Segundo especialista, emagrecer não é só perder peso, mas lidar com emoções todos os dias
Segundo especialista, emagrecer não é só perder peso, mas lidar com emoções todos os dias | Foto: Shutterstock



A forma como as pessoas se relacionam com a comida é tão importante quanto a qualidade dos alimentos que ingerem, quando o objetivo é alcançar um estilo de vida mais saudável e até mesmo o emagrecimento. Dietas restritivas,
privação de determinados tipos de alimentos e a falta de sintonia com as necessidades do corpo são atitudes que, a longo prazo, podem engordar e até mesmo incentivar o aparecimento de distúrbios alimentares.

O psicólogo carioca Roberto Garcia Ramos Junior, responsável pelo programa Mente em Forma, adota a psicologia comportamental para ajudar pessoas que tentam emagrecer a evitar a "auto-sabotagem". Já a nutricionista com foco em comportamento Naiara Belmont, de Curitiba, baseia-se em pesquisas na área da neurociência para aplicar a chamada nutrição comportamental, que defende a ineficácia das dietas restritivas e incentiva os pacientes a se relacionarem melhor com a comida.

"Emagrecer não é só perder peso, mas lidar com emoções todos os dias na nossa vida", afirma Ramos Junior, que fez palestra sobre o tema em Londrina. Com uma história de compulsão alimentar que o acompanhou dos 11 aos 27 anos, o psicólogo conta que viveu uma rotina de iniciar todo tipo de dietas, pesquisar muito sobre o assunto, mas sem conseguir emagrecer. "Eu me sentia um fracassado", conta ele, que foi chamado de "fraco" em muitas ocasiões por pessoas que não conhecem os sintomas da compulsão. "É uma doença incapacitante", afirma.

Após realizar uma pós-graduação em terapia cognitiva comportamental, ele passou a estudar a relação dos sentimentos com os hábitos alimentares e, mudando a própria mente, perdeu peso e mantém até hoje uma rotina mais saudável. "As pessoas me perguntavam sobre meu processo de emagrecimento e eu falava mais sobre a mente do que sobre alimentos", revela. Para ajudar mais pessoas, Ramos Junior criou no Instagram o perfil "Mente em Forma", que aborda conteúdos relacionados ao controle das emoções na alimentação. Além disso, faz palestras e atende presencialmente ou via online grupos de pessoas de todo o Brasil que querem perder peso e alcançar um estilo de vida mais saudável. "É a realização de um sonho ajudar pessoas que podem estar passando pelo mesmo que passei", conta.

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O psicólogo defende o desenvolvimento do autocontrole frente aos desejos por alimentos que chama de "tentadores". A abordagem parte da observação de que a maioria das pessoas que o procuram para emagrecer sabe tudo sobre dietas, mas não consegue dissociar a alimentação de problemas como ansiedade e outros sentimentos. "É preciso desenvolver habilidade e capacidade emocionais para alcançar o objetivo de emagrecer", diz.

A troca da vontade permanente por vontades momentâneas é uma das formas mais comuns de auto-sabotagem. "Um exemplo disso são as pessoas que se recompensam com doces", destaca, lembrando que os indivíduos mais propensos a se sabotarem são os perfeccionistas que exigem muito de si mesmo e não conseguem lidar com "falhas". "Por isso é importante flexibilizar nossas regras internas de autoexigência", reforça.

Padrões de pensamentos também precisam ser modificados. É comum, por exemplo, as pessoas cometerem excessos alimentares no café da manhã e por isso exagerarem em outras refeições porque "já estragaram tudo". "Meu trabalho busca ressignificar padrões distorcidos de pensamentos", diz.

Sair do "piloto automático" e identificar os próprios pensamentos é o primeiro passo para quebrar o ciclo. Organizar a rotina de alimentação e exercícios e se "apaixonar" por ela é outra dica de Ramos Junior. "Quando a rotina deixa de ser obrigação e passa a trazer alegria, fica mais fácil", afirma.

Ele lembra que nenhum alimento deve ser proibido e "sair da dieta" é até mesmo aceitável em uma rotina saudável. "O ideal é se relacionar bem com todos os alimentos. Equilíbrio é um treino mental que exige paciência", ensina. Aumentar o "cardápio de prazeres" e descobrir outras fontes de recompensa são outros comportamentos esperados para quem busca melhorar a relação com a comida.

