Quantas micropartículas de plástico contêm o corpo humano?
Pesquisadores tentam pôr fim ao debate e estabelecem um modelo de investigação
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 02 de fevereiro de 2026
Pesquisadores tentam pôr fim ao debate e estabelecem um modelo de investigação
Daniel Lawler - France Presse 

Paris- Quantas micropartículas de plástico contêm o corpo humano? Diante de estudos científicos alarmantes e por vezes controversos, especialistas de todo o mundo estabeleceram um modelo de investigação para avançar no debate sobre sua possível insalubridade.
Nos últimos anos, pesquisas afirmaram que microplásticos foram encontrados em todo o organismo humano, inclusive no cérebro e no sangue.
No entanto, alguns desses estudos, em particular o que afirma ter encontrado o equivalente a uma colher de plástico no cérebro de cadáveres, foram alvo de duras críticas.
Para alguns cientistas, esses estudos seriam influenciados pela contaminação decorrente da presença de materiais plásticos em laboratórios, enquanto as técnicas utilizadas pelos pesquisadores poderiam confundir tecidos humanos, como a gordura cerebral, com plástico.
Presença indiscutível
Para encerrar o debate, 30 cientistas de 20 institutos de todo o mundo propuseram um novo modelo para a investigação sobre microplásticos, fruto de trabalhos publicados na terça-feira na revista Environment & Health. Essa metodologia permite que os pesquisadores precisem do seu grau de certeza sobre o nível de microplásticos detectados.
Essa presença de materiais no meio ambiente é indiscutível. Também é “muito provável” que o ser humano ingira regularmente microplásticos presentes no ar e nos alimentos, explica à AFP Leon Barron, pesquisador do Imperial College de Londres.
No entanto, ainda não há provas suficientes para afirmar que são relevantes para a saúde, segundo o autor principal do novo modelo de investigação, apresentado na semana passada.
Embora os microplásticos, e principalmente os nanoplásticos, sejam ainda menores, são muito difíceis de detectar, algumas pesquisas relatam sua presença em áreas do corpo humano onde era “menos provável” encontrá-los, indica Barron.
Leia mais:
'Cena de crime'
Assim, um estudo publicado na revista Nature Medicine no início de 2025 afirmou que foram encontradas descobertas de partículas de plástico —com um volume total equivalente ao de uma colher de chá— no cérebro de pessoas falecidas recentemente.
Isso implicaria que elas foram superadas como potentes defesas da barreira hematoencefálica, que isolaram o cérebro, argumentaram com ceticismo por vários cientistas.
Para alguns especialistas, a técnica utilizada neste estudo —pirólise-GC-MS— pode confundir gorduras com polietileno, comumente utilizada em embalagens de plástico. Contactado pela AFP, Matthew Campen, autor principal desse estudo, não respondeu.
Outras pesquisas foram criticadas por não utilizarem medidas de controle de qualidade que permitissem excluir qualquer contaminação cruzada.
Sem elas, “é impossível saber se os plásticos detectados provem dos próprios tecidos ou das embalagens, dos produtos químicos, dos equipamentos de laboratório ou das partículas de plástico presentes no ar”, explicou à AFP Dusan Materic, pesquisador especializado em microplásticos.
O modelo proposto pelos pesquisadores convida os pesquisadores a utilizarem diferentes técnicas para detectar microplásticos de forma confiável.
Para Barron, assemelha-se ao método utilizado por cientistas periciais para analisar fibras de carpete encontradas na “cena de um crime”: garantindo, à medida que avançam, a confiabilidade de seus resultados.
A ideia é “colocar todos os laboratórios que realizam esse trabalho em igualdade de condições”, permitindo-lhes especificar o seu grau de confiança nos resultados, afirmou. Segundo ele, essa ideia “já começa a ganhar espaço”.
Transparência
Isso implica que os cientistas demonstrem transparência publicando todos os dados brutos de seus estudos e adotando práticas rigorosas de controle de qualidade.
“Para ser claro, os microplásticos são um problema”, resume Barron.
“Todas as pesquisas realizadas até agora foram conduzidas de boa-fé”, afirma, mas para determinar se os microplásticos são relacionados à saúde, é necessário chegar a um consenso sobre os níveis encontrados no corpo humano.
“Os cientistas que se depreciam mutuamente na mídia não estão sendo construtivos”, argumenta.




