Ser solidário pode ser a maior ‘lição’ do coronavírus
Quando uma pandemia se instala, o instinto de sobrevivência do ser humano se revela em egoísmo e individualismo. A boa notícia é que muita gente tem feito o movimento contrário, pensando no coletivo
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segunda-feira, 23 de março de 2020
Quando uma pandemia se instala, o instinto de sobrevivência do ser humano se revela em egoísmo e individualismo. A boa notícia é que muita gente tem feito o movimento contrário, pensando no coletivo
Micaela Orikasa - Grupo Folha 
O que o coronavírus tem para nos ensinar enquanto indivíduos e sociedade? Na mesma velocidade que a ciência coloca uma "lupa" sobre esse novo inimigo mundial, a população tem encarado uma verdadeira corrida para estocar alimentos e produtos de higiene com a intenção de se prevenir. Um comportamento que é revestido pelo egoísmo e individualismo.

Mas por qual motivo nos comportamos assim? O professor de Antropologia da PUC (Pontifícia Universidade Católica do Paraná) - campus Londrina, Valdecir Ferreira, explica que muito mais que seguir instruções do Ministério da Saúde e OMS (Organização Mundial da Saúde), as pessoas preferem "alimentar" essa maneira de ser, a partir do instinto básico de sobrevivência, que é estocar coisas como se um produto fosse salvá-las.
Por essa razão, a população de uma forma geral acaba não percebendo que as questões relacionadas à pandemia nos influenciam em tudo. Dos relacionamentos à economia. “Num primeiro momento, custamos a perceber a gravidade da situação com nosso jeito brasileiro de ser, de levar tudo com otimismo. Acreditamos por um momento que o vírus não chegaria e, quando ele bate à nossa porta, vem o desespero. Vivendo esse tempo, acabamos nos apegando à realidade dos fatos mais pelo sentimento do que pela situação objetiva que se tem. E esse instinto de sobrevivência acaba gerando uma situação de egoísmo”, analisa.
E como resolver? Segundo o antropólogo, alguns princípios orientam a vida do ser humano como a questão da compaixão, da empatia e da solidariedade. “São palavras para serem colocadas não só no vocabulário, mas para atingir uma dimensão existencial”, ressalta.

CORRENTE SOLIDÁRIA
Como exemplos a serem multiplicados, muitos brasileiros vão na contramão do egoísmo, colocando a solidariedade para fora de casa. Najila Bisca, que mora na região central em Londrina, deu início a uma corrente solidária no próprio prédio. Ela fixou uma mensagem no elevador se colocando à disposição para ajudar os moradores idosos ou doentes, com compras de mercado e farmácia.
“Só tem um jeito de cuidar da gente, que é cuidando do outro, especialmente aqueles que estão no grupo de risco”, diz. As linhas em branco deixadas no fim da mensagem tinham a intenção de motivar os vizinhos. “Coloquei somente quatro linhas para outros moradores se manifestarem, mas em dois dias já havia 11 pessoas dispostas a ajudar”, conta a psicóloga, que já atendeu alguns pedidos da vizinha Wanda, que é idosa e mora sozinha.
“Hoje, vivemos um momento em que o mercado pode disponibilizar compras via internet e alguns idosos têm esse conhecimento, mas muitos outros não têm. A gente vai conseguir enfrentar essa situação se ajudando”, afirma.
CONTRIBUIR DE ALGUMA FORMA
A dentista recém-formada Marcela de Oliveira Ferreira está à procura de trabalho voluntário enquanto os atendimentos na clínica estão reduzidos pela pandemia. “Prefiro ajudar do que ficar em casa. Quero contribuir de alguma forma, mesmo que seja para tranquilizar as pessoas”, diz a jovem, acrescentando que o pensar coletivo é uma das qualidades das novas gerações. “Acho que tem muitos jovens como eu que têm se colocado à disposição”.
Na visão do antropólogo, a juventude é sempre inovadora, pois historicamente constrói momentos de diferença com tom altruísta, filantrópico e idealista. “A juventude traz uma marca muito forte do otimismo e nesse momento, toda solidariedade possível é bem-vinda e se for dos nossos jovens que estão fora de risco imediato, melhor ainda”, ressalta.
PEQUENOS ESFORÇOS
Para o psicanalista Christian Dunker, professor do Instituto de Psicologia da USP (Universidade de São Paulo), pequenos esforços de união entre as pessoas em momentos de crise levam as pessoas a redescobrirem que existe "mais unidade dentro das diferenças".
"O que estamos vivendo é um projeto de recuperação do que é comum. Todos nós estamos sendo afetados por essa pandemia do coronavírus. Não existe diferença alguma entre ricos e pobres e pouco importam as divergências políticas." Talvez seja essa a grande “lição” que o coronavírus, pode deixar para a humanidade.
EM PONTA GROSSA
Em Ponta Grossa (Campos Gerais), a ideia de ajudar o próximo começou na calçada da arteterapeuta Suellen Galvão Jansen, 37, e vem atraindo pessoas de outros bairros. Ela juntou itens da despensa como absorventes, sabonetes, produtos de limpeza e alimentos e os colocou em uma prateleira improvisada por ela, em frente de casa.

“Coloquei plaquinhas com os dizeres ‘não estou usando esses alimentos, pode se servir à vontade’ e ‘doe alimentos e materiais de higiene aqui para quem mais precisa’. O tempo todo tem gente trazendo produtos para abastecer”, conta.
A calçada onde Jansen mora é, segundo ela, estratégica porque fica no bairro Orsas (região central), por onde passam diariamente famílias de baixa renda. E para a surpresa dela, os sabonetes foram os primeiros que sumiram da prateleira solidária.
“Eu pensei justamente em fazer um movimento contrário do que temos visto. Vamos colocar coisas boas para que as pessoas consigam se inspirar e propagar a mensagem de amor e solidariedade. Não estou fazendo nada além do que todos deveriam fazer como ser humano. É o mínimo do mínimo. A atitude está dentro das pessoas, é só ativar”, destaca. (Com Folhapress)