É possível dizer 'não' às dietas?
Com mais de cinco mil seguidores no Instagram, a nutricionista com foco em comportamento Naiara Belmont, de Curitiba, não cansa de repetir uma informação que costuma chocar quem não conhece sua linha de trabalho. "As dietas não funcionam", garante.

Quando se formou em nutrição, ela se especializou em nutrição esportiva e passou a atender alunas de academias só de mulheres. "Eu trabalhava do jeito tradicional, prescrevendo dietas baseadas em cálculos", conta. O contato com o público das academias, porém, despertou em Belmont uma desconfiança sobre a ineficácia da prática. "Eram mulheres que tinham começado a fazer dietas muito jovens, já tinham ido em vários nutricionistas, sabiam tudo sobre alimentação mas continuavam com sobrepeso. Muitas tinham sintomas de compulsão", destaca.

Medo e culpa ao comer é outro comportamento que fazia parte do universo das pacientes. "Intuitivamente, comecei a achar que não era certo um profissional dizer para qualquer pessoa o que ela podia ou não comer. Passei a pesquisar o assunto, conheci o blog do Genta (Grupo Especializado em Nutrição e Transtornos Alimentares e Obesidade), descobri a nutrição comportamental e confirmei que prescrever dietas e incentivá-las a contar calorias não fazia sentido porque não ajudava as mulheres", diz.

A nutricionista lembra que, por questões metabólicas, a prática de dietas restritivas faz com que as pessoas engordem cada vez mais, pois o cérebro não entende a privação de alimentos. "Isso está documentado pela ciência. Além do ganho de peso, quem faz dieta passa a comer com medo e culpa, se torna insegura e com baixa autoestima", afirma. Muitas das pacientes de Belmont admitem, inclusive, que sequer precisavam emagrecer quando começaram a fazer dietas, mas iniciaram a prática pela pressão para se enquadrar em padrões irreais. "Se não tivessem começado a dieta, não estariam gordas", defende.

A consequência do ciclo vicioso de restrição de alimentação para depois retomar a ingestão de comida é o temido "efeito sanfona". "A primeira dieta funciona bem porque o cenário metabólico não foi modificado. O problema é que a pessoa volta a engordar e, a cada fim de dieta, ganha cada vez mais peso", alerta.

A nutrição comportamental, segundo ela, propõe um olhar mais gentil em relação aos pacientes. "Magros ou gordos, os pacientes são indivíduos com histórias e sentimentos. Muitas vezes, o ganho de peso é reflexo de outras coisas desajustadas na vida que acabam levando ao 'comer emocional'", diz, referindo-se ao hábito de lidar com emoções através da comida, ingerindo grandes quantidades de alimentos para sentir conforto e se distrair dos problemas. "Tem gente que passa por situações difíceis e acha que a única coisa boa que resta é comer", afirma.

Em busca de uma abordagem mais humanizada de atendimento, a nutricionista destaca que a perda de peso não é o foco principal do trabalho, mas uma consequência. "Observo se há uma necessidade real de emagrecimento e se o desejo é possível, para não gerar frustração", diz. O mais importante, explica, é normalizar os hábitos alimentares e de vida e ajudar as pessoas a recuperaram uma relação saudável com a comida.

Belmont enfatiza que muitas pessoas gordas têm bons hábitos, são ativas e possuem um estilo de vida mais saudável que indivíduos magros. "Um magro estressado, que fuma muito e come mal corre mais riscos de ficar doente. Mas o estigma sempre recai sobre os gordos", comenta.

Apesar da permissão incondicional para comer, o paciente que segue a linha comportamental na nutrição não vai ser orientado a comer de tudo sempre. "A base da alimentação sempre deve ser de alimentos frescos, com baixo consumo de produtos super processados. A alimentação rica em frutas e verduras é um fator protetor da saúde, mas pizza e brigadeiro são aceitos e bem-vindos eventualmente em uma dieta saudável. O extremismo no 'comer saudável' pode levar à compulsão alimentar", adverte.

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