Ele corre por nossas veias desde que fomos gerados e sem ele não há chance alguma de vida. Tão estudado pela ciência, o sangue está sempre em evidência, seja nas pesquisas mais inusitadas ou mesmo na crendice popular. Uma das últimas novidades sobre o material biológico é uma pomada à base de sangue que promete auxiliar na cicatrização de feridas persistentes. Mas quando falamos de sangue percorremos um universo gigantesco de variantes que vai desde tratamentos, dietas de acordo com o tipo sanguíneo até dúvidas na hora de doá-lo. A reportagem da FOLHA conversou com um hematologista para desmistificar tudo isso.
Se você já ouviu falar em alguém que emagreceu porque fez a ''dieta do tipo sanguíneo'' ou que se curou de alguma doença por causa da auto-hemoterapia, cuidado! Os dois procedimentos não são aceitos pela Sociedade Brasileira de Hematologia e até hoje não passaram por comprovações científicas que pudessem afirmar o sucesso das metodologias.
O hematologista Fausto Celso Trigo explica que muito se fala de uma dieta alimentar balanceada, com alimentos saudáveis, mas isso nada tem a ver com a tipagem sanguínea. Segundo ele, não há diferença da ingestão de certos alimentos para quem é do tipo A ou B, por exemplo. O que existe são pessoas com uma produção de sangue normal (o que seria considerado saudável), de acordo com seus hábitos alimentares. ''A medula produzirá um sangue bom naqueles indivíduos que ingerirem ferro por fontes proteicas animal (carnes vermelhas, frango e ovo) além de folhas escuras e leguminosas em grandes quantidades porque o ferro dos vegetais é pouco absorvido pelo organismo'', diz.
Quanto ao tratamento por meio do sangue, não é incomum pessoas que procuram médicos em busca da auto-hemoterapia. Fausto Trigo lembra que essa técnica pode, inclusive, levar a consequências negativas no paciente. ''Fisiologicamente, sangue não é para estar dentro do músculo, sangue deve ficar dentro dos vasos sanguíneos. Quando isso acontece ele gera reação inflamatória porque não devia estar lá. Quando gera reação inflamatória, gera dor, calor e acaba infectando. É possível acontecer até mesmo uma necrose de pele'', enfatiza.
Já uma nova pomada cuja matéria-prima é o sangue estudada por pesquisadores da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Botucatu (SP) surge para um novo tratamento de cicatrização. O hematologista explica que todos os tratamentos derivados do sangue têm por base o seu conteúdo. Segundo ele, existem os componentes que ficam mergulhados no plasma humano que são as proteínas e entre as proteínas existem hormônios, substâncias ativas inflamatórias que auxiliam no processo de inflamação, cicatrização e é nisso que se fundamenta esse tipo de pomada. ''São fatores de crescimento presentes no plama, nas plaquetas e que aumentam o poder de cicatrização melhorando o ferimento'', diz.
Doação
Como vida que é, o sangue é responsável por muitas funções enquanto circula pelo corpo e muitos precisam ainda mais dele, desde acidentados até doentes com patologias que envolvem a deficiência de sua produção ou qualidade. Por isso, o médico lembra da importância da doação de sangue.
Atualmente, são coletadas por ano no Brasil uma média de 3,5 milhões de bolsas de sangue, quantidade que está sempre abaixo da demanda. No Hospital Universitário de Londrina (HU) a média de doações é de 1,1 mil litros por mês com uma realidade que cai para 950 bolsas de sangue. Segundo dados do Ministério da Saúde, o Brasil tem hoje apenas 1,8% de doadores.
''O sangue doado nos Bancos de Sangue é rigorosamente testado para afastar a presença de agentes infecciosos transmissíveis por transfusão, além de haver uma entrevista médica rigorosa previamente à doação. Isto porque o sangue é um material biológico, é vivo e pode causar infecção, transmitir doenças, etc. Existem muitas restrições ao indivíduo ser doador, isso inclusive deixa algumas pessoas furiosas. Elas precisam entender que doação de sangue trata-se de responsabilidade. Hoje, mais do que as campanhas de doação de sangue precisamos que a população se conscientize mais e passe a doar mais, ainda que seja uma vez no ano apenas, mas sempre, até seus 65 anos de idade'', finaliza.
Serviço:
Para ser um doador, basta procurar o hemocentro de sua cidade. Em Londrina o hemocentro do Hospital Universitário (HU) de Londrina atende no (43) 3371-2000.

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