Ainda pouco conhecido no Brasil, um projeto que deve trazer inúmeros avanços para a neurociência num futuro breve tem sido amplamente divulgado nos Estados Unidos. O Connectome, apelidado por ''genoma do cérebro'', pretende desvendar as conexões cerebrais e mostrar que o cérebro é uma grande rede que funciona totalmente interligada com o corpo, diferente do que se pensava até então. O projeto conta com a participação de 34 pesquisadores de nove instituições internacionais e se concentra, principalmente, no National Institutes of Health, do Departamento de Saúde dos Estados Unidos.
O neuropsiquiatra e professor voluntário na Universidade Estadual de Londrina (UEL), Eduardo Prado - que também faz pesquisas na área - explica que o estudo vai dissecar cada fiação neuronal com a ajuda de supercomputadores e deve contribuir, entre diversas outras coisas, com a evolução dos diagnósticos de doenças neurológicas.
''É um trabalho difícil porque o ser humano conta com 100 bilhões de neurônios em cerca de dez trilhões de conexões. Mas é um processo para gerações que nos trará informações importantes para as próximas décadas'', destaca.
O médico lembra que até a década de 1960 duas correntes de pesquisadores norte-americanos renomados entendiam o funcionamento do cérebro de maneiras distintas. Os ''localizacionistas'' acreditavam que cada parte do cérebro era responsável por uma função, como o sentimento de raiva, amor, memória, etc. Já os ''equipotencialistas'' entendiam que o órgão funcionava como uma máquina ativa manifestada por uma força vital gerando a expressão do corportamento humano.
''Nenhuma das duas correntes estava certa nem errada. Os dois grupos tinham um pouco de razão e uma parcela de erro nesses conceitos. Mas o que se sabe hoje é que o cérebro funciona em grandes redes altamente complexas que se processam dinamicamente envolvendo sentidos, memórias, emoções, etc'', diz.
De acordo com Prado, o Connectome possibilitará um monitoramento completo e o mapeamento dos caminhos neurais que explicam o funcionamento do cérebro. Outra novidade é a participação de um sistema matemático que revela o que ocorre dentro dos ''nós'' da grande rede de fiação que compõe o cérebro.
''O cérebro é uma máquina muito complexa. Como até então não havia meios para entendê-lo, vivíamos de teorias. Existem muitas doenças hoje que, depois desse trabalho, teremos condições de descobrir o que acontece enquanto elas se desenvolvem'', diz.

Avanço


A partir do Connectone, o cérebro nunca mais será o mesmo. Com os estudos já realizados, os pesquisadores entendem que o órgão não está apenas na cabeça. Para os especialistas, o cérebro se estende pelo corpo indo da ponta do dedão do pé até os fios de cabelo.
Prado ressalta que os resultados desse projeto poderão ser fundamentais na colaboração dos diagnósticos das doenças psiquiátricas, que atualmente são feitos basicamente por meio de observações clínicas. ''Hoje ainda não temos nenhum método que possa dar um correlato neurobiológico. A neurologia consegue diferenciar coisas mais graves, um tumor, mas quando é uma doença puramente psiquiátrica, não. Com essas pesquisas já se tem observado algumas alterações, o que vai ajudar muito na hora de identificar uma doença psiquiátrica e também tratá-la'', finaliza.

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