O preconceito sempre esteve presente na vida do educador social e professor de capoeira Márcio Gonçalves da Silva, de 34 anos. Ele conta que, por conta da língua presa, sempre foi alvo de bullying na escola e que a situação não mudou na vida adulta. A dificuldade na fala já custou a ele algumas vagas de emprego e todos os dias ele precisa se controlar para ser compreendido pelas outras pessoas enquanto se comunica. "Eu me policio muito para falar devagar, se eu ficar nervoso e acelerar a fala fica difícil para as pessoas me entenderem", explica.
Ele conta que não teve condições de iniciar um tratamento especializado antes, mas há cerca de dois meses começou a fazer acompanhamento com uma fonoaudióloga. "Eu preciso muito da fala no meu trabalho, preciso que as pessoas me entendam e a questão da língua presa me prejudica, por isso o auxílio profissional está sendo muito importante", salienta.
Márcio lembra que a língua presa não limita apenas a fala, mas o acesso ao mercado de trabalho. Após morar um tempo nos Estados Unidos e aprender inglês, ele voltou ao Brasil e se deparou com um anúncio de emprego para pessoas bilíngues. "Fiz a entrevista e a pessoa me disse que eu não tinha condições de assumir a vaga. Ela sugeriu que eu fizesse teste para uma vaga que não precisasse da fala e da língua estrangeira", conta. Enquanto para qualquer trabalhador o domínio da língua inglesa é um diferencial, para Márcio isso não é uma realidade. "As pessoas não levam esta habilidade em conta devido a língua presa. Sem oportunidade de trabalho fica difícil manter um tratamento e melhorar a minha dicção", complementa o educador social.
Por conta da idade, a cirurgia não é mais indicada para Márcio. Ele lamenta não ter se submetido ao procedimento ainda na infância. "Meus pais achavam que era normal eu falar diferente das outras crianças e não buscaram orientação. Eu sofria muito, mas acabei me adaptando à situação", destaca. Para Márcio, ter condições de se expressar é fundamental. "Você pode ler muitos livros e saber muitas coisas, mas este conhecimento não tem sentido se você não tiver condições de dividi-lo com outras pessoas", defende. Ele acrescenta que a autoestima e a autoconfiança de quem tem a língua presa são muito abaladas. "O cérebro processa as palavras de forma correta, mas na hora de falar eu não consigo pronunciar adequadamente.
Para não ver a história se repetir, Márcio afirma que fica de olho nos filhos. "Meu menino tem dez anos e também apresenta língua presa. Ele está fazendo acompanhamento com fonoaudióloga para ajudar a desenvolver a fala. A minha filha tem dois anos e ainda não identificamos nenhuma dificuldade na fala dela, mas quero que ela seja avaliada para ter certeza de que não tem nenhum problema", conclui. (M.A.)

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