Um dos parâmetros da Organização Mundial da Saúde (OMS) para definir a qualidade de vida de um indivíduo é a sexualidade, sob o entendimento de que se trata de uma necessidade básica e um aspecto da vida do ser humano que não pode ser separado de outros.
Isso porque a sexualidade não envolve somente a prática em si, mas também a percepção do prazer, o afeto, a autoestima e, claro, a saúde. Já está mais do que comprovado que manter relações sexuais ao longo da vida reflete na qualidade física e emocional das pessoas.
Geriatra há 22 anos em Londrina, Marcos Cabrera avalia que os indivíduos sexualmente ativos têm uma saúde superior em relação aos inativos. "A manutenção da sexualidade é um elemento de promoção de saúde em qualquer idade. Existe um erro coletivo em afirmar que ela se perde com o avançar dos anos. De fato, a sexualidade passa por algumas mudanças obrigatórias, mas tem um ganho enorme na questão sensitiva, afetiva. Nunca deixamos de ser seres sexualmente ativos", salienta.
Estudos recentes com pacientes entre 80 e 100 anos, com saúde, revelam que, de fato, a população idosa tem se mantido cada vez mais ativa sexualmente. Tanto é que atualmente os idosos também trabalham mais, estudam, sustentam famílias e se aventuram mais em viagens e passeios.
"A sexualidade faz parte da busca de uma identidade do indivíduo. É um direito que vai até o final da vida e que depende basicamente de um vínculo afetivo e da saúde física. O sexo impacta positivamente no bem-estar e nas condições cardiocirculatórias", avalia Cabrera.

Libido
Em uma visão biológica, é possível citar mudanças no processo de envelhecimento. Nos homens, por exemplo, o hormônio testosterona diminui e a ereção muda de característica, segundo o especialista. Ele diz, porém, que isso não impossibilita a relação.
Já nas mulheres, conforme Cabrera, ocorre uma redução na lubrificação e menor condição da mucosa. Porém, a ideia de que a menopausa é responsável pela diminuição da libido não é verdade, segundo o médico, pois o desejo não depende somente da questão hormonal.
"A menopausa representa um momento de maior vulnerabilidade no ponto de vista do coração, colesterol, acúmulo de gordura, perda óssea, entre outros. Alguns estudos apontaram recentemente que a mulher madura tem mais condição de sentir prazer na sexualidade. Então, não há essa correlação", analisa, citando inclusive as possibilidades de uso de lubrificantes e reposição hormonal para a mucosa.
Segundo Cabrera, nos homens também não há queda na libido com o passar dos anos, o que só ocorre quando o indivíduo é acometido por uma deficiência gonadal. "É uma doença que atinge em média 30% da população e, portanto, não é parte de um envelhecimento normal", diz. Para eles, também é possível repor o hormônio testosterona, desde que não se tenha contraindicações, e fazer uso de medicamentos que garantam uma ereção maior.
"O fato é que são remédios que têm efeitos colaterais importantes. Vale consultar um médico antes", diz, ressaltando que há grandes chances dos homens terem dificuldade na ereção devido à saúde circulatória. "Isso depende do controle da pressão, colesterol, diabetes, cigarro e exercício físico. Não é a carteira de identidade que determina nossa sexualidade, e sim nossa ficha corrida de doenças e a maneira que cada um lida com elas."

Comportamento
É evidente que essas mudanças modificam as formas de se relacionar. Porém, tão importantes quanto as questões fisiológicas, são os fatores comportamentais que influenciam as relações sexuais.
Segundo Cabrera, a sexualidade é algo vulnerável na vida das pessoas. É a primeira coisa que deixamos de lado quando temos problemas financeiros, físicos, afetivos e de relacionamento com a família.
"Além disso, temos que repensar qual posição a sexualidade ocupa em nossa vida. Entre jovens e adultos, ela é central, mas na velhice passa a ser marginal. Há um senso comum ‘preconceituoso’ que serve como uma ‘autorização’ para que os idosos pensem que não precisam ser sexualmente ativos", analisa.
Entre todas essas questões, há um ponto que merece ser reforçado: a incidência da Aids entre os idosos. Pela falta de proteção (preservativo), um número cada vez maior de homens e mulheres tem se infectado por HIV, vírus causador da doença. Portanto, para um sexo saudável e seguro, também não há idade.

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