Redes sociais potencializam mau uso da pesquisa sobre alimentos

Enxurrada de “posts”, principalmente sobre os "superalimentos" , atrapalha estudos sérios, valorizando informações que ainda não estão finalizadas

Victor Lopes - Grupo Folha
Victor Lopes - Grupo Folha

Redes sociais potencializam mau uso da pesquisa sobre alimentos
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No Instagram, a blogueira fitness sem formação em nutrição conta que está comendo uma nova “berry” para queimar gordura. O médico guru com canal no YouTube indica uma planta medicinal para eliminar a diabetes de vez. Já na TV, o programa famoso de fim de noite aponta uma pesquisa sobre uma nova dieta dos europeus que traz “longevidade e alegria de viver”. 


Pode parecer exagero, mas se o leitor se preocupa com a alimentação do dia a dia, bem provavelmente já se deparou com esse tipo de desinformação sobre os “superalimentos”, aqueles que teoricamente seriam capazes de transformar a dieta alimentar e condição física das pessoas de forma mágica. O grande problema é  que essa enxurrada de “posts” - cada vez mais ligados às redes sociais - atrapalha diretamente as pesquisas sérias sobre os alimentos, valorizando informações que ainda não estão finalizadas, causando transtornos à população.




Eliana Bistriche Giuntini é nutricionista com doutorado em Nutrição Humana Aplicada, atuando principalmente em ensaios clínicos de respostas glicêmicas, fome e saciedade e composição dos alimentos. Ela atua no Centro de Pesquisa em Alimentos, (também conhecido pelo nome em inglês, Food Research Center, o FoRC), na USP (Universidade de São Paulo ), um grupo que visa melhorar a saúde e o bem-estar por meio da pesquisa, da educação e da inovação em ciência dos alimentos. Ela vê com preocupação o mau uso da informação em relação à pesquisa com alimentos.

 

Algo que acontece com frequência nos laboratórios é focar em determinado nutriente de um alimento para verificar se há algo importante para saúde humana. A lógica é simples: primeiramente estudos in vitro, depois em animais e só então a parte clínica com pacientes. “É um processo longo. Às vezes tratamos de algo experimental, que tem bons indícios (para a saúde humana), e isso é jogado na mídia como a cura de algo. Tivemos o caso da farinha de banana verde, que tem o poder de atenuar o perfil da glicemia, mas ainda estava em avaliação. Acabou saindo na TV que era indicado para diabéticos e as pessoas começaram a ligar aqui para fazer parte da pesquisa.”


“Se existisse um superalimento, nos alimentaríamos de quatro ou cinco e não ficaríamos doentes, teríamos o copo seco, magro e disposto. Isso na prática não existe"

Eliana Bistriche Giuntin, pesquisadora do Forc





A pesquisadora do FoRC bate na tecla que isso acontece porque as pessoas buscam soluções e dietas milagrosas, algo que o conceito dos “superalimentos” oferece de forma equivocada. “Se existisse um “superalimento”, nos alimentaríamos de quatro ou cinco e não ficaríamos doentes, teríamos o copo seco, magro e disposto. Isso na prática não existe. Os produtos, na alimentação em geral, têm uma composição e não são feitos de um único componente ou bioativo. O que acontece é que se destacam por uma fonte ou outra.”


Além disso, quando um alimento de fato se destaca, as pessoas podem acabar utilizando-o de forma equivocada na dieta, sem pensar nela como um todo, e mesmo assim esperando mudanças corporais significativas. “A aveia, por exemplo, não eleva a glicemia rapidamente. Mas se a pessoa for comer com banana e muito açúcar, a quantidade de fibra não é capaz de impedir um pico glicêmico (perdendo a eficiência).” 

Redes sociais potencializam mau uso da pesquisa sobre alimentos
Folha Arte
 




DIETA MONÓTONA

Portanto, a pesquisadora não descarta os alimentos que estão na moda, como goji berry, sementes como a chia, entre outros. “São bons alimentos, mas não adianta consumi-los sozinhos, não são suficientes para a melhoria absoluta do padrão alimentar ou de saúde. Nenhum terá fontes suficientes para suprir necessidades, por mais que sejam fontes de vitaminas e bioativos. É preciso se esforçar para consumir alguns alimentos. Ter uma dieta monótona não vai suprir tudo que o corpo precisa. O corpo humano, assim como de qualquer animal, precisa de série de componentes em equilíbrio.”


