'Quanto mais limites dávamos, pior ele ficava'
Felipe (nome fictício), de 6 anos, sempre foi uma criança com dificuldade de adaptação a mudanças. A mãe, Fernanda (nome fictício), explica que o comportamento do menino piorava quando a família viajava, quando havia festas de aniversário ou algum evento em que era preciso sair da rotina. Aos poucos os pais perceberam que o menino não conseguia se controlar quando ficava ansioso e, além da desobediência e agressividade, Felipe tinha surtos de compulsão alimentar. "Ele atacava a comida. Chegou a esconder leite em pó e achocolatado no quarto e um dia o pegamos comendo maionese de colher", conta a mãe.
De acordo com Fernanda, o grau de desobediência de Felipe chegou ao "absurdo". "Ele me bateu e cuspiu na cara do pai. Não é normal uma criança que enfrenta os pais desta forma. Vimos que ele não estava bem, havia perdido o controle e que na verdade implorava por ajuda", conta. Até entender o que se passava com Felipe, os pais se sentiam culpados pelo comportamento do filho. "Sempre fomos muito rigorosos na educação dele, mas parecia que quanto mais limites colocávamos, pior ele ficava."
Ela lembra que chegou a fazer um curso sobre educação de filhos, mas percebeu que o comportamento difícil não era restrito aos momentos em família. "Ele perdeu a faixa do judô e parou de ser chamado para os campeonatos de futebol. Notamos que a dificuldade estava presente em todos os setores da vida dele", acrescenta.
Por recomendação de uma amiga psicóloga, Fernanda decidiu procurar um psiquiatra infantil e acabou descobrindo que as atitudes do filho eram resultado de um processo químico já conhecido pelos especialistas. Vários testes foram realizados até que ele fosse diagnosticado com o Transtorno Desafiador Opositivo (TDO). A confirmação do problema veio junto com a necessidade de iniciar a medicação da criança.
"Foi muito difícil ouvir que meu filho teria que tomar remédio, só aceitamos esta possibilidade depois de vários testes apontarem para o mesmo diagnóstico. Não é culpa nossa, é um processo químico do cérebro que nasceu com falha", justifica a mãe. De acordo com ela, apesar da resistência inicial, a família aceitou a medicação e percebeu que esta era a ajuda que o menino precisava. "Em quatro dias de remédio a minha família já era outra, ele estava mais calmo e natural. Meu filho não ficou dopado, ele simplesmente conseguiu ajuda para se acalmar, ouvir e obedecer quando necessário", conta Fernanda.
Apesar dos vários ganhos com a medicação, a mãe afirma que quando foi preciso alterar a rotina do menino ele apresentou uma pequena regressão. "Sabemos que ele pode ter recaídas, ele faz terapia semanalmente, a escola acompanha tudo de perto e como ele está em crescimento, pode ser que o organismo corrija esta falha naturalmente", explica. Para ela, foi um grade ganho ter enfrentado o problema e buscado ajuda. (M.A.)




