois foi ampliando. O prédio é de 1953, em terreno doado por Lucílio de Held. O mercado começou em 1968.

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