Por fim, o FoRC criou um site chamado “Alimentos Sem Mitos” (https://alimentossemmitos.com.br/), em que é possível descobrir muitas informações que são passadas para a população de forma equivocada. “É interessante que muitas pessoas entram no site para nos xingar, porque não querem ouvir a fundamentação científica sobre alguns alimentos (que acaba quebrando uma expectativa de ação milagrosa da população).”


SALVADOR DA PÁTRIA

Valéria Mortara, nutricionista: "É o conjunto que comemos que fará uma boa alimentação. Comparando, dá pra dizer que não adianta usar uma calça boa de marca se o resto da roupa está suja e amassada.”
Valéria Mortara, nutricionista: "É o conjunto que comemos que fará uma boa alimentação. Comparando, dá pra dizer que não adianta usar uma calça boa de marca se o resto da roupa está suja e amassada.” | Gustavo Carneiro - Grupo Folha
 



O conceito de alimentação sobrepõe a ideia de ingerir apenas os nutrientes ideais. Assim a nutricionista comportamental, Valéria Mortara, de Londrina, explica como lida com esses modismos perigosos ligados aos “superalimentos”. “A alimentação é algo grande: o tipo de alimento que se come, a quantidade, a hora, a forma com que se come. Por isso não existe um alimento salvador da pátria.”


Um ponto importante citado por Mortara é que o alimento pode até ter um benefício específico, mas por outro lado talvez o paciente não precise daquela componente. Em alguns casos, essa ingestão pode até se tornar perigosa. “A castanha do Pará é rica em selênio, mas a gente não precisa só disso (na dieta). Um doente renal não pode, por exemplo, comer um monte de brócolis. A ciência faz o papel dela descobrindo boas fontes que em algumas situações as pessoas estão precisando, só que às vezes o que bom para um não é para o outro.”


A afobação em busca de informações ligadas a pesquisas não concluídas também é lembrada pela nutricionista. Ela puxa na memória o caso da farinha de feijão branco. “Na pesquisa os ratinhos emagreceram muito com a farinha, mas depois tiveram câncer no pâncreas. Primeiro é preciso saber se essa pesquisa é fidedigna. Depois, no último estágio da pesquisa, saber se realmente funciona. Por fim, a pergunta é se a pessoa precisa desse alimento. É o conjunto de alimentos que comemos que fará uma boa alimentação. Numa comparação, dá pra dizer que não adianta usar uma calça boa de marca se o resto da roupa está suja e amassada.”


Por fim, ela cita que muitas vezes as pessoas estão procurando o alimento milagroso ou o vilão da alimentação, sem pensar como um todo. “O ponto positivo é que às vezes a pessoa (aposta em algum alimento ou deixar de comer outro) e começa a prestar mais atenção na alimentação dela como um todo.”


VALORIZAÇÃO


Nessa onda dos super foods, quem aproveita para faturar é a indústria de alimentos. Um nutriente encontrado em determinado alimento pode, por exemplo, se tornar uma cápsula concentrada ou um produto industrializado completamente fora do propósito nutricional. “A própria indústria tem essa jogada do alimento funcional, mas o fato é que as pessoas não sabem o que estão comendo e acham que é saudável”, alerta a nutricionista Thais Salomão, de Londrina. 


“A própria indústria tem essa jogada do alimento funcional, mas o fato é que as pessoas não sabem o que estão comendo e acham que é saudável”

Thais Salomão, nutricionista




Outro ponto citado por Salomão é a mania errada de pensar a alimentação buscando os nutrientes de forma isolada. “Vários estudos mostram que a suplementação isolada de um nutriente, por mais saudável que ele seja, nem sempre vai ter uma boa resposta. Cápsulas, por exemplo, podem não trazer benefícios. O alimento em si pode ter outros compostos para interagir. Nas frutas por exemplo, a casca tem propriedades, na semente, na polpa, tudo vai acabar contribuindo.”


Geralmente, explica a nutricionista, os pacientes já chegam no consultório consumindo determinados alimentos por conta própria. “Antes de utilizar (cápsulas ou super foods), é preciso saber se o organismo está apto para receber tudo isso. Se a digestão da pessoa não é boa, por exemplo, nem adianta tomar cápsulas porque o intestino não absorve”. Outra pegada é a valorização demasiada dos alimentos importados. “O mirtilo é um exemplo, sendo que aqui no Brasil tem alimentos ricos com mesmas propriedades.”


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