O simples gesto de se olhar no espelho pode ter um diferente "reflexo" entre aqueles que perderam parte da face. O mesmo se aplica em lidar com os olhares curiosos nas ruas.
Talvez, uma parcela da população não considere o quanto a autoestima é importante para essas pessoas, mas a ciência, sim. Especialmente, o ortopedista sueco Per-Ingvar Brånemark, falecido em 2014.
Ele esteve à frente de um grupo de pesquisadores da Universidade de Gotemburgo, em 1965, que descobriram a Osseointegração. A técnica, que basicamente se explica pela união funcional entre o osso e uma superfície de titânio, se tornou base para receber próteses fixas de longa duração, e desde então, vem sendo difundida e aprimorada.
Hoje, alguns pacientes em Londrina estão tendo acesso a esse benefício pelas mãos de um cirurgião dentista especialista em buco-maxilo-facial e um protesista. A dupla desenvolve, manualmente, próteses à base de silicone ou resina acrílica, para os olhos, orelhas, nariz e boca.
O dentista Henrique Sato explica que antigamente as próteses eram basicamente adaptações fixadas com cola ou através de acessórios. Por exemplo, as próteses de nariz muitas vezes eram acopladas aos óculos.
"Hoje, por meio de implantes, é possível fixá-los no osso humano e criar uma prótese adaptada, que acaba se encaixando como uma espécie de imã ou clipes", diz.
Acompanhado pelo protesista Wilson Kobayashi, o dentista buscou aprimorar a técnica em Bauru, um importante centro de reabilitação extraoral. Com palestrantes da Suécia e França, eles acompanharam a realização de próteses em alguns pacientes.
"A dificuldade maior era sobre como fazer esse tipo de prótese, pois é algo extremamente personalizado, individualizado. Já trabalhamos com as intrabucais, e o desejo era aprender mais sobre as próteses extraorais", comenta.
Todas as próteses são removíveis para higiene e a durabilidade gira em torno de dois anos. "De tempos em tempos, é preciso ser revista, pois como o material é de silicone, vai perdendo a tonalidade da pele", acrescenta.
Em relação aos custos, Sato afirma que os valores dependem muito da complexidade da prótese. Porém, adianta que há uma variação entre R$ 2 mil a R$ 10 mil. "Todo esse trabalho é feito, por enquanto, no consultório. Estamos iniciando esse processo em Londrina, mas a ideia é ampliá-lo e torná-lo, futuramente, acessível a todos", completa.

Câncer
A reabilitação extraoral pode ser indicada para casos decorrentes de acidentes, problemas congênitos ou cirurgia oncológica. Sato e Kobayashi, que atuam no Hospital do Câncer de Londrina (HCL), já realizavam a reabilitação da parte oral, ou seja, atendendo pacientes que perderam parte de língua, céu da boca e apresentam dificuldades para se alimentar e até ingerir líquido.
No entanto, pelo fato de estarem envolvidos no HCL, estão sempre em contato com uma demanda de pacientes que perdem nariz, olho ou orelha, por consequência do câncer.
"Quem trata a questão do câncer são os médicos oncologistas, mas a gente acaba se associando, pois muitas vezes as cirurgias de cabeça e pescoço são muito mutilantes", conta Sato.
Pensando justamente em oferecer uma melhor qualidade de vida e resgatar o convívio social desses pacientes, eles ampliaram a prática. De acordo com Sato, as remoções mais comuns ocorrem em parte da boca, onde geralmente se extrai parte da arcada inferior (parte da mandíbula).
Na face, em geral são as ressecções de pele com a retirada de tumores de nariz e órbita (região dos olhos). "Depois que os pacientes sofrem todo o processo de cirurgia, passam pelo tratamento com quimioterapia ou radioterapia e depois de curados é que é possível fazer a reabilitação com prótese", explica.
Em Londrina, os especialistas atenderam, desde o ano passado, de três a quatro pacientes, mas anteriormente encaminharam mais de 20 para o P-I Brånemark Institute Bauru, no interior de São Paulo.
"A cirurgia de remoção de tumor já é bastante sofrida para os pacientes e o convívio social fica muito comprometido. Tem pacientes que, inclusive, se isolam ou entram em um quadro de depressão. Ver a transformação na vida deles é muito gratificante", conclui.

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