A regulamentação do uso medicinal da maconha nunca foi tão discutida como agora. Porém, os estudos relacionados aos seus efeitos são tão antigos quanto à sua proibição. Em 1843, um médico holandês descreveu o que seria o primeiro artigo científico do Ocidente sobre o uso terapêutico da Cannabis sativa. Ele havia descoberto que essa variedade da planta era utilizada para tratar algumas doenças na Índia.
Em linhas gerais, após as Guerras do Ópio, no século 19, as nações passaram a discutir medidas para combater os entorpecentes e uma nova postura sobre o cultivo e o consumo foi delineando os "rumos" da maconha. Na Convenção Única de Entorpecentes, nos anos 1960, a Cannabis surgiu então, na lista de drogas perigosas, juntamente com a heroína.
Uma publicação do Ministério da Justiça descreve que, em 1938, um Decreto-Lei do governo federal "proibiu totalmente o plantio, cultivo, colheita e exploração por particulares da maconha, em todo território nacional". Mas o fato é que as pesquisas nunca pararam.
E o "pontapé" para reacender a discussão sobre seu uso medicinal de uma de suas substâncias foi o caso de uma garotinha de Colorado (Estados Unidos) que sofre de uma forma rara de epilepsia e fazia uso de óleo de maconha medicinal. O tratamento reduziu de 300 desmaios semanais para três. Este caso ganhou fama há um ano e logo se formou uma corrida de pais interessados no tratamento com substâncias extraídas da maconha.
"A maneira como essa proibição povoou politicamente a ciência, contribuiu para um certo atraso. Muitos acham que estamos querendo fazer apologia ao uso e não é isso. Se existe um uso medicinal, as pessoas precisam saber, precisam ser bem orientadas e, para isso, precisamos de regulamentação. Acho que está na hora de deixar o discurso alarmista para dar lugar a um discurso humanista, que se preocupe com o bem-estar da população e tenha os limites dentro do racional e não do moralismo", comenta o neurocientista Renato Malcher-Lopes, da Universidade de Brasília (UNB). (M.O.)

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