Criança que não aceita receber ordens, se descontrola facilmente, se revolta contra os pais diante de uma negativa e não se responsabiliza pelos erros que comete nem sempre deve ser taxada de "birrenta". Ela pode ter um distúrbio chamado Transtorno Desafiador Opositivo (TDO), identificado principalmente pelo comportamento irritável com facilidade, baixa tolerância às frustrações e o não respeito às punições. Geralmente, estas condições são percebidas nos primeiros anos escolares e atinge cerca de 10% dos indivíduos. "É um número expressivo, mas ninguém se arrisca a dizer porque acontece. Sabemos que não há uma única causa e, provavelmente, este comportamento se dá devido a uma junção de fatores biológicos aliados ao temperamento da criança", explica o médico psiquiatra infantil Diego Cavichioli.
O estilo de criação adotado pela família também pode influenciar o aparecimento do transtorno. "Uma família muito coerciva, que usa ameaça e agressividade para educar pode incentivar este comportamento. Além disso, a falta de diálogo e de estruturação familiar também está relacionada", afirma. Quando a criança cresce com este comportamento, alguns tipos de evolução são possíveis.
"Algumas melhoram na adolescência, outras amadurecem psicologicamente e aprendem a lidar com os problemas de uma forma mais assertiva. Há um grupo de crianças que tende a evoluir para outros transtornos psiquiátricos como ansiedade ou depressão e ainda há aquelas que passam a apresentar um quadro mais grave de transtorno de conduta", salienta.
Segundo o psiquiatra, o indivíduo que segue este último caminho pode desenvolver personalidade antissocial. Cavichioli explica que estas crianças infringem normas e leis, são propensas a usar drogas, ser agressivas e matar aulas. Na idade adulta, costumam não seguir as regras sociais e podem até cometer crimes.
Entre os 2 e os 4 anos de idade, o médico observa que é normal que a criança se oponha às regras dos cuidadores e faça birra em alguns momentos, já que este comportamento faz parte do desenvolvimento e está relacionado ao enfrentamento das frustrações. Porém, os pais precisam ficar atentos se as características persistirem após os 6 ou 7 anos. "A agressividade e o comportamento desafiador é normal até certo ponto, assim como a agitação", destaca o médico.
Psicoterapia
Para tratar pacientes com este quadro, Cavichioli destaca que a primeira indicação é a psicoterapia de base comportamental tanto para a criança quanto para os pais. "O enfoque deve ser treinar e instrumentalizar os pais para que eles saibam como lidar com os momentos de oposição. O principal é que eles aprendam a colocar regras e limites bem claros e não recompensar o filho quando ele se comporta mal", complementa o psiquiatra.
Enquanto os pais fazem terapia para lidar com a criança, o filho também deve receber atendimento psicológico. "O objetivo, neste caso, é incentivar o aprendizado de maiores habilidades sociais para que ele saiba resolver os conflitos de forma diferente e consiga controlar as emoções", ressalta.
O uso de medicações, segundo o psiquiatra, fica restrito aos casos mais graves ou que não apresentaram melhora com a psicoterapia. "O objetivo do remédio é reduzir a agitação e a agressividade da criança, mas esta não é a primeira opção de tratamento", aponta Cavichioli. Conforme ele, a medicação também pode ser a escolha do médico quando, além do Transtorno Desafiador Opositivo, a criança apresentar algum outro problema psiquiátrico como deficit de atenção, transtorno de humor ou ansiedade.

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