São Paulo - Reconhecido mundialmente, o PNI (Programa Nacional de Imunizações) tem um enorme cardápio de vacinas e durante décadas as taxas de imunização foram excelentes, acima das recomendadas pela OMS (Organização Mundial da Saúde). Mas nos dois últimos anos, a cobertura vacinal entrou em declínio. No calendário infantil, das dez vacinas recomendadas, a única que tem se mantido dentro da taxa de cobertura ideal é a BCG, contra tuberculose. A primeira dose é ministrada ainda na maternidade e isso talvez explique a manutenção da taxa de cobertura adequada. "A gente vê que para todas as outras vacinas tem tido um decréscimo acentuado. Em 2017, tivemos a pior cobertura vacinal dentro de muitos anos", lamentou a médica infectologista e membro da Sociedade Latino-Americana de Infectologia Pediátrica, Mônica Levi.

Em relação a poliomielite, a recomendação da OMS para que a população se mantenha livre da doença é de uma cobertura de 95%. O Brasil, durante muito tempo, manteve taxas em torno de 100% e a pólio foi erradicada há quase 30 anos não só no Brasil, mas nas Américas. Em 2016, o índice de imunização contra a paralisia infantil caiu para 84% e, em 2017, baixou mais um pouco, chegando a 78%. Em mais de 300 municípios brasileiros, a taxa de cobertura foi menor do que 50%. "Isso significa portas abertas (para a reintrodução da pólio). Enquanto a doença não está erradicada do globo, basta chegar uma pessoa infectada, um viajante que vá para regiões onde ainda tem circulação do vírus para deflagrar novamente a doença no País", alertou Levi. Atualmente, o vírus da poliomielite ainda circula no Afeganistão, Paquistão e Nigéria.

O sarampo também tornou-se uma grande preocupação para as autoridades de saúde. Após o surto da doença registrado em 2018, o Ministério da Saúde lançou mão, em agosto, da campanha contra a pólio e o sarampo para crianças de um a quatro anos e 11 meses de idade. A taxa de cobertura da vacina tríplice viral, que garante proteção contra sarampo, caxumba e rubéola, costumava ficar acima dos 95%, mas em 2017 o índice caiu para 85% para a primeira dose e 70% para a segunda dose.

Médica infectologista membro do Comitê Técnico Assessor em Imunização do PNI e integrante da Comissão de Controle de Infecção Hospitalar do Instituto de Infectologia Emílio Ribas, em São Paulo, Rosana Richtmann afirmou que de nada adianta um "PNI fantástico", com um número grande de vacinas, se essa oferta ficar "só no papel". "Se essas vacinas não se transformarem em um ato de vacinação de uma população, não adianta absolutamente nada", ressaltou. "Não existe vacina para arrependimento."

Richtmann considera "inadmissível" o registro de quase dez mil casos de sarampo no País em razão do elevado risco de disseminação da doença. "Em um grupo onde há uma pessoa infectada, 90% a 95% terão a doença se não forem imunizados, mas a eficácia da vacina é de 97%", comparou.

